not the end

June 6, 2009

a história de Lucas, como vocês devem ter notado, não acabou. esclarecimentos sobre seu destino poderão ser encontrados aqui.

as coisas mudam.

be my guest.

18.2

May 8, 2009

Não lembro se prometi em algum momento que os apagões e despertares esquisitos deste relato tinham acabado. Rita me diz pra deixar de lado promessas que não posso cumprir. Sim, Rita. Além de ajudar em pesquisas ela é responsável pela organização dessa barafunda até agora. A partir de minhas ‘memórias’ esfarrapadas ela meio que juntou fragmentos e ordenou cronologicamente o que experimentei ou penso ter experimentado.

Foi Rita, também, quem disse que ‘acha’ que sabe o que me aconteceu. Leu numa de suas revistas de ‘divulgação científica’, como ela gosta de chamar, um artigo sobre estudos de memória animal. Aparentemente ratos têm memória, lembram de coisas aprendidas (como andar num labirinto, por exemplo), mas são incapazes de lembrar quando aprenderam. Alguns mamíferos maiores parecem ter esse mesmo trato no que se refere à memória cronológica: não a possuem. Isso explicaria, por exemplo, a animação constante de um cão sempre que reencontra seu dono. Ele sabe que o conhece mas tem a impressão de que o sujeito ainda é novidade.

Os neurologistas que acompanham meu caso dizem que não houve mudança fisiológica no meu cérebro, mas estudam, como eles dizem, a possibilidade de alteração elétrica ou eletroquímica. Tou inclinado a concordar com essa possibilidade. Do jeito que entendo a coisa, desligaram, modificaram e religaram todo meu sistema nervoso. Se isso é bom ou ruim… na verdade já sei a resposta pra essa pergunta. Falta a coragem pra divulgá-la. Claro que há a possibilidade de surpresas. Tem lacunas suficientes na minha ‘memória total’ (que inclui lembranças de eventos que ainda não ocorreram) como as meninas estão chamando.

Além disso é uma capacidade que ainda não sei como controlar.

Sei, por exemplo, que minhas preocupações financeiras vão acabar (ou já acabaram, dependendo de ‘quando’ estou escrevendo isto e você lendo); que Mira e eu teremos um envolvimento maior do que meus sonhos mais loucos.

Não faço idéia do que aconteceu com Chuva, Garça Negra, Gauge e outros coadjuvantes.

Os gluóns prometeram manter contato. Ou vão prometer.

Meu médico disse que esses sintomas podem não ser permanentes, que, quem sabe, a cronologia ainda pode fazer parte de minha vida.

Como dito, há lacunas suficientes pra vida não ficar tediosa.

Preciso pensar numa nova ocupação. Ser detetive, no meu caso, não é mais tão estimulante quanto antes. Com estabilidade emocional e financeira posso pensar em como usar as coisas que sei de modo mais criativo.

Thoth e Hermes, deuses da verborragia, e seu criado Chuva e o avô de todos os relâmpagos, que responsabilizo pela mudança nas minhas percepções, podem aparecer a qualquer momento e decidir que não é mais engraçado e reverter tudo. Mas as coisas que já sei não podem ser mais tiradas de mim.

E é isso.

De verdade, foi muito cansativo todo o processo de colocar as impressões, acontecimentos, memórias, o que seja, em ordem e escrevê-las.

Se houver próxima vez, talvez eu o faça em outro lugar, como outra pessoa.

FIM

18.1

April 26, 2009

Abro os olhos no pós-siesta e Mira corre pela orla da praia, saltando ondas, acompanhada de perto por Afonso Neto, guri hiperativo, esperto, durão. Quando nasceu Mira perguntou e concordei fazendo graça ‘Eles até são parecidos no quesito ausência de cabelos’. Ela sorriu da brincadeira, eu idem. Já recuperada do parto, pediu enfaticamente, fazendo uso dos punhos, que eu não sacaneasse seu pai. Concordei, também enfaticamente, fazendo uso das escoriações e hematomas por uma semana. Sentado na varanda de nossa casa de veraneio posso vê-la correndo na praia, aquela sinfonia simétrica de músculos apertada sob a pele dourada, acompanhada por nosso filhote perfeito já dotado de cabelos, e isso me dá tanta alegria que é inevitável questionar a realidade da experiência.

As ocorrências estranhas no litoral já fazem tanto tempo? Eu tinha acordado de um sonho, duma peça mnemônica pregada pelo meu organismo?

Dia seco e rajada de vento. Areia nos olhos e nos dentes.

Piscando pra evitar que qualquer grão fique no olho, movimento das pálpebras mais umidade natural do globo ocular ajudam.

Volto a enxergar. Ainda há praia, mas não mais casa, nem Mira, Afonso Neto ou cadeira na varanda.

Só escombros.

Escombros estranhos.

Maquinária alienígena.

Recupero e perco a consciência várias vezes sem conseguir manter-me acordado.

Chuva está ajoelhado ao meu lado e mantém minha cabeça erguida enquanto uma precipitação restrita e precisa lava meu rosto… ele repete, quase como um dentista, com intervalos, sem a angústia da broca, ‘cospe’, ‘cospe’, ‘cospe’ e, como se não fosse eu o responsável pela operação da máquina corpórea, obedeço. Apago e acordo e ele não está por perto. Os destroços, os escombros do que quer que fosse, tudo já era. Consigo sentar. Ouço uma voz ‘tem mais um aqui, traz a maca!’ Enquanto desfaleço penso em Mira e no filho que não temos.

Acordo no escritório. Pedi a Rita que anunciasse todos os clientes… eu teria acordado se ela me atendesse?

Lorre me olha de sua cadeira, por cima da mesa, o grande sapo, Sartre, todas associações ridículas que faço involuntariamente por causa de sua exoftalmia. Ele diz ‘você é uma criatura curiosa, Sr. Profit. Esperei que se recuperasse o bastante para acertar nossas contas. Instruí meu pessoal a cuidar para que todas suas necessidades sejam atendidas enquanto permanecer neste plano. Supérfluos, pequenas e também algumas grandes vaidades fazem parte do orçamento do resto de sua vida. Sugiro que faça uso discreto desses recursos a fim de não chamar atenção indesejada para sua nova… capacidade de manobra. Ficamos satisfeitos com os serviços prestados e, apesar de sabermos de antemão de seu pendor pela não-ortodoxia, achamos que conseguiu superar-se. Mantenha-se disponível para o caso de solicitarmos suas habilidades em outras ocasiões.’

E minha visão falha.

Não, não é minha visão.

É a imagem dele.

Como uma tevê recebendo um sinal fraco. Ele não está ali. É um holograma. Fica coerente por uns segundos e diz ‘me chame de Lorre de agora em diante, se quiser. Mantenha o dispositivo de comunicação energizado’.

Pronto, não está mais lá. A maleta que dispôs aberta em cima da mesa continua no mesmo lugar. Não é um holograma. Dentro dela toda documentação necessária para legitimar o dinheiro que recebi por serviços prestados às amebas espaciais. Cartões bancários de bancos em que não tinha contas até então. Um celular e um carregador esquisitos. Ambos parecem insetos no mau sentido. Recorro ao meu quartilho de Jack em busca de orientação espiritual. Ele faz o serviço mais que bem.

Acordo cheio de tubos.

Nariz e boca e veias.

Ligado a máquinas.

Minha mão segura outra, quente. A dona dela descansa a cabeça no colchão de minha cama. Impossível reconhecê-la assim, nessa posição, com tantos cabelos cobrindo seu rosto. Tento chamar sua atenção, apertar seus dedos, mas não consigo. Isso é agora? Por nenhuma razão particular lembro de Izzy dizendo que quando estamos privados de estímulos externos viajamos pra frente e pra trás na linha da vida, da consciência, a fim de obtê-los  e evitar a loucura. Lembro do tigre na jaula e da garganta do deus-lobo. Quando estou? Passado? Futuro? Afinal movo os dedos com força suficiente e a mulher ergue a cabeça mas olha na direção da porta… ela chama a enfermeira, o médico, sei-lá-quem. Não reconheço sua voz. É a voz de alguém familiar imitando a voz de alguém familiar. Quem eu conheço que costuma fazer isso?

17.3

April 13, 2009

Mais e mais duro registrar o que lembro como fato.

Chuva parecia decidido. Essa noção aqueceu minhas tripas por uns minutos, quase como um gole generoso de Jack.

Andamos de volta pro grande salão onde a bagunça corria solta com mascarados mandando ver e alienígenas idem. Situação desesperadora. O Garça aparentava tanto cansaço quanto Mira. Gauge pulava e se equilibrava sobre inimigos tombados. Muito dramático, muito violento.

Chuva entrou no meio disso tudo e, imagino que como sempre, passou despercebido. Não tenho certeza do motivo, mas eu estava ao seu lado. Ele disse algo inaudível pros combatentes. A atmosfera do salão adensou-se, teto e paredes pararam de desabar e voltaram, devagar, a crescer, aumentando a estabilidade do lugar. Chuva repetiu sua fala. Algo como:

- O pomo da discórdia, Profit. Estamos bem em cima dele. Só preciso de uma fagulha. Uma tentativa.

Eu não fazia idéia. Cinquenta caíram a minha direita e não-sei-quantos a esquerda. Dos fantasiados só Gauge continuava em pé e mesmo o tempo dele estava contado. Sinais de cansaço, dificuldade de mover os braços e repetir as mesmas agressões de modo ininterrupto… as amebas espaciais precisavam cair. Os glúons estavam vencendo.

Se o cara mais fodão caísse que esperança eu podia ter com meu auto-proclamado parceiro magrelo, bêbado, louco e cheirando como algo saído da privada (mesmo)? Eu acreditava ou queria acreditar na baboseira sobre os deuses? Mal tinha absorvido a informação da presença de vida alienígena no planeta, porra! E isso com eles bem ali, na minha frente, se matando.

Misteriosamente não me preocupei com Mira.

Mas não duvidei quando o ar ficou mais úmido ainda. Gotas d’água condensavam-se ao nosso redor. Bruma? Não, era uma nuvem, cinzenta primeiro, mas escurecendo cada vez mais rápido. Uma nuvem se formando num salão fechado! E o centro dela, a única área que ainda podia ser vista, a única entidade identificável e que não parecia perdida no meio disso era Chuva. E eu vi sua santidade. Um halo elétrico formou-se ao redor de sua cabeça. ‘São Chuva, padroeiro dos cachaceiros’, pensei ou disse, e ele me olhou e acho que entendi o que os devotos sentem quando percebi a clareza, a bondade e a piedade em sua face e, puta que o pariu, foi tudo pra casa do caralho duma vez.

‘Uma fagulha’, ele disse. ‘Uma tentativa’.

Se eu tinha me assustado quando Roberto Maia chamou seu relâmpago não sei como descrever as sensações que me pegaram quando aquela monstruosidade elétrica natural destruiu ‘o pomo da discórdia’, traduzindo, a tecnologia alienígena que reduzia, ocultava e estabilizava Peniel. Chocado, talvez, só que se usar essa palavra desse jeito vão pensar que tou fazendo trocadilho, tentando ser engraçadinho… não, eu tava além do choque. Fui transformado pelo relâmpago. Vi a luz através dele. Thoth, Hermes, babuínos (um deles apontou pra própria bunda que parecia em carne viva e lembrei dos escorpiões cagados) e íbis e a puta que o pariu através do rasgo na realidade que aquela aberração elétrica fez. E eles viram que eu os vi. Tipo de coisa que não se esquece fácil, não cai nas areias movediças da amnésia seletiva como a gente gostaria. Ainda pude ler os lábios de Hermes antes de ser sugado pelo ralo da realidade convencional, física, o que seja. Não sou muito bom nisso, embora reconheça sua utilidade. Uma das palavras era claramente ‘não’, por causa do ‘o’ arredondado no final. A outra podia ser tanto ‘autorizado’ quanto ‘aromatizado’, novamente, a incerteza batendo pesado (sei que tou me repetindo)… Eu entenderia se estivesse se referindo a Chuva.

Deve ter sido aí que a onda de choque me pegou. Outra vez, dúvidas sérias se foi gerada pelo avô de todos os relâmpagos ou se pela expansão rápida e desorientadora pela qual todos parecemos ter passado.

Choque.

Terror.

Sem sentidos.

De dentro de minha inconsciência, uma voz familiar e amigável e parecida com outra voz familiar e amigável, sussurrou anasalada: ‘Jeito idiota de morrer, Profit.’

17.2

March 28, 2009

Essa incerteza crônica reforçada pela limitação essencial das palavras em capturar impressões, abstrações e sentimentos generalizados, enfim, o que quer se dizer de fato, me atingiu na ocasião e, enquanto massacro a keyboard, continuo a sentir seus efeitos: terror de não entender que porra tá acontecendo, cu na mão, ovos doloridos e apertados no escroto.

Uma coisa puxa outra.

Eu queria confiar em Izzy, acreditar que a missão de Lorre era só recuperar tecnologia que podia afetar ou já tinha afetado o desenvolvimento planetário. Mas também queria crer nos supercaras e em suas boas intenções.

Gauge instaurou seu próprio sabor de utopia na comunidade que o ajudou e acolheu.

‘De boas intenções’ e tal… sendo Izzy empregada dos gerentes do inferno, o que escrevi acima ganha um sentido todo particular. As coisas pareciam girar em torno de um e só um eixo.

Não precisei me decidir por um ‘lado’.

Tou me adiantando, pra variar. Antes de chegar a esse ponto, muita merda atingiu o ventilador e espalhou-se pelo ar, no ambiente.

Tipo de coisa que acontece quando a gente se encontra numa situação em que coragem e inteligência não bastam pra superar adversidades.

Os supers lutavam, eram destemidos e determinados como só verdadeiros obsessivos poderiam ser e, pior, sabiam o que faziam. O número maior dos glúons e o fato de conhecerem sua tecnologia de cabo a rabo formaram a base incontornável do que estava por vir. Não precisava ter me preocupado com a saúde deles, pensei. O aviso de Izzy era só um reforço, concluí, pra que nenhuma reação fosse esboçada.

Me dei conta de que Chuva ainda não tinha voltado do banheiro. Como minha participação do conflito era tão importante quanto a das flores nos azulejos do banheiro de meu escritório e os mais aptos obviamente já estavam se atracando, acionei a trava de segurança do meu fiel .38, acomodei-o no coldre de onde nem devia ter saído e falei bem pertinho de Mira:

“Vou ver se o Chuva tá bem.”

- Não rompa a formação, Profit!

Sim, esse era o bom e velho Garça Negra que jamais perderia a oportunidade de dar ordens. Mané travado da porra!

- Vai, Lucas. – Mira respondeu. – A gente dá conta aqui. Mas volta, tá bom? Eu e você temos aquela pendência pra resolver… contigo morto essa ponta solta pode me incomodar.

Beijei Mira na bochecha enquanto ela atingia alienígenas com sua escopeta cósmica à esquerda e à direita. Não sei dizer se o beijo aconteceu de fato ou se só rolou na minha imaginação pra depois ser incorporado na memória.

Gosto de pensar que a primeira alternativa é a correta. Sim, tanto Mira quanto eu já tínhamos atingido ponto de saturação com o comportamento do Garça e ambos, quase que telepaticamente, concordamos que o melhor era não discutir ou tentar argumentar com o sujeito. Só ignorá-lo parecia o bastante, pelo menos naquela hora, em que ele tava ocupado demais pra nos dar sua atenção indivisa. Se a tivéssemos a estratégia não funcionaria.

Lembrei da localização do banheiro informada por Miriam e que Chuva tinha ido pra lá não pra se aliviar, mas pra comungar com seus chefes, deuses ou delírios, nunca vou saber, que acreditava comandarem suas ações.

Torci pra que os glúons não o considerassem uma ameaça a ponto de lhe fazer mal, tendo com ele o mesmo descaso que comigo, ou que não o tivessem matado por acidente… ainda assim teto e paredes desabando podiam ser perigosos pra pessoas que metem a cabeça na privada pra falar com seus superiores. Deuses ou delírios tinham um senso equivocado da eficácia dos meios de comunicação disponíveis e apelavam pra recursos escatológicos e dramáticos demais. Telefonia celular e gadgets diversos que possibilitam o acesso à rede mundial ainda não tinham se disseminado no paraíso aparentemente.

Encontrei Chuva na mesma posição comprometedora de antes e ainda vivo. A mão apertava a descarga a fim de manter a água correndo em grande quantidade.

Paredes e teto orgânicos gostavam dele por causa da umidade que o acompanhava aonde quer que fosse.

Tentei me aproximar e tirá-lo do transe da ‘comunhão’ dum jeito que não o assustasse e não me molhasse com os conteúdos altamente suspeitos do vaso sanitário.

Mão estendida pronta pra tocá-lo no ombro, cinco centímetros de distância no máximo e bum!, quase caí pra trás de susto quando uma explosão de cabelos, barba e água rompeu contato ou precisou respirar ou ambos.

Seus olhos tavam vermelhíssimos quando falou:

- Ainda bem que você tá aqui, parceiro. Vamos encerrar o caso. Os chefes passaram instruções finais.

Dúvida nova pipocou: eu tava contente por que Chuva estava vivo ou por que ele disse que aquilo ia acabar?

17.1

February 24, 2009

E aqui é que o bicho pega pra valer porque, enquanto Miriam falava de equações e gráficos na tentativa de explicar a natureza dos glúons, a vibração anterior se repetiu.

Pra nossa sorte (eu, Mira, Afonso… Chuva não conta, sendo instrumento e funcionário dos deuses e tal) Velocidade da Luz tinha feito seu lance antes de ser nomeado batedor de Gauge e nos movíamos com rapidez suficiente pra evitar o pior.

Gauge não precisava de nada emprestado de outros supercaras. Nem Miriam, que tava no topo das prioridades dele.

O treinamento de Mira aflorou. Meus instintos de detecção, o formigamento entre nariz e olhos que sentia no interior da cabeça em momentos de grande estresse (não, não era um colapso nervoso, quem me dera… pelo menos seria uma justificativa pra escrever esse documento que não termina… minha tentativa frustrada de pôr as impressões em ordem), mais a vivência na Peniel do gabarito também ajudaram.

Pedaços do teto desabaram. Os outros estavam de armadura, eu só tinha meu terninho comprado pronto e um .38. Cair, rolar e tentar não ser esmagado pode ser bastante complicado sem o conjunto certo de requisitos. Bom tônus muscular, flexibilidade e cagaço.

Uma das paredes fungóides estalou e começou a apresentar rachaduras mais depressa do que o bolor branco conseguia crescer.

Gauge cobria Miriam com seu corpo. A mulher desaparecia sob sua cabeça e torso superdesenvolvidos, e a carapaça orgânica fazia os escombros quicarem ao atingi-la.

Mira me agarrou pelo paletó e pôs em pé, ao lado de Afonso. Ambos tinham os dentes à mostra e percebi a semelhança entre eles naquilo, afinal.

Sorriam.

As armas que portavam, diferentes da minha em seu design que combinava tecnologia de Gauge e terrestre, pareciam fazer tudo sozinhas. Se, por acidente, Mira a apontasse pra qualquer aliado, a traquitana não disparava. Ah é! O troço fabricava seus próprios projéteis. Enfim, muito útil em situação de combate. Formamos um triângulo na tentativa de proteger nossas respectivas retaguardas.

E o horror invadiu a sala vindo do espaço! Rá! Tive vontade de gargalhar, porque os glúons, os terríveis invasores, ainda usavam a aparência de Lorre e, pior, estavam com a mesma roupa que usavam quando os vi no escritório do galpão.

Talvez fosse exatamente este tipo de reação que queriam provocar: desarmar os incautos com sua aparência rechonchuda, desajeitada… fui pego de surpresa, sim. Também não sou o cara mais apropriado pra lutar com alienígenas. O que me salvou foi ter assistido ‘Relíquia Macabra’. Lorre não era um dos ‘mocinhos’. Ergui o .38 e o cientista maluco em seu robô gigante pipocou em minha memória. Perigo porra!

Descobri em primeira mão o uso que as amebas espaciais fazem de seus exoesqueletos miméticos. Vendo que estávamos esperando pelo ataque, abandonaram a forma gordinha e atarracada num piscar de olhos. Os bichos cresceram a olhos vistos. O Garça foi o primeiro a dar-lhes uma calorosa recepção. O que quer que a arma dele disparasse fazia efeito e achei que isso era bom.

Depois de acondicionar Miriam num cilindro na parede(um elevador pneumático, descobri depois), Gauge partiu pro ataque com as mãos (patas?) nuas. E, fico contente em dizer, ele sabia bater e batia pesado.

Os glúons atingidos por Afonso vazavam pro chão e escorriam. Os que Gauge socava com gosto só ficavam inertes, imagino que sofrendo de uma concussão amebóide dentro de suas confortáveis armaduras.

Mira seguia os passos do pai e dava cobertura pra fúria lupina de Gauge.

Eu só fiquei ali em pé, com a arma apontada e sem disparar. O aviso de Izzy quicava na caixa de osso.

Não era puritanismo de minha parte. Quando minha vida tá em risco não hesito. Pergunte pro Celso. Mas a fala de minha (ex?)namorada dos infernos era importante. O bastante pra ela me procurar in útero pra dizê-la.

16.4

February 7, 2009

Descobri não muito depois quanto Miriam estava certa sobre a consciência partilhada dos glúons. Ah, e deixei escapar a chance de usar o, como era o nome?, teleprompter que ela ofereceu.

Em conseqüência, amarguei ouvir os grunhidos de Gauge, longos e torturantes. Quando a melhor parte da história tava chegando eu já não agüentava mais. Sequer tava prestando atenção.

Aqui não teve como Rita ajudar com pesquisa e também não pude recorrer a qualquer tipo de arquivo que tivesse registