6.
Saí do prédio, caía uma garoa fina e me meti numa daquelas vielas laterais em que as pessoas costumam entrar pra ser assaltadas ou, no caso dos sem-tetos, assassinadas, de preferência com requintes de crueldade. Tive cuidado pra não pisar em alguém que estivesse dormindo por ali. Mortos não havia, porque nem um fantasma tentou me perguntar as horas ou pedir uma moeda. Eles não fazem por mal, é força do hábito. Um monte de andrajos vazio num canto chamou minha atenção porque… faltava algo. Não tinha energia psíquica alguma. Mesmo que fossem só roupas empilhadas se encharcando lentamente, eu deveria ser capaz de fazer uma leitura qualquer das pessoas que as usaram antes.
Tinha outros problemas, minha concentração focou-se neles e, pow!, a voz de um bêbado que não devia estar lá chegou aos meus ouvidos. Arrum, ele disse, Lucas bateu um papo com os deuses, filho-de-coisa-ruim, e pediu que eles descolassem alguma proteção pra você… pro caso daquele demoniozão-pica-grossa querer se antecipar e te mandar pro inferno antes que seu tempo aqui se esgote.
Bom… e aí?
Aí eles me mandaram, porra! Tem grana pra birita? Tou ficando com a goela seca de tanto falar.
Tá certo. Tem um bar ali adiante…
Chuva, ele falou e, de imediato, a garoa fina engrossou e arriou o maior molho. Cacete! Thoth e Hermes mandaram um Elemental pra bancar meu guarda-costas? Alcoólatra, boca-suja e fedorento, ainda por cima?
Os caras definitivamente gostavam de uma ironia. Pelo menos tinha minha higiene sob controle agora, o que reduzia nossas semelhanças a dois aspectos gerais.
Quem não soubesse o que Chuva era o confundiria com outros milhões de moradores de rua, verdadeira nação sem fronteira ou identidade, homens invisíveis em que ninguém repara, resmungões, às vezes violentos, sem contar outras características já mencionadas que espantam transeuntes ocupados com as contas no fim do mês e que, sem saber, estão a uma temporada ruim, um desemprego prolongado, uma recaída sem volta no alcoolismo, um desequilíbrio neuroquímico qualquer de tornarem-se iguais a eles.
Esconda onde todo mundo pode ver. Truque comum em romances de mistério e no manual de usuário das forças ocultas. Lucas estava em boas mãos. Os deuses geralmente têm um plano e meu amigo era uma ferramenta útil, portanto, indispensável.
Entramos encharcados no bar e Chuva se dispunha a ‘regar as tripas’ com o que quer que lhe servissem. Gargalhou feito louco quando o barman quis colocá-lo pra fora e eu disse que ele estava comigo e pra trazer o que quisesse. O homem ia retrucar, mas olhou pro Chuva e mudou de idéia, dizendo um Meu Deus, sem graça, entonação e cheio de vergonha genuína. Achei gozado na hora.
Depois de ingerir combustível suficiente, Chuva me acompanhou ao lugar que assombro mais do que vivo, um depósito no cais, amplo o bastante pra guardar as tranqueiras compulsórias do ofício e servir como loft. Recusou-se a entrar. Pelo jeito que mencionou meu pai, não duvido que, também, o conhecesse… o velho tinha todo tipo de idéia arcaica, entre as quais destacava-se um tratamento não muito ‘humano’ (por falta de palavra melhor) aos elementais que, em sua opinião, deviam permanecer lacrados em garrafas até que fossem necessários.
Dentro do depósito separei os itens que seriam necessários pro confronto e os guardei dentro de uma bolsa esportiva que tinha adquirido num dos surtos em que me dispus a praticar uma atividade física qualquer regularmente. Apesar de a precipitação ter amainado peguei meu impermeável. A Virgem ficaria mais comodamente escondida com ele sobre o moletom com capuz que eu vestia há séculos, desde os primeiros ataques psíquicos e meu refúgio em Chez Vlad. A cidade litorânea e sul-americana não pedia esse tipo de vestuário nem no inverno mais intenso e me fazia sentir como um clichê ambulante de histórias detetivescas, faltando só um Fedora pra completar a impostura e arrependido de antemão, presumindo o suadouro que ia enfrentar.
Melhor suado e vivo que sequinho e assando no inferno a fogo lento, pensei. Tai um método de queimar calorias que não me dispunha a experimentar.
Chuva me acompanhou do melhor jeito possível no estado em que se encontrava. Tropeçava nos próprios pés o tempo todo mas não aceitava ajuda. Acho até que caiu um par de vezes, juro ter ouvido um som molhado de corpo batendo no asfalto da rua, mas quando me virava pra olhar, lá vinha ele no mesmo passo vacilante de sempre. Chuva sempre caía em pé. Não faço idéia do tipo de esforço ou concentração necessários pra manter a forma humana pra esse tipo de criatura.
Com o nome do demo só faltava ir a meu lugar de poder e acabar de vez com a palhaçada. Lugar de poder, pra mim, é onde (ou algo, ou quando) a natureza do homem entra em alinhamento com tudo que não é homem mas nos torna homens pelo fascínio que nos causa, pela curiosidade e terror que desperta e que, no final das contas, torna possível nossa existência. As contradições e paradoxos inexplicáveis pela ciência ou pelo ocultismo. Especialistas e generalistas. As razões irracionais. Quando vemos algo e pensamos ‘isto está certo’ sem precisar refletir muito sobre o assunto.
