12.5

September 7, 2008

Voltei à sala de visita acompanhado por Chuva. Merda, o jeito como pensei essa frase me fez lembrar dum desenho animado que já era velho na minha infância e tinha um sujeito azarado, mas tão azarado, que tinha uma nuvem de chuva sobre sua cabeça que o acompanhava aonde quer que fosse. Uruca. Esse era o nome dele.

Fazer essa associação com minha infância disparou  um efeito dominó pro qual eu não estava preparado e percebi que, bem ali, na minha frente, estavam versões reais de personagens que povoaram meus sonhos em tempos idos e foram primeiro sublimados depois esquecidos na rotina hipnotizante que chamamos de vida.

Essa absorção em mim mesmo durou pouco.

O Garça Negra, Velocidade da Luz e Mira Bandeira conversavam entusiasmados e ignoraram nossa entrada. Olhei pra Chuva e ele, ainda fedendo à bebida e ao líquido insalubre da privada, disse com seu tom de bêbado desleixado inspirado divinamente:

- É uma hora tão boa quanto qualquer outra, Bono.

Me aproximei dos três e lembrei do macaco-rato cagador de lagostas. Ou babuíno cagador de escorpiões. Ainda preciso decidir que versão é pior. Apesar de estar além do ateísmo, murmurei uma prece, organizada mentalmente de última hora e que, eu esperava, fosse o tipo de chamada que os deuses que supostamente me protegiam esperavam.

“Muito bem, senhores. O bicho vai pegar, mas quero sair vivo dessa e resolver o caso de vez. Favor atender pelo menos ao primeiro item.”

O Garça Negra estava de costas pra mim. Precisei pôr a mão em seu ombro e fazê-lo girar e ser tão rápido quanto o treinamento de Mira permitia pra fazer o que pretendi. Quando ele terminou a elipse sobre os calcanhares e vi meu reflexo em suas lentes soquei com toda força seu estômago. Um verdadeiro feito. Deixou o Garça muito aborrecido. Como ele não previu isso?

- Ficou louco, Profit?

Ele fez essa pergunta uns minutos depois enquanto examinava minha mão em busca de ossos quebrados. Como não reparei na armadura do cara? De qualquer jeito tinha capturado sua atenção e entre gemidos e auto-recriminação perguntei o que precisava saber.

“Por que você tava entrincheirado atrás do meu sofá e apontando um rifle pro meu peito?”

- Profit, aquilo não é um rifle, é um fuzil!

“Isso é melhor ou pior do que o que eu falei?”

- Nenhuma das alternativas. É só mais preciso. E eu não estava apontando pro seu peito. Estava apontando pra porta no caso de… você sabe.

“Não sei, não. Lembre que não sou um de vocês super-heróis e não conheço as palavras e senhas secretas de seu clubinho.”

- Gluóns, Profit. Quando você mandou sua secretária me chamar, achei que estivesse ciente da ameaça. Aliás, como ela me encontrou?

“Primeiro, Rita é minha estagiária, não secretária. Segundo, ela é estagiária de um detetive, meu velho. Sabe como é: três meses são mais que suficientes pra alguém com o conjunto certo de requisitos tornar-se capaz de encontrar qualquer um em qualquer lugar.”

- Muito impressionante, Profit. Soube que há uns meses você não seria capaz de dizer uma frase tão longa e com sentido. Parabéns. E você não quebrou dedo algum. Da próxima vez certifique-se de estar socando carne, não cota de aço revestida de kevlar.

“Vocês vivem repetindo isso e toda vez que pergunto recebo uma resposta meia-boca: que porra é um gluón?”

12.4

August 31, 2008

Mesmo sem poder vê-lo completamente, eu sabia que o rifle estava engatilhado. Terror absoluto inundou meu sistema nervoso. A repetição de um medo ancestral, memória filogenética de meu avô, soldado e policial, herói de aluguel que esteve sob a mira de armas tantas vezes e transmitiu a filhos e netos a tessitura da experiência, o horror ao mundo material, somente falando. Velho filho-da-puta!

