12.5
Voltei à sala de visita acompanhado por Chuva. Merda, o jeito como pensei essa frase me fez lembrar dum desenho animado que já era velho na minha infância e tinha um sujeito azarado, mas tão azarado, que tinha uma nuvem de chuva sobre sua cabeça que o acompanhava aonde quer que fosse. Uruca. Esse era o nome dele.
Fazer essa associação com minha infância disparou um efeito dominó pro qual eu não estava preparado e percebi que, bem ali, na minha frente, estavam versões reais de personagens que povoaram meus sonhos em tempos idos e foram primeiro sublimados depois esquecidos na rotina hipnotizante que chamamos de vida.
Essa absorção em mim mesmo durou pouco.
O Garça Negra, Velocidade da Luz e Mira Bandeira conversavam entusiasmados e ignoraram nossa entrada. Olhei pra Chuva e ele, ainda fedendo à bebida e ao líquido insalubre da privada, disse com seu tom de bêbado desleixado inspirado divinamente:
- É uma hora tão boa quanto qualquer outra, Bono.
Me aproximei dos três e lembrei do macaco-rato cagador de lagostas. Ou babuíno cagador de escorpiões. Ainda preciso decidir que versão é pior. Apesar de estar além do ateísmo, murmurei uma prece, organizada mentalmente de última hora e que, eu esperava, fosse o tipo de chamada que os deuses que supostamente me protegiam esperavam.
“Muito bem, senhores. O bicho vai pegar, mas quero sair vivo dessa e resolver o caso de vez. Favor atender pelo menos ao primeiro item.”
O Garça Negra estava de costas pra mim. Precisei pôr a mão em seu ombro e fazê-lo girar e ser tão rápido quanto o treinamento de Mira permitia pra fazer o que pretendi. Quando ele terminou a elipse sobre os calcanhares e vi meu reflexo em suas lentes soquei com toda força seu estômago. Um verdadeiro feito. Deixou o Garça muito aborrecido. Como ele não previu isso?
- Ficou louco, Profit?
Ele fez essa pergunta uns minutos depois enquanto examinava minha mão em busca de ossos quebrados. Como não reparei na armadura do cara? De qualquer jeito tinha capturado sua atenção e entre gemidos e auto-recriminação perguntei o que precisava saber.
“Por que você tava entrincheirado atrás do meu sofá e apontando um rifle pro meu peito?”
- Profit, aquilo não é um rifle, é um fuzil!
“Isso é melhor ou pior do que o que eu falei?”
- Nenhuma das alternativas. É só mais preciso. E eu não estava apontando pro seu peito. Estava apontando pra porta no caso de… você sabe.
“Não sei, não. Lembre que não sou um de vocês super-heróis e não conheço as palavras e senhas secretas de seu clubinho.”
- Gluóns, Profit. Quando você mandou sua secretária me chamar, achei que estivesse ciente da ameaça. Aliás, como ela me encontrou?
“Primeiro, Rita é minha estagiária, não secretária. Segundo, ela é estagiária de um detetive, meu velho. Sabe como é: três meses são mais que suficientes pra alguém com o conjunto certo de requisitos tornar-se capaz de encontrar qualquer um em qualquer lugar.”
- Muito impressionante, Profit. Soube que há uns meses você não seria capaz de dizer uma frase tão longa e com sentido. Parabéns. E você não quebrou dedo algum. Da próxima vez certifique-se de estar socando carne, não cota de aço revestida de kevlar.
“Vocês vivem repetindo isso e toda vez que pergunto recebo uma resposta meia-boca: que porra é um gluón?”
