Labirinto

February 10, 2010

6.

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Saí do prédio, caía uma garoa fina e me meti numa daquelas vielas laterais em que as pessoas costumam entrar pra ser assaltadas ou, no caso dos sem-tetos, assassinadas, de preferência com requintes de crueldade. Tive cuidado pra não pisar em alguém que estivesse dormindo por ali. Mortos não havia, porque nem um fantasma tentou me perguntar as horas ou  pedir uma moeda. Eles não fazem por mal, é força do hábito. Um monte de andrajos vazio num canto chamou minha atenção porque… faltava algo. Não tinha energia psíquica alguma. Mesmo que fossem só roupas empilhadas se encharcando lentamente, eu deveria ser capaz de fazer uma leitura qualquer das pessoas que as usaram antes.

Tinha outros problemas, minha concentração focou-se neles e, pow!, a voz de um bêbado que não devia estar lá chegou aos meus ouvidos. Arrum, ele disse, Lucas bateu um papo com os deuses, filho-de-coisa-ruim, e pediu que eles descolassem alguma proteção pra você… pro caso daquele demoniozão-pica-grossa querer se antecipar e te mandar pro inferno antes que seu tempo aqui se esgote.

Bom… e aí?

Aí eles me mandaram, porra! Tem grana pra birita? Tou ficando com a goela seca de tanto falar.

Tá certo. Tem um bar ali adiante…

Chuva, ele falou e, de imediato, a garoa fina engrossou e arriou o maior molho. Cacete! Thoth e Hermes mandaram um Elemental pra bancar meu guarda-costas? Alcoólatra, boca-suja e fedorento, ainda por cima?

Os caras definitivamente gostavam de uma ironia. Pelo menos tinha minha higiene sob controle agora, o que reduzia nossas semelhanças a dois aspectos gerais.

Quem não soubesse o que Chuva era o confundiria com outros milhões de moradores de rua, verdadeira nação sem fronteira ou identidade, homens invisíveis em que ninguém repara, resmungões, às vezes violentos, sem contar outras características já mencionadas que espantam transeuntes ocupados com as contas no fim do mês e que, sem saber, estão a uma temporada ruim, um desemprego prolongado, uma recaída sem volta no alcoolismo, um desequilíbrio neuroquímico qualquer de tornarem-se iguais a eles.

Esconda onde todo mundo pode ver. Truque comum em romances de mistério e no manual de usuário das forças ocultas. Lucas estava em boas mãos. Os deuses geralmente têm um plano e meu amigo era uma ferramenta útil, portanto, indispensável.

Entramos encharcados no bar e Chuva se dispunha a ‘regar as tripas’ com o que quer que lhe servissem. Gargalhou feito louco quando o barman quis colocá-lo pra fora e eu disse que ele estava comigo e pra trazer o que quisesse. O homem ia retrucar, mas olhou pro Chuva e  mudou de idéia, dizendo um Meu Deus, sem graça, entonação e cheio de vergonha genuína. Achei gozado na hora.

Depois de ingerir combustível suficiente, Chuva me acompanhou ao lugar que assombro mais do que vivo, um depósito no cais, amplo o bastante pra guardar as tranqueiras compulsórias do ofício e servir como loft. Recusou-se a entrar. Pelo jeito que mencionou meu pai, não duvido que, também, o conhecesse… o velho tinha todo tipo de idéia arcaica, entre as quais destacava-se um tratamento não muito ‘humano’ (por falta de palavra melhor) aos elementais que, em sua opinião, deviam permanecer lacrados em garrafas até que fossem necessários.

Dentro do depósito separei os itens que seriam necessários pro confronto e os guardei dentro de uma bolsa esportiva que tinha adquirido num dos surtos em que me dispus a praticar uma atividade física qualquer regularmente. Apesar de a precipitação ter amainado peguei meu impermeável. A Virgem ficaria mais comodamente escondida com ele sobre o moletom com capuz que eu vestia há séculos, desde os primeiros ataques psíquicos e meu refúgio em Chez Vlad. A cidade litorânea e sul-americana não pedia esse tipo de vestuário nem no inverno mais intenso e me fazia sentir como um clichê ambulante de histórias detetivescas, faltando só um Fedora pra completar a impostura e arrependido de antemão, presumindo o suadouro que ia enfrentar.

Melhor suado e vivo que sequinho e assando no inferno a fogo lento, pensei. Tai um método de queimar calorias que não me dispunha a experimentar.

Chuva me acompanhou do melhor jeito possível no estado em que se encontrava. Tropeçava nos próprios pés o tempo todo mas não aceitava ajuda. Acho até que caiu um par de vezes, juro ter ouvido um som molhado de corpo batendo no asfalto da rua, mas quando me virava pra olhar, lá vinha ele no mesmo passo vacilante de sempre. Chuva sempre caía em pé. Não faço idéia do tipo de esforço ou concentração necessários pra manter a forma humana pra esse tipo de criatura.

Com o nome do demo só faltava ir a meu lugar de poder e acabar de vez com a palhaçada. Lugar de poder, pra mim, é onde (ou algo, ou quando) a natureza do homem entra em alinhamento com tudo que não é homem mas nos torna homens pelo fascínio que nos causa, pela curiosidade e terror que desperta e que, no final das contas, torna possível nossa existência. As contradições e paradoxos inexplicáveis pela ciência ou pelo ocultismo. Especialistas e generalistas. As razões irracionais. Quando vemos algo e pensamos ‘isto está certo’ sem precisar refletir muito sobre o assunto.

February 9, 2010

5.

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Tão simples e tão complicado ao mesmo tempo. Um ‘príncipe do mundo’. Tive vontade de meter a cabeça na primeira superfície dura que encontrasse tamanha burrice. É, até sou capaz de perdoar esse tipo de coisa em outras pessoas, mas quando sou eu mesmo quem não enxerga o óbvio a coisa muda de figura. E lá fui, de novo, pro mundão secular, fora da bolha atemporal do centro fantasma, encontrar a escuridão da noite ou o brilho do dia no que poderia muito bem ser meu ‘último duelo’.

Rá!

O segredo pra sobreviver nesse negócio é ter os aliados certos.

Ele estava mudado.

Sua estadia em Peniel, os acontecimentos bizarros que, estranho pacas em se tratando de quem se tratava, rolaram durante essa aventura de que não participei afetaram mais o velho Lucas falador do que eu imaginava.

Claro que imaginei a princípio haver algum desvio psicológico em Lucas, já que não era surpresa quando, no meio de uma conversa em que deveria estar prestando atenção, ele passava a narrar o que estava pensando. Pensei que podia ser uma variedade mais extrema de tourette ou ecolalia, porque também repetia a mesma fala de seu interlocutor. Pesquisei um pouco e descobri que o sujeito estava ligado a umas figuras do plano divino que em geral mantém-se afastadas das sujeiras humanas. Por que decidiram mudar seu modus operandi e usar um detetive particular de 5ª e agnóstico como agente na terra não tinha a menor lógica pra mim.

Óbvio que isso é retórica pura. Muitas coisas reais não têm lógica.

A primeira coisa que estranhei ao entrar em sua sala foi que ele evitou olhar na minha direção. A segunda foi o silêncio.

E aí, Lucas. Não vai nem dizer ‘oi’? eu precisava desesperadamente quebrar o gelo, alcançar o cara que era meu amigo mais próximo, mas devia estar perdendo a prática.

Você sabe, não Lúcio? O que me aconteceu? É por isso que veio aqui, acha que posso te ajudar. Mas já vi essa cena. Vou te dizer o que acontece nos próximos dias e você vai agir de acordo, do seu jeito control freak, só que dessa vez vai dar a maior merda e cê vai se foder.

Lucas, preciso desse favor, cara. Preciso que fale com Izzy, que peça pra ela consultar a gerência lá embaixo.

Posso te dizer o que vai acontecer sem medo de errar. Nem o fato de sermos sistemas instáveis abertos afetaria a previsão. O problema é que, com o inferno, o caos se multiplica a enésima potência e tudo pode dar certo ou errado ou certo e errado. A gerência não dá informação de graça nem permissão pra agir contra os seus sem segundas, terceiras, quartas e até quintas intenções.

Lucas… puta merda, cê tá pelo menos escutando o que eu tou dizendo, mermão?

Eu não preciso, Lúcio. Já escutei. É isso que me fode, esse não saber mais quando estou. Pra mim sua presença aqui é emocionante e uma lembrança dolorosa ao mesmo tempo. A dor vai passar ou vamos beber muita cerveja e dar risada desse dia.

Falou… quero que você foque nessa última possibilidade. Se concentre nela. A gente vai mesmo tomar cerveja e dar risada. Fala com a Izzy. Diz pra ela o que eu pedi.

Lucas pareceu entender do meio do turbilhão de futuros possíveis que pareciam atormentá-lo. Suas pálpebras pareciam hesitar uns segundos, então terminaram fechando-se. Ele moveu os lábios sem emitir som mas pude lê-los. Izzy, preciso de você agora.

Fui atingido pelo perfume brutal da femme fatale definitiva. Ela era o sonho de todo homem hetero, a mulher mais desejada possível que quase nunca repetia o mesmo visual ou etnia ou altura ou cor ou corte de cabelo. Senti sua mão excessivamente quente espanando meu ombro direito e o perfume mudou pra algo mais adequado a um ambiente fechado, mas o ranço de enxofre e sexo ainda impregnava minhas narinas.

Oi, atrevido, ela disse enquanto passava rebolando na direção de Lucas, piscando cílios lindos como todo o resto. A aparência da vez, percebi, era algo recorrente: pálida, cabelos negros cortados num Chanel simétrico e equilibrado, tailleur de executiva deliciosa sob o qual, muito provável, podiam ser encontradas meias pretas com cinta liga e corpete combinando, fetiche puro. Minha teoria era de que, exceto pelas roupas e pelo corte de cabelo, aquela era a aparência de Izzy antes de ser queimada numa das muitas fogueiras do Languedoc no século XI, antes de sua temporada no inferno e de graduar-se súcubo, antes de convencer um dos idiotas da infernet a trocar de lugar com ela. Isabel curvou-se de um jeito lânguido e inofensivo, beijou Lucas na boca por mais segundos do que o aconselhável, mas pareceu não sugar energia alguma dele. Complementando a teoria que comecei a formular, tinha quase certeza de que usava essa aparência só quando Lucas estava presente, era algo particular, deles, um tipo de cumplicidade que nunca tive com qualquer amante, humana ou não.

Aos negócios, então, Sr. Lúcio. A propósito, como vai seu papai?

Vindo de onde Izzy vinha, devia ser óbvio pra mim que ela soubesse, mas fiz minha melhor cara de surpresa e perguntei Ah, você conhece o velho?

Não diretamente. Digamos que estive sob sua tutela por algum tempo. Já falou com ele a respeito de seu probleminha? Tenho quase certeza de que te ajudaria a resolver em dois tempos. Ele não resiste ao tipo de ingrediente que você pôs na mistura, sabe?

Sabia, mas como disse pro Mosca, não queria que meu pai sequer suspeitasse da encrenca maluca em que tinha me metido. Precisava resolver aquilo de modo efetivo antes que algum dos contatos do velho na cidade desse com a língua nos dentes. Embora desejasse estar enganado, a essa altura Mosca já devia estar usando seu correio pneumático, trocando a informação por algo valioso com uma das peças raras que, sabia de antemão, faria com que ela chegasse ao meu pai. Mosca sairia ganhando duplamente ou pensando que ganhava duplamente. Quando se trata do velho, nunca dá pra dizer ao certo.

Continuei a rotina de enrolação enquanto pude. Izzy não era fácil como Mosca e tinha alguns séculos a mais de experiência que ele no trato com enganadores natos. Óbvio que eu não chegava aos pés dos demônios com quem ela conviveu, mas ainda contava com alguns créditos de Madame Fortune e, fodido como tava, não arrisquei nada dizendo o que disse, aliás, saiu com a maior facilidade e tenho certeza de que minha cara era a mais lavada possível.

Até hoje não sei o ramo em que o velho atua. O que sei é que esse tipo de sujeira em que me meti não é da alçada dele e já sou grandinho o bastante pra, com uma ajuda dos amigos, livrar a cara.

Ai, que bonitinho! Quer dizer então que essas coisas que você faz não têm relação nenhuma com o que papai faz? Que é tudo altruísmo de sua parte? Bom, como você deve ter imaginado, não engulo essa lorota, e, sabendo do que Lucas é capaz no momento, sua graça provavelmente já deduziu que me adiantei e falei com os responsáveis. Eles gostam da idéia de atuar nesta esfera tanto quanto qualquer outra potestade e estão preocupados com a usura que seu perseguidor demonstrou recrutando um ceifador para aumentar o número de almas em seu rebanho. São gratos por ter neutralizado o agente dele aqui mas não podem intervir diretamente. Cabe a você, Lúcio, limpar sua bagunça.

Sem risco da gerência se doer e assumir a perseguição, é isso?

Exato. Mas você sempre pode recorrer ao papai, não? Ele ficaria animadíssimo se seu bastardo querido pedisse ajuda. Depois de soltar esta última fala de efeito, Izzy fez o que qualquer demônio de respeito faria (exceto pelo beijinho na bochecha de Lucas) e desapareceu, deixando seu interlocutor (no caso, eu) com uma resposta a altura na ponta da língua que continuaria ali, sem ser dita. Pelo menos não no momento.

A gente terminou aqui, Lúcio. Espero que cê tenha razão. Dessa vez não vou pagar as cervejas.

É, eu disse, e fiquei contente por ter um vislumbre do Lucas que conhecia, agora perdido em variáveis infinitas, emergindo. Quando tiver me livrado do problema te compenso de outro jeito também, mano. Tenho uns truques na manga que podem ajudar a aliviar tua condição.

Mas ele já tinha fechado os olhos, novamente submerso. Levantei da cadeira e saí, passando pela recepção. A menina que fazia as vezes de secretaria no escritório era uma graça. Olhos espertos, vivos. Acenei com a cabeça ao passar por ela, que abriu um sorriso ótimo, cheio de boas vibrações. Parei uns segundos e agradeci a Madame Fortune pela oportunidade de me reabastecer de energias positivas a um preço tão barato. Até agora tudo que tinha conseguido era uma chuva de lixo de proporções diluvianas.

February 8, 2010

4.

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Saí no centro da cidade. Túneis que levam a todos os lugares, certo? Mas esse centro não é o centro que se vê careta ou sem a execução de certos passes ao volante. Nesse centro nunca é dia ou noite e o céu é sempre azul… azul marinho. As fotografias que poderiam ser tiradas  nesse lugar teriam uma qualidade fantástica, coisa da cinematografia de terror mais recente, mas sempre tem um porém e, nesse caso, o porém é que lá a única tecnologia que funciona é a mais primitiva. Como carros com motor à combustão.

Guardei a relíquia sagrada do jeito que pude, enfiando-a na parte de trás da cintura da calça, prendendo seu cabo como podia ali e descendo a lâmina embainhada (disse que era comprida) até quase a junta do joelho.

Fiz o caminho a pé até a casa de Mosca, torcendo pra não ser abordado pelo que quer que fosse o guardião do limiar naquele turno e, se é que desejos se tornam realidade, pelo menos dessa vez o clichê foi verdadeiro.

A gente não chama o Mosca de Mosca de graça. Ele era mesmo a cara do Jeff Goldblum depois de a metamorfose em inseto ter se iniciado no remake clássico de Cronemberg. Agora queria que a gente o chamasse de qualquer outra coisa só porque os cravos sagrados tinham curado suas pústulas reincidentes e ele voltou a parecer humano. Mas você ainda é feio pra caralho, Mosca, costumávamos brincar com ele ou Vai comprar um óculos de gente, tome banhos, vista uma roupa que não esteja podre e penso no seu caso. Não vou ser hipócrita:  éramos cruéis com ele mas o filho da puta gostava.

A coisa que atendeu a porta resmungando devia ser o familiar de Mosca, algo da tradição e dos mitos russos, um domovói, ‘espírito do lar’, que tomava a forma do que julgasse necessário pra assustar visitas indesejáveis, apresentando-se nessa ocasião como uma miniatura do proprietário pré-cura. O que me fez rir internamente, dada a nova mania de Mosca querer até mudar de apelido.

Mosquinha, MiniMosca… os apelidos pro familiar não paravam de pipocar na minha cabeça e ele só dizia Por aqui, por aqui, por aqui, de um jeito que dava a impressão de infinitude, de que aquilo não terminaria e eu estava no inferno sendo guiado por uma criaturinha horrível de voz monótona até o lugar onde seria finalmente empalado num espeto tamanho família, assado na fogueira inextinguível e espetado por um garfo de churrasco por toda a eternidade, assistido por um demônio sorridente que diria a cada grito, Desculpe, só checando pra ver se você está no ponto.

Ainda não tinha chegado a hora.

Depois de desviar por manuscritos roubados, papéis preenchidos por cálculos que não fariam sentido pra qualquer homem são ou não, inclusive matemáticos do naipe de um Gödel, pilhas e mais pilhas de livros de todo tipo, chegamos ao sanctum sanctorum de Mosca, enfiado entre estantes que rangiam sob um peso colossal.

Mosca estava atrás de uma escrivaninha gigante de mogno também atulhada de papéis. A César o que é de César, como dizia o único Cristão: ele estava mudado. Óculos novos do tipo que nerds moderninhos usam e com lentes inteiras, sem aquelas rachaduras medonhas que me lembravam teias de aranha no material usado pra confeccioná-las e permitiam que se visse múltiplos olhos por trás da armação. As roupas eram simples e eficazes: camiseta, jeans e tênis, e aparentavam limpeza.

Então este é o novo Mosca? Disse numa tentativa vã de soar animado.

Você não devia ter vindo aqui, Lucio. Ainda estou tentando entender porque não pediu ajuda a seu pai. Ele já teria resolvido isso há meses.

Eu não falo mais com meu pai, Mosca, e você sabe disso. Preciso de ajuda pra descobrir o nome do Capeta que quer me arrastar pro inferno. Saber de quem tou fugindo me daria  oportunidade de pelo menos aprontar alguma antes de sair de cena.

Tá falando de entregar os pontos? De jeito nenhum! Prefiro eu mesmo chamar teu pai e dizer a merda que tá rolando!

Mosca, olha pra mim. Promete que não vai fazer isso, falou? Não quero o velho resolvendo encrenca em que me meti sem ajuda dele. Além do quê, ele tá velho demais pra esse tipo de coisa. Esse era o tipo de mentira que não colava com ele, porque a atividade principal de Mosca era manter-se informado… não divulgava tudo que sabia, retinha informações, algumas das quais, claro, eram bem familiares, quer dizer, referentes a minha família.

Cê tá mesmo de brincadeira, Lúcio. Me recuso até mesmo a comentar essa puta falácia.

Como qualquer criança emburrada, cruzou os braços e, juro, prendeu a respiração, fechou os olhos. Fui até onde estava sentado, me contorci entre os livros e posicionei-me atrás dele, de onde desferi um tapa estalado em suas costas. Bastou. O susto fez com que soltasse um berro e o domovói saltou sobre mim, puxando cabelos e tentando morder meu nariz… o baixinho era um cão de guarda eficiente. Mosca recuperou o fôlego rápido e disse as palavras mágicas pra acalmar sua criatura, o que significa que ainda sou dotado de carne e cartilagem sobre a cavidade nasal… tudo meio mastigado, mas tudo bem, isso sarava rápido.

Cara, ele disse de um jeito esquisito, cê sabe que não vai sobreviver a essa merda e que quem tentar te ajudar vai se foder junto, não? Claro que sabia, mas aquela preocupação genuína de Mosca me fez mentir. Danos colaterais são mais que probabilidade nesse tipo de situação, só que dizer a verdade pra ele agora seria injusto. Mosca me considerava como amigo apesar de toda encheção de saco inconseqüente dos últimos anos e, do meu jeito torto, também pensava nele desse modo.

Me dá a informação de que preciso que viro o jogo, irmão. Me diz o nome do filho da Arquiputa que tá no meu rabo que fodo com ele primeiro. Esperei pra ver a reação, se essa mentira passaria, se conseguiria enganar Mosca. Não seria a primeira vez, mas deixaria um gosto amargo na boca. Apesar de ser uma enciclopédia de ocultismo ambulante, saber de todos os esqueletos no armário de todo mundo da cidade e o que os levou a tê-los, Mosca repetia uma falha mortal pra quem quisesse ser praticante da Arte: era ingênuo e ingenuidade, nesse ramo de malditos, mata.

Contei tudo que pude lembrar. Os ataques iniciais aos meus sentidos, coisa leve, suspensos durante a alimentação com hóstia e água benta, o assalto psíquico fora da Chez Vlad, o massacre na Igreja de Nossa Senhora da Faca. Quando cheguei a esse ponto, lembrei da Virgem e quase pedi que Mosca a guardasse em seu cofre. Mudei de idéia.  Uma razão específica me fez mudar.

Achei que fosse alucinação auditiva na hora ao ouvir uma voz feminina e sonolenta, uma mulher que acabou de acordar e ainda traz na pele a marca dos lençóis amarfanhados pela atividade noturna, dizendo Ainda não.

Ele escreveu um nome no papel, me mostrou, acendeu um zippo niquelado lindo e queimou-o. Melhor prevenir, disse.

February 7, 2010

3.

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O que chegou primeiro em minha cela foi o barulho. Luta. Nada daquelas firulas coreografadas que as pessoas se acostumaram a ver em filmes de artes marciais… nada de discursos ao sobrepujar seu inimigo. Corpo-a-corpo, à distância de um golpe de faca, como os sacerdotes malucos gostavam, móveis quebrando, grunhidos abafados, nada de gritos, eles fizeram voto de morrer em silêncio e grunhidos eram tudo que se permitiam.

Um dos sacerdotes de sangue, devidamente paramentado, ensangüentado (encharcado de sangue seria mais preciso) invadiu o quadrado de minha vida pronunciando uma enfiada de preces em latim, entremeadas pelas blasfêmias típicas de sua heresia particular.

É o sangue do inimigo não se preocupe, conseguiu dizer, enquanto deslizava os dedos sob o catre em que eu dormia, que ficava parafusado na parede do fundo da cela.  Ouvi um clic! nítido, e esperei que a parede deslizasse, mas foi perda de tempo.

Irmão Machete escorregou pra baixo do catre, curvei-me, olhei e o homem tinha desaparecido. Rápido, Lúcio, você parece água estagnada, homem! A voz ríspida, ativando memórias soterradas, lições de catecismo intercaladas com doses generosas de golpes de régua. Fiz o mesmo que o padre louco e ensangüentado, e descobri um alçapão mais escuro que minha cela, mais escuro que embaixo do catre, uma forma geométrica de vácuo na qual precisava me meter se quisesse sobreviver a mais um dia e outra ameaça.

O que tem embaixo do subsolo? Minha curiosidade falou mais alto e quase pude ou imaginei ver os dentes branquíssimos de Machete cortando o negrume absoluto como uma faca… adequado pra caralho, sendo ele quem era.

O subsubsolo, ele disse e gargalhou e engasgou, tossiu repetidamente e afinal cuspiu algo que fez um som úmido ao tocar o fundo do subsubsolo e emitiu eco. Desculpe, pensei que tinha engolido a orelha do canalha! Maluco? Vai dizer que eu não mencionei antes. Acho que os sacerdotes de sangue não viam ação há tempos e a invasão da Igreja foi mais que bem vinda. Machete estava exultante. Ou soava exultante, já que o poço cor de piche em que estávamos não permitia que eu visse porra alguma.

Depois de descermos pela escada vertical que se apoiava na parede de um túnel quadrado como o alçapão da cela por minutos arrastados que começaram a parecer primeiro horas, depois dias, Todo cuidado é pouco, dizia Machete, escorregar aqui é acordar nas chamas da danação, filho!, chegamos ao fundo do poço. Sei lá que merda nascia nas paredes do túnel do lugar, se era mofo ou líquen mutante ou alguma porcaria assim, mas o fato é que emitia uma luz fraca, esverdeada, que certamente não melhoraria minha cor.

Irmão Machete segurou minhas mãos por um minuto e senti que encaixava um objeto ali. Torci pra não ser seu pau. É nossa relíquia mais preciosa, Lúcio, leve-a, não deixe que o demônio a tome… se você escapar e a Virgem não for levada ao inferno, nossa Ordem sobreviverá.

Ele me empurrou até uma entrada esquisita, menos escura, que emitia luz mais forte e alaranjada, forte o bastante pra que visse o que tinha adiante, outra cor de luminosidade, esta vermelha, e disse Santa Joana dos Matadouros, proteja este descrente, e quando olhei para o lugar em que Machete devia estar já não estava mais, só o vi adiante, perto da escada palidamente iluminada pelo verde caquético, cor de bile, a silhueta negra de um homem louco e santo prestes a voltar, a fundir-se com a escuridão e ir tombar com os seus, os remanescentes, sabedor de seu destino. Sei lá se isso parece poético ou piegas, então que se foda.

Conforme me aproximava, pelo corredor alaranjado, da luz avermelhada, percebi mais do que o tato permitia. Era uma faca longa com lâmina negra e cabo de osso polido, acomodada numa bainha de couro velhíssimo e trabalhada com detalhes obsessivos. A lâmina, descobriria depois, foi forjada com metal angélico, o que significava, mais ou menos, que era metal extraído de um meteorito… ou não. Loucura? Mas de quem era o osso usado na confecção do cabo? Ou de quem era a pele usada na feitura da bainha? Nem quero pensar no que usaram pra decorar a dita cuja.

A tal relíquia de que meu pai falou. Se as lendas estivessem corretas, tinha em mãos uma das armas do Anjo da Morte. Evidente que preferia duvidar disso pois segurá-la era uma forma de, sentindo algo sólido entre meus dedos, acreditar que ainda estava vivo.

A verdade é que devia a vida aos fiéis de Nossa Senhora da Faca e o mínimo que podia fazer era tentar salvar o assustador objeto sagrado da Ordem.

Ao aproximar-me da luz vermelha ouvi uma voz gasta perguntar  em fenício – uma das línguas que são requisito mínimo pros manés, como eu, que preferem perder a alma a trabalhar com carteira assinada - Você tem a chave e, ao dar de ombros em resposta, segurei a “Virgem” diante de mim e o som rascante e inumano disse, Passe. A luz vermelha era quente e não entendi o que devia fazer, mas o tom da luz mudou, primeiro pra laranja, depois pra amarelo… quando ficou branco esfriou e vi algo dentro da luz… uma rua familiar. Bastou pra me enfiar portal adentro.

February 6, 2010

2.

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Num dos raros momentos em que sentiu-se propenso à palestrar – porque, verdade seja dita, ele nunca conversava simplesmente – meu velho falou desses caras. Eles não são como os outros, disse, a heresia que seguem é particularmente permissiva. Não-violência e abstinência sexual sequer passam perto de seus preceitos. Não são dogmáticos, a propósito, e todas as regras que seguem não estão em livros. Reza a lenda, e entenda isso como quiser, estarem de posse de uma relíquia ao mesmo tempo sagrada e maldita… encerrou.

Não procure nas ruas. O templo de Nossa Senhora da Faca está no subsolo. Os padres assassinos só saem para “evangelização” em ocasiões muito especiais. Quando pobres e oprimidos estão mais pobres e oprimidos que nunca; quando os ricos se refestelam e abusam do poder mais que o de costume; quando tudo parece estar fora de controle. É quando vestem seus hábitos negros, eficientes para ocultar sangue derramado, e “evangelizam”. Foi com eles que aprendi a temer a Santa Igreja. Bando de loucos assassinos.  Apesar disso, são loucos assassinos que acreditam na luta do bem contra o mal e isso me servia perfeitamente, além de serem treinados em outras artes, muito mais potentes que um golpe de faca na garganta.

Conheci os padres na casa dos vinte anos. Como qualquer moleque dessa idade achava que  a maioria dos problemas pede soluções simples e fiquei entusiasmado ao ver a convivência dos homens, as bebedeiras e a putaria de que eram capazes. Sexo casual era permitido. Ligações prolongadas, não. Mulheres, sim; homens, não. Sexo deveria ser só recreativo, nunca procriativo. Havia uma preocupação enorme em deixar mulheres e crianças desamparadas. Parece enredo de western, algo estrelado por Eastwood ou Coburn e dirigido por Leone ou Peckinpah. Muita disposição pra matar e morrer e foder e beber. Era mais ou menos esse o perfil da galera, dos fiéis da Virgem.

Me acolheram e internaram numa cela cuja estrutura era constituída dos ossos dos mártires gravados com hieróglifos enoquianos de proteção e banimento. Coisa da pesada.

Foi onde consegui me manter vivo e seguro por mais tempo. Pra minha sorte os sacerdotes do sangue acreditavam em saneamento básico, o que garantia um mínimo de higiene e ar respirável, e todo o templo era protegido misticamente. Uma daquelas construções antiqüíssimas, da época dos colonizadores, incrustadas sob a terra e com túneis secretos levando a todos os lugares possíveis e imagináveis, além, é claro, de tremendamente úteis. Preste atenção no “imagináveis”. Pessoas com pouca imaginação não entenderiam. A Virgem dos Sicários, Nossa Senhora da Faca, Santa Joana dos Matadouros, segundo as escrituras não muito sagradas e bastante apócrifas dos sacerdotes, estava a serviço de Deus na terra… o Deus do Velho Testamento, que em determinada ocasião, liberou no Egito seu funcionário, popularmente conhecido como Anjo da Morte, com a missão de extinguir os genes de seus opositores. A Virgem era a versão revista, atualizada e doentia desse sujeito. Os sacerdotes eram tão veementes que fingi de todo coração acreditar em cada palavra.

Claro que eu ainda não tivera qualquer contato com a Virgem. Meus sentimentos a seu respeito mudariam.

A pior parte de estar sob a guarda dos padres assassinos era ouvi-los dando conselhos. Nada de dar a outra face, com eles. Me visitavam em turnos, aposto que gozavam ao ver minha expressão de espanto misturado a desespero genuíno quando diziam Tem mais é que meter a faca no filho da puta! Esse negócio de se esconder é coisa de viado, meu filho! Quando é que você vai encarar o bastardo do Gehena que está te perseguindo?

Depois de um tempo passaram a evitar o assunto e de vez em quando eu os ouvia cochichando entre si, incapaz de distinguir as palavras, muito menos de ler seus lábios, porque conversavam fora de meu ângulo de visão e me faltava coragem pra por os pés fora da cela.

Não podia ficar no subsolo indefinidamente. Também não podia dizer que precisava sair pra comprar cigarros porque o único que tenho nunca acaba… além de, como dito antes, fazer bem à saúde. Claro que só fumar não mantinha meu bronzeado e já começava a enxergar vasos sangüíneos sob a pele e temia tirar a camisa e poder ver meus intestinos. Sofria do tipo de palidez nada atrativa, muito pouco romântica, a palidez esverdeada das pererecas… eu poderia aproveitar e fazer uma livre associação de idéias idiota sobre a falta de companhia feminina no quadrado que minha vida tinha se tornado.

Era ridículo, admito, mas a única mulher que ocupava minha mente era Penélope. Penélope e sua arenga interminável a respeito de seu assassinato. Penélope e a perseguição implacável que empreendeu a mim, decidida a me convencer de livrá-la da permanência na terra, de ajudar em sua ascensão a outro plano de existência. Penélope era chata e eu sentia uma falta crescente de sua chatice. Pensar no destino que o demônio tinha lhe reservado me enchia de frustração. Trabalho mal feito, dizia a mim mesmo. Ela já não tinha sofrido o bastante, perguntei em certa ocasião ao irmão Machete, que ofereceu-se pra ouvir minha confissão.

Lembrei do padre assassino responder com uma pergunta, Você está disposto a ir ao inferno pela companhia dessa mulher? E não soube ou não pude responder. Coragem física não era meu forte, embora duvidasse que empreenderia a jornada usando meu corpo.

Penélope merecia o sacrifício ou não?

Demorou muito pouco até que meus questionamentos se alinhassem com minha necessidade de sobrevivência.

February 5, 2010

Ao Inferno Pela Companhia - 1.

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A.Moraes

A encrenca começou por causa de uma mãozinha que dei a Penélope, a fantasma que me perseguia implorando que a ajudasse a resolver pendências no mundo dos vivos. Pegamos o culpado por seu assassinato e de tantas outras mulheres e lhe demos o inferno em vida graças a dose cavalar de LSD que alterou a percepção do camarada a ponto de que ele pudesse ver e ouvir suas vítimas, como manda o figurino, e atender a necessidade intrínseca plantada hipnoticamente de extirpar os próprios olhos. Você sabe como funciona, segundo o Livro: se teu olho te escandalizar, arranca-o e joga-o fora.

Acontece que o pregador trabalhava  com instâncias superiores… inferiores, na verdade, pra ser mais direto. Sei disso porque recebi uma carta – isso mesmo, analógica – da figura encapetada, selada e assinada (se é que se pode chamar assim o casco fendido marcando o pergaminho) que também me informava do destino de Penélope, bem diferente do que eu imaginava. Chamemos o casco de ‘digital’, por falta de palavra melhor. Claro que isso não revelava qualquer informação sobre o infame. Saber um nome nessa hora pode fazer toda a diferença.

Tentei mover o problema e o perigo que corria pra boca de trás do fogão do pensamento e deixá-lo cozinhar em fogo lento. Me ocupei com outras boas ações, tudo bem intencionado, sem visar lucro, pra melhorar minha reputação com o pessoal de Kether, o último andar.

Talvez ter aliados nos lugares certos ajudasse a resolver o problema.

Inocentei o filho de um casal assassinado, ajudei Lucas o quanto pude a impedir a incursão de um dos que dormem em R’y’lyeh em nosso plano e, bom, tentei manter-me discreto e não interferir nos negócios do Sr. Coisa Ruim.

Mais importante que qualquer coisa, precisava manter o assunto longe do conhecimento do velho… todo mundo sabe como a relação entre pai e filho pode degringolar numa competição sem fim e, infelizmente pra mim, era esse o caso.

Nosso relacionamento nunca foi grande coisa. Ele tinha sérios problemas com o fato de eu ser filho de minha mãe e, pra piorar, ilegítimo. Tradicional demais, o camarada, mas não foi tão seletivo quando tava com tesão.

Enfim, é um puta clichê, mas não deixa de ser verdade.

O demônio devia ter estado ocupado também, já que ainda tou falando do que fiz. Há pouco tempo coisas estranhas começaram a acontecer. Estranhas de verdade. Assustadoramente estranhas. Esqueça o terror familiar veiculado nos mcm… ver um monstro, uma aberração ou um demônio moldado a partir das ilustrações que Doré fez para acompanhar a poesia de Milton não assusta mais nem criancinhas. Acho que nem Bruëgell assusta criancinhas. Talvez não seja possível descrever o tipo de estranhamento de que falo por um motivo simples: não é só visual, afeta todos os outros sentidos também.

Quando o ambiente é frio e você sua apesar de continuar sentindo frio, só que piorado, porque o suor esfria na pele e é como se você tivesse acabado de tomar banho, vestido a roupa, jogado um balde d’água fria sobre a cabeça e saído na chuva numa temperatura não superior a 10 graus Celsius. E sabe que não tem qualquer doença graças aquele cigarrinho milagroso que ergue seu sistema imunológico e, até, prolonga sua vida.

Esse tipo de estranhamento.

Ou fome. Sentir fome, ir a lanchonete mais próxima, pedir seu sanduíche preferido enquanto não tem tempo de fazer uma refeição decente e, na primeira mordida, perceber que a coisa tem um gosto errado… muito errado. De algo que deveria estar sete palmos sob a terra, já entrou em decomposição mas movimenta-se em sua boca, coleia de leve, corpinhos minúsculos dentro de um bife de cadáver. Você cospe a primeira vez e espera ver as larvas rastejando pra fora da massa pastosa de pão e morte, checa o resto de sanduíche e vê que é mesmo seu pedido e, bom, sabe que alguém ou alguma coisa tá te fodendo. Continua com fome, come a porra do sanduíche morto-vivo, engole forçado ignorando paladar e tato – a parte interna da boca é particularmente sensível – e quase pede mais um, porque agora a fome colou em você, uma fome muito pouco natural, dados os estímulos sofridos pelas papilas gustativas.

Não precisei esperar por mais pra procurar proteção adequada. Primeiro fui ao Flor-Amor e pedi asilo a Vlad, meu amigo egresso dos Cárpatos que, pelo preço certo, me manteve fora do radar num círculo mágico à base de água benta e hóstia (que além de ser tudo que tinha a mão era o tipo de ‘comida’ de que o demônio não podia ou queria alterar o gosto… seria um demônio da mitologia cristã? Pista!) por uma semana. No quarto dia já estava mal, desnutrido apesar de não desidratado. Não cagava direito, carboidratos demais, mas ter que cagar no buraco dentro do círculo mágico e conviver com minha própria merda  por sete dias talvez tenha me predisposto à constipação. As garrafas de mijo empilhadas não incomodavam tanto… só quando a urina coalhava, mas também não podiam ser movidas do círculo porque não queríamos que o dito cujo capturasse meu odor ali e comprometesse a casa de tolerância (e põe tolerância nisso) de Vlad.

Eu esperava que uma semana fosse o bastante pra diminuir o interesse do chifrudo e liberar aliados antigos de obrigações mais prementes.

Saí ao ar livre com essa esperança, mas fui atacado quase de imediato. Ataque psíquico. O que aprendi com Madame Fortune foi suficiente só pra arrastar-me ao único templo em que há sacerdotes habilitados a ajudar pessoas que se encontram em situações similares a minha.

January 14, 2010

Fome Oculta - Teaser

Filed under: K.I.S.S.

Manuscrito  encontrado em uma garrafa

Organismos comportam-se irregularmente. Os mais simples podem ser previsíveis, mas um aumento de complexidade implica maior número de variáveis e o grau de previsibilidade do comportamento cai drasticamente.

Observe os vírus como exemplo. Seu ciclo vital depende de um hospedeiro e do contágio que este pode causar. Em certa medida, um vírus tem comportamento análogo a organismos mais complexos: sua diretriz básica é a reprodução da informação que traz contida em si. Animais e vegetais, também, lutam pela sobrevivência e perpetuação de seu DNA, apesar de, pelo que sabemos, não o fazerem conscientemente.

Dentro de um hospedeiro apropriado, o vírus torna-se uma dessas variáveis citadas anteriormente, afetando não só seu comportamento, como também sua fisiologia. Sozinho ele é inócuo e seu tempo de vida e missão reduzem-se. Um vírus é uma máquina autoreprodutiva que depende das condições e materiais disponíveis para fazer sentido, realizar a diretriz, propagar-se.

Espirros, tosses, lesões não são só sintomas de uma doença, mas técnicas de propagação viral. O hospedeiro é seu veículo e ele não hesita em mudar a direção a fim de atingir seus objetivos.

Apoiando-se nos argumentos apresentados anteriormente, o indivíduo de nosso interesse sugeriu considerarmos a ‘hipótese Gaia’, ou seja, que o planeta é um organismo vivo de extrema complexidade. Que a humanidade e a explosão demográfica de anos recentes podem ser considerados como infecção, chamada pelo sujeito de ‘primatemaia disseminada’ e que a exploração sem controle dos recursos naturais do planeta visando, acima de tudo, a sustentação da vida humana e desconsiderando o equilíbrio ecológico que, em primeiro lugar, permitiu que tal vida existisse, provocou mudanças no comportamento do hospedeiro.

O sistema imunológico de Gaia está trabalhando dobrado em sua recuperação e o ressurgimento de variações de vírus considerados extintos há décadas pelos cientistas é considerado pelo indivíduo como uma tentativa coordenada pelo planeta de resgatar anticorpos de um banco de dados primordial e reinseri-los no novo contexto a fim de controlar a infecção, junto a outras medidas profiláticas, como as condições climáticas imprevisíveis, a queda na produção de alimentos etc.

É uma perspectiva aterrorizante. Talvez seja sábio planejarmos medidas de autopreservação. Talvez possamos construir um suporte vital para Gaia moribunda e, paralelamente, estudar com seriedade uma retomada da exploração espacial em busca de um novo lar.

Talvez.

January 7, 2010

tequilaLila

Filed under: K.I.S.S., O Centro

 

‘confraternização no Texas’, disseram.

robótico, estúpido, semi-autista como sempre, vistorio a dose, checo o sal na borda, confiro a fatia sorridente de limão.

viro-o e vejo-a. não pela primeira, menos ainda pela segunda, terceira ou qualquer outro ordinal ordinário. no fundo do copo, entrando no saloon - era o Texas - , passeando como se estivesse num cenário de Ed Wood, gelo seco abundante, encostos de cadeiras como lápides, eu semiparalisado, quase Karloff pós-embalsamamento em ‘A Múmia’.

gatilho de memória suficiente pra repassar primeiro filme mental de Lila, num vestido folgado, florido, leve, de alcinhas, segundo ano da graduação, pernas, braços, seios, olhos, cabelo… e pele perfeita. tudo no lugar, nada de ’srtas. de Avignon’ nesta aqui.

‘algo a respeito’, sinapses frouxas tentando formar uma idéia.

mesma classe, mesmo horário, trabalhos juntos, fiquei pegajoso.

cervejas. adorava o que ela dizia apesar de nada lembrar. mitologia comparada uma vez com Vargas e MP presentes. e seus braços e as alças do vestido, tudo machadiano demais.

via cuervos ahora. voavam alucinados.

fizemos um acordo, então. fizemos um acordo então? fica mais bonito assim.

largaríamos as respectivas pedras-no-meio-do-caminho no final do semestre. a confraternização marcaria pedras inaugurais novinhas-em-folha.

não sei de que jeito, ainda era o Texas, ela e eu na mesma mesa. libido relaxando com doses industriais de álcool.

beijo(sss).

corpo de Lila pende, cabeça em meu ombro, desliza pro peito. apago o luckie, conduzo-a porta-a-fora e, por um milagre da auto-intoxicação, entramos no apê - meu, dela? - seu corpo me esmagando, alcançando meus ossos, entrando na corrente sangüínea, disparando metabolismo basal que inunda tudo de dopamina, testosterona, pâncreas trabalha a toda, despejando insulina suficiente pra me caretear.

Lila, Vênus na cama, inteira, sob escrutínio, beleza desmaiada, charme alcoolizado. tiro os tênis, mecânico, mas não sei onde meus pés estão, tão concentrado no maior órgão dela, a pele alva, sem mácula, tudo alvaresdeazevediano demais.

Lila espreguiça-se, cetim preto desliza, movimento calculado de braços, alça pendendo, liberando um dos gêmeos coroado de rosa. ela sonha quando diz ‘me beija’ ou é meu sonho?

beijo. outra vez. de novo. seguido. seqüencial. ela sorri. outros lábios a beijar. desço. percorro sua topografia com respiração leve, sabedor de meu prazer, desejando dividi-lo só com Lila, mover suas placas tectônicas.

atrito da pele, rosado, carne e carne, quando um mais um resulta em um.

baixo o copo, afinal, pernas, braços, seios… e pele perfeita contidas no cetim aproximam-se agora sem um vidro manchado entre nós.

‘Tequila, Lila?’

December 24, 2009

extremidades

Filed under: O fio

numa delas a escuridão, noite que revezou com a anterior, 23h02 entre uma e outra, quase um dia inteiro, dois sonos, um de sete outro de duas horas, entremeados por saídas de rotina, aquisições de primeira necessidade e compulsórias, pele dos ombros tostada, peso tomado e coisa e tal e coisa e tal.

há uns anos o calor noturno, calor de estufa, estaria causando um porejar intenso e o suór impregnado do cheiro químico, soma de remédios, cigarros e bebida, brilharia no queixo duplo, na papada, na gordura por onde despontariam os pêlos da barba por fazer, única aspereza no corpo arredondado, flácido, adiposo.

o tendão cortado lateja e apertar a bola de borracha ajuda aliviar a tensão e devolver força às mãos. a direita, agora, enquanto escreve, a caneta conduzindo o pensamento meio errático, codificado em diversas interrupções da caligrafia.

palavras escritas com fissuras, pequenas lacunas imperceptíveis para um olho destreinado.

persona derramada no papel.

tantos inícios, tantas desistências.

December 23, 2009

now

Filed under: O Centro, Minotauro

aqui.
tá olhando? prestando atenção?
ótimo.
este é o show. é a vida. não necessariamente alegre, deslumbrante ou coisa parecida.
sequer necessariamente ‘é’, mais pra ‘está’. ‘está a vida’. soa melhor. parece mais verdadeiro.
por ser… um acidente de percurso no universo, talvez, e acausal?
talvez.
como pares de electrons separados anos-luz e, ainda assim, comportando-se de modo similar, comunicando-se sem conexão.
certamente.
o Labirinto tende a ser reativado.
como as tripas, como o estômago do guardião do limiar, desenhado na areia e que deve ser decorado pelo herói antes de embarcar em sua jornada ao Hades.
mas o guardião é trapaceiro e apaga o mapa antes mesmo do herói descer de seu barco.
no centro, o minotauro.


 

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