O som que ouvi e que por segundos quase me fez perder o controle dos intestinos não era do cão da arma deflagrando o tiro… mais lento, mais pausado que qualquer outra coisa que já ouvira, era o som do rifle sendo desengatilhado.

O susto seguinte veio por via visual: um vulto preto saltando de trás do sofá e correndo em nossa direção. Ainda acelerado pela aura de Velocidade da Luz, pude distinguir o bico amarelo estilizado pintado na máscara, assim como as lentes assustadoras do Garça Negra se aproximando. Então ele atingiu rapidez surpreendente, passou por mim e abraçou Velocidade da Luz. Meio gay, mas não ia ser eu a dizer isso em voz alta. Não praquele cara e prum semi-deus.

- V.L.! Meu Deus, você sumiu por tanto tempo! Todo mundo pensou o pior.

- Já eu não consigo imaginar coisa pior do que o que aconteceu comigo, Garça. Em alguns momentos a morte teria sido bem-vinda.

Ok. Era de se esperar esse tipo de diálogo de sujeitos como eles. Era uma reunião do clubinho dos super-heróis. Ao ver Mira chegando e somando-se ao grupo me perguntei, não pela primeira vez, que raios eu estava fazendo ali.

Lembrei que estava preocupado com minha estagiária que, óbvio, já tinha se distraído novamente, absorvida numa conversa qualquer com sabe-deus-quem no MSN.

“Rita? Cê tá bem, garota?” tirei seus fones de ouvido dela e repeti a pergunta.

- Ai, chefinho, tou sim. O outro cara está no banheiro. Agora dá licença que o Phillips ta me contando como sobreviveu a um relâmpago graças ao wetsuit que usa debaixo das roupas formais em caso de ser abduzido pelos shoggoths pra R’Lyeh.

Não associei no momento, só quando encontrei Phillips de novo: talvez, afinal, ele não fosse um castrati.

Entrei no banheiro e me deparei com uma pilha de roupa sustentada por algum tipo de armação delicada que estava ajoelhada na frente da privada branquinha do meu reservado.

O que quer que fosse, não tinha cabeça. Cheguei perto. A pilha não se movia. Pus uma mão (cacófato) no que supus ser seu ombro e uma explosão de cabelo e barba encharcados pularam de dentro do vaso.

O cheiro de bebida barata e criolina me atingiu.

“Chuva! Que porra cê tava fazendo com a cara enfiada na privada, mané? Suicídio por afogamento?”

Ele arfou um pouco, retomando o ritmo respiratório.

- Bono, velho de guerra… tava comungando com nossos patrões. Eles me passaram as novas ordens. Tá na hora de mostrar nossa mão no jogo.

“Cê não podia usar telefone ou internet como todo mundo, porra?” perguntei, imaginando que não entenderia a resposta.

- Os deuses agem e falam por meios tortuosos, detetive. E quer coisa mais tortuosa que o sistema de esgoto duma cidade como a nossa?

O susto, dessa vez, foi porque entendi que o desgraçado estava certo. E foi claro.

Ainda mais uma informação necessária a ser obtida antes de dar a descarga, livrar-me da merda e resolver o caso.

12.3

August 24, 2008

Tudo a um passo de dar errado.

Saímos do centro e chegamos ao outro centro.

Velocidade da Luz queria que fôssemos imediatamente visitar Gauge. Eu queria falar com Rita. Precisava de um plano. Daí que a sorte interveio a meu favor. Meu celular tocou tão alto que até eu levei um susto. Era tudo de que precisava. Atendi e, como tinha de ser, Rita do outro lado da linha. Ela estava no escritório, nervosa, e eu não conseguia entender o que fazia lá em pleno domingo.

- Vim usar a internet, chefinho! E a gente tem visita… melhor, você tem visita.

“Quem é?”

- Um deles é o cara que você me mandou contatar da última vez que falamos. Já o outro…

“Peraí! Tem outro? E quem é?”

- Ele disse que você vai saber quando vier aqui.

Não tinha mais o que dizer. Falei pra Mira que precisávamos ir pro escritório, que era questão de vida ou morte e que tinha a ver com o caso. Ela acreditou e isso foi bom porque era verdade. Uma verdade meio manchada, mas ainda assim…

Depois de quase atropelar um pedestre desavisado ao estacionar o bandeiramóvel na calçada, Mira desceu e ameaçou o sujeito com a boa e velha violência física, enquanto eu corria o máximo que podia pro escritório. Velocidade da Luz me acompanhou e cruzamos a distância na vertical mais rápido que qualquer elevador.

Minha mão ia tocar a maçaneta, mas alguma coisa deu errado. Eu não conseguia envolvê-la com os dedos, que simplesmente a atravessavam. Um estouro surdo se seguiu e a maçaneta desapareceu enquanto nossa velocidade diminuía. Estávamos tão rápidos que meu corpo vibrava em outra freqüência… meus átomos desarranjaram os átomos da maçaneta. Mais uma vez, reminiscências de filmes de terror: a porta abriu sozinha, rangendo.

Rita estava com os fones de ouvido e não escutou a implosão da maçaneta. Assustou-se quando nos viu. Do outro lado da sala vi que um fuzil apontava pro meu peito detrás do sofá. Não era um cliente, óbvio. Clientes não costumam tocaiar detetives. Não desse jeito, em seus escritórios, na sala de espera. Eu precisava de toda ajuda que conseguisse e ele, afinal, veio.

12.2

August 17, 2008

A barata, descobri logo que encontramos Mosca atordoado, sobrancelhas chamuscadas, era o tal daemon. Mosca e barata. Que dupla!

O raio que tinha transformado os papéis de Roberto da Maia no anel de Velocidade da Luz quase desfez a cura miraculosa pela qual Mosca passou tempos atrás.

A pele de seu rosto estava avermelhada até o topo da cabeça. Não foram só as sobrancelhas que fugiram do perigo. Ah, e ele ficou um pouco mais lesado que o de costume.

- Nunca pensei que ia ver um troço assim: tava examinando o material no microscópio e vi, literalmente, a matéria se rearranjar! Nem os alquimistas tentaram transformar vegetal em mineral! Se bem que não estou levando em conta os coprólitos! Um campo Persinger-LaFrenière se abrindo e fechando sob meus olhos! Não tem dinheiro que pague essa experiência. Muito obrigado!

Ele falou, nós ouvimos, mas pressa era a palavra de ordem.

Pegamos o anel e Velocidade da Luz, bom, o “vestiu”. Não faz muito sentido, certo? Ele colocou o anel no dedo, sussurrou qualquer coisa e o metal começou a se comportar como líquido, cobrindo todo seu corpo, exceto a cabeça, com uma película dourada… ele não precisava mais de calças se é que isso interessa. O metal produzia também um design na pseudo-pele que imitava as linhas de costura dos tecidos mais finos.

Já estávamos de saída. Os cabelos azuis e o corpo dourado de Velocidade da Luz chamariam atenção quando chegássemos ao plano mais corriqueiro do centro da cidade e abandonássemos a iluminação bizarra do refúgio de Mosca.

Nem tive tempo de mencionar isso.

Mira e Velocidade da Luz já estavam no bandeiramóvel. Entrei e sentei no banco do passageiro ao lado da motorista. A energia que Velocidade emitia continuava funcionando como eletricidade estática pros meus pêlos e eu estava outra vez arrepiado.

- Pra onde agora? – ela perguntou olhando nosso carona pelo retrovisor.

“Talvez eu deva opinar sobre isso…”, consegui murmurar, já ciente de que não seria ouvido. Precisava dar um jeito de falar com Rita, de saber se ela conseguira fazer o que pedi. Precisava ganhar tempo, também, porque, apesar de as coisas estarem progredindo rapidamente pra sua possível conclusão, ainda não tinha esquecido que Lorre era um gluón, que Velocidade da Luz era amigo do inimigo do contratante e que estava nos levando diretamente a ele.

12.1

August 3, 2008

Mira foi a primeira super-heroína fantasiada a cruzar meu caminho. Velocidade da Luz foi o primeiro super-humano. Semi-deus, que seja.

Já tinha visto coisas estranhas. Cheirado, tateado e ouvido. Degustado, infelizmente. Mas algo miraculoso era diferente. Num instante o sujeito é um velho aleijado pela idade. Noutro foi substituído por algo saído dum romance fantástico escrito por Nietzche. A energia misteriosa que Velocidade da Luz exsudava fazia crescer minha vontade de movimento, a direção não importando, por qualquer razão.

- A dimensão de bolso está longe. – disse, suas palavras soando como energia conduzida por cabos mas lutando por liberdade.

- Velocidade da Luz? – Mira parecia meio arfante. – Seus documentos… suas coisas estão com uma pessoa de confiança na cidade. Você vai precisar delas?

Pensei no significado popular de ‘documentos’. O cara estava nu. Fazia sentido.

- Sim! Meus pertences devem ter se transformado também, agora que invoquei o relâmpago. Meu anel deve ter voltado.

Íamos ver Mosca, claro. Só que não podíamos circular com um semi-deus pelado. Tive um prazerzinho mórbido em tirar as calças de Phillips, que ainda estava desacordado, checar pra ter certeza de que ele mantivera o controle da bexiga e do esfíncter, e passar a bendita pra Velocidade da Luz. Só pra constar, a suspeita de que o sexo por telefone era uma ficção pessoal de Phillips foi confirmada. O homem era praticamente assexuado. Ou hermafrodita, como boa parte dos vermes.

As calças em Velocidade da Luz ficaram curtas, pareciam calças capri, o que ajudaria o cara a passar despercebido.

Convencê-lo a ir no carro quando o sujeito podia praticamente se teleportar pra onde bem desejasse foi difícil, mas Mira mostrou-se convincente e sedutora na medida certa.

Ele emprestou velocidade ao bandeiramóvel e fizemos o percurso em um doze avos do tempo normal. Claro que ao chegar na cidade perdemos todo o tempo ganho com as manobras rituais em ritmo desacelerado. Chegar à casa de Mosca era sempre uma puta chateação. Além disso eu não conseguia entender direito o lance do lugar. Era tudo igual ao centro da cidade, mas a luz ali parecia diferente, quase como se fosse um fluído, e uma tonalidade parecidíssima com a fotografia de um filme de terror da geração videoclipe.

Enfim, tínhamos chegado.

Entramos.

A aura energética de Velocidade da Luz iluminou o caminho até a sala de Mosca. Juro que vi uma barata de um metro de comprimento nos acompanhando, o que não aconteceu antes.

11.5

July 27, 2008

Aquilo era novidade.

Na lógica particular das histórias em quadrinhos, falar um nome mágico associado a um relâmpago tinha conseqüências transformadoras pra quem o fizesse.

Internamente eu torcia pra que Roberto da Maia dissesse o nome e se livrasse da gente, de Phillips, da cadeira de rodas, dos remédios e todas as outras aporrinhações derivadas da idade.

Algo moveu-se na minha memória, um sonho agora distante em que a mulher que não mais era mulher beijou-me repetidas vezes, seus lábios queimando um espaço internalizado, um pequeno trauma com duas sílabas. Só duas.

- Vocês vão pra dimensão de bolso comigo. Vão ajudar Gauge.

Não, não era essa a palavra. Era… bra qualquer coisa. O que quer que fosse Gauge, o velho me inspirava a querer ajudar, sim.

“Como? Quer dizer, quem é Gauge? Ou ainda, o quê é Gauge?

- Gauge veio pra nos salvar!

- Como é o nome do seu relâmpago? – Mira perguntou.

“Braman.” – eu disse.

Ambos me olharam. Estupidificados. O velho tinha uma expressão inédita no rosto. Reconhecimento. Felicidade. Como alguém que volta pra casa depois de muito tempo.

- Obrigado, sr. Profit.

Ele não pronunciou a palavra como eu esperava que fizesse. Seu corpo estremeceu e ficou ereto. Seus lábios formaram as letras com um sopro diminuto de ar.

Ele falou, mas fui ensurdecido pelo som. Um estrondo tão grandioso que estremeceu a terra sob meus pés. O céu rasgou-se de alto a baixo. Por um instante também não enxerguei nada além da luminosidade fulminante que caiu exatamente sobre Roberto da Maia. Pensei que o velho tinha sido desintegrado. Afinal, quando a luz se dissipou, pude ver Phillips estatelado na grama; Mira tinha um sorriso triunfante no rosto. Eletricidade eriçava todos os meus pêlos.

Maia estava curvado sobre si mesmo, mas a cabeça não era mais calva. Cabelos azuis claros, quase cinzas, derramavam-se sobre seu rosto. Estava nu. Suas roupas de convalescente foram consumidas pelo raio, relâmpago, o que quer que fosse.

Apoiando-se no que restou da cadeira, puro metal retorcido, ergueu-se, primeiro vacilante, depois ereto. Era longilíneo e parecia pelo menos quarenta anos mais jovem. Seu peito nu trazia a tatuagem de um relâmpago que se dividia várias vezes e terminava no umbigo. Sem motivo aparente, lembrei que várias culturas consideram o umbigo um dos centros de energia do corpo.

Maia dispendia fagulhas, parecia quase radiativo.

Sorriu pra mim um sorriso sem preço, de prazer absoluto, de poder sem igual. O Homem Mais Veloz do Planeta, Velocidade da Luz, tinha retornado.

- Sr. Profit. Enfim o vejo sem um véu entre nós.

Fiquei mudo. O que se pode dizer numa situação dessas? Ele soava bíblico, parecia saído de um filme com efeitos da IL&M. Calou minha boca pra valer. Pero no mucho.

11.4

July 26, 2008

Já disse o quanto Phillips parecia pegajoso? Não, não era um problema de higiene. Ele era até um bocado asseado. Quase cheirava bem. O ‘quase’ se deve a um travo de decomposição que, eu tinha a impressão, se insinuava por trás de todo aquele perfume.

Acho que tinha mais a ver com o fato de, querendo ou não, eu estar num tipo de competição com o cara. O prêmio seria, é claro, Mira Bandeira.

Não era saudável, do mesmo jeito que pensar em Mira desse jeito objetificado, soa errado. Mas era real, era o que estava acontecendo em minha cabeça naquele momento e eu simplesmente não conseguia resistir ao fluxo de pensamentos nesse sentido.

Ele se aproximou com aquele seu jeito tentacular e quase senti as ventosas em sua mão aderindo à carne da minha. Exceto que ele não tinha nenhuma ventosa à vista.

Tudo subproduto do ciúme.

- Mira, querida!

“Ela não está sozinha, como o sr. pode ver, Phillips. Aliás, é minha mão que o sr. está segurando. Favor não acariciar.”

- Claro, sr. Profit! Que distração a minha. Em que posso ser útil?

“Viemos visitar o amnésico… se o sr. não fizer objeção, evidentemente.”

- O sr. Maia vai ficar contentíssimo em recebê-los.

Dito isso Phillips escafedeu, não sem antes trocar um olhar aquoso com Mira que, aparentemente, se resignara a fazer o papel ingrato que Rita construíra pra ela.

O sol já desaparecia no horizonte deixando umas últimas pinceladas de vermelho no céu, que começava a parecer tempestuoso. Phillips veio empurrando a cadeira de Roberto da Maia e, tenho que admitir, parecia quase juvenil naquela réstia de luz dominada pelas trevas. Cantarolava qualquer coisa e corria de vez em quando, acelerando a velocidade de sua chegada.

- Cá estamos! – disse resfolegando.

“Exato. Sr. Roberto, lembra da gente?”

- Roberto não. Velocidade da Luz. É essa minha verdadeira identidade. Roberto é só a máscara que não faz mais sentido.

As nuvens pareciam se adensar enquanto o idoso falava. Fagulhas elétricas iluminavam os cumulus prenhes de água. Phillips parecia sinistramente rejuvenescido.

- Eu sei sobre o que vocês vieram falar. Gauge e glúons. Hoje lembro. Mas precisamos ser rápidos. Um de vocês trouxe o nome de meu relâmpago. Sei disso. Sinto-o queimando a ponta de minha língua. Por favor. Diga.

11.3

July 14, 2008

O tipo de situação que eu vivia sem saber era típica da guerra. Soldados dormem e comem sempre que podem, não por terem sono ou fome, mas por não saberem quando e se vão ter a oportunidade de descansar ou nutrir-se quando começar o combate.

Meus ‘patrões’ me condicionaram direitinho e eu não tinha noção da enormidade da merda em que estava metido.

Sonhei e talvez por ter pensado nela há pouco, Izzy veio a mim. Sussurrou palavras suaves em meu ouvido e me confortou o melhor que podia dizendo que eu estava fazendo tudo certo mesmo que por meios incompreensíveis prum observador externo.

Beijou minhas faces, meus olhos, minha testa e disse que eu deveria lembrar dos cravos e andar sempre com eles. Então ela disse uma palavra, só uma, e reforçou várias vezes que eu deveria ‘tentar lembrar’ dela, que se dita pela pessoa certa poderia resolver mais de um problema e, quem sabe, ser a chave secreta do sucesso de minha missão mais recente. Perguntei a Izzy qual era seu interesse nisso, já que ela estava do ‘outro lado’.

Ela sorriu e segurou minhas mãos e olhou em meus olhos enquanto um barulho distante me arrastava de volta à consciência.

O telefone continuou tocando mesmo enquanto eu desejava com todas as minhas forças que ele desaparecesse, implodisse, e que as linhas, cabos e todo o aparato que conecta uma pessoa à outra simplesmente deixasse de existir.

Era Mira, a verdadeira. Eu soube porque ela estava puta comigo, com Rita e com Phillips.

“Você só tem que fazer de conta, Mira.”

- Sexo por telefone, Profit! Sua estagiária finge que é eu e transa com aquele esquisito e agora você quer que eu diga que foi comigo? É muita escrotice sua!

“Ossos do ofício, Mira… você nem precisa tocar no cara, até porque ele não parece interessado na experiência legítima…”

-  Filho da…!

“É sério. Você pode até ignorá-lo. Depois a Rita diz que foi um joguinho sexual qualquer e pronto.”

Mira se acalmou mas tive que ir pra clínica Providência de ônibus.

Vou te contar, pegar ônibus no fim da tarde de domingo não é fácil.

De qualquer jeito, Mira estava me esperando do lado de fora no bandeiramóvel. Ela deixou o carro na calçada mesmo e entramos a pé pelo portão de pedestres. Tudo isso no mais absoluto silêncio.

Avistamos Phillips no prédio principal da instalação e ele acenou expansivamente pra nós. Nos encontramos quase no meio do caminho, tamanha a ansiedade do amigo iogue de Rita. Talvez Mira não segurasse a onda e desse um sopapo no escroto.

11.2

July 7, 2008

Além dos contatos no mundo oculto, Lúcio era camarada de pelo menos um delegado de polícia que, por sua vez, conhecia outros tantos e sempre dava uma aliviada quando pegava meu amigo em alguma atividade, hrm, ‘ilícita’.

Na última vez em que o encontrei, Lúcio andava meio apavorado com as conseqüências de ter ajudado uma tal Penélope. Aparentemente o carinha que comandava a operação de cafetinagem que cooptou a mina era pica-grossa demais até pro Lúcio.

Ele me pediu que intercedesse com a Izzy pra que ela ajudasse, apesar de eu não ter a mínima idéia de como ela faria isso. Quer dizer, como um demônio polissíndeto ajudaria um exorcista? Não é meio que um contra-senso um exorcista pedir ajuda ao demônio? Enfim, a manchete de jornal dizia algo na linha de ‘ocultista conhecido pode estar envolvido no desaparecimento de adolescente’.

O que me deixava com a pulga atrás da orelha.

Se Lúcio, um dos componentes da minha rede de segurança, estava com problemas, com quem eu poderia contar, então?

Fechei o jornal e fiquei olhando pra janela sem ter idéia do que fazer a seguir. Os ponteiros do relógio estavam quase simetricamente sobre doze horas quando o telefone tocou. Era Rita fazendo o que sabe fazer melhor, mas desistiu de cara da imitação de Mira quando pedi a ela que localizasse uma pessoa pra mim. Meu tom de voz deu o serviço.

- Ele? Tem certeza, chefinho? Esse cara não é perigoso?

“É, sim. Só que tou com poucas alternativas no momento, entendeu?”

- Tudo bem. O Phillips vai esperar vocês no fim da tarde. Precisa contar pra Mira o grau de intimidade que eles têm agora.

“Diz você. Foi você que começou a fazer sexo por telefone com um cara velho o bastante pra ser seu pai.”

- Dá o telefone dela, então. Vai ser divertido. De qualquer jeito, eu estava seguindo ordens.

Desliguei. Eu sabia que na seqüência ia ter que ouvir reclamações justificadas de Mira. Pelo menos as coisas ainda estavam em movimento. Depois eu ia precisar dar um jeito de ajudar Lúcio. Talvez contatando Vladmir e soltando alguma grana pra polícia.

Me estiquei no sofá e tentei cochilar um pouco.

Decisão acertada.

11.1

June 29, 2008

Dormi até mais tarde na manhã seguinte ou foi o que pensei… na verdade tinha dormido o mesmo número de horas de sempre, mas fui pego desprevenido pelo horário de verão, uma das idéias mais cretinas que alguém jamais ousou ter.

Só me ocorreu que era domingo ao checar a programação da tevê.

Pensei comigo mesmo que talvez não fosse muito inteligente ir visitar o asilo no domingo, que poderia adiar pra segunda. Lembrei de Rita na hora. Liguei o laptop, entrei no MSN e lá estava ela em toda sua glória e esplendor.

Reproduzo abaixo nosso diálogo digital:

LPROFIT: Oi, Rita. Ainda mantendo contato com o maluco da clínica Providência?

MISSRAYWORTH: Chefinho!!! Claro que sim! Trabalho é trabalho.

LPROFIT: Será possível visitar o velho ainda hoje?

MISSRAYWORTH: Tudo é possível pra Mira Bandeira! Você quer que eu ligue pro Phillips e marque?

LPROFIT: Você é um amor, Mira. Digo, Rita.

MISSRAYWORTH: Ih, chefinho, ainda me confundindo com a outra, é?

LPROFIT: Depois a gente conversa sobre seu trote, mocinha. Liga lá pro pervertido e marca uma visita pra tarde, ok?

MISSRAYWORTH: Você manda. E ele é doidinho de pedra, mesmo. Da última vez que fizemos sexo por telefone ele me pediu pra chamá-lo de Yog-sothoth.

LPROFIT: Tem alguma coisa a ver com sexo tântrico, isso? Ioga?

MISSRAYWORTH: Não, chefinho. É o nome de um monstro lovecraftiano.

LPROFIT: Bom, tem a ver com amor, então. Não pode ser tão ruim.

Falamos mais algumas amenidades mas Rita pareceu ao mesmo tempo mais irônica e distante que antes. Desliguei o laptop antes de tomar banho e comer qualquer coisa… queria um pão ou algo parecido, carboidrato pra pôr a cabeça em funcionamento, mas só tinha granola, frutas, leite e outras merdas saudáveis. Me exercitei um pouco com abdominais e flexões. Queria estar em ponto de bala quando fosse enfrentar o desafio kamasutriano que Mira provavelmente representava.

Desci e fui até a padaria tomar um expresso. Desceu suave e espanou os restos de sono dos meus olhos. Na banca peguei o jornal local e voltei pro apê. Na página policial tinha notícias dos meus amigos, como sempre, apesar de ninguém citá-los nominalmente.

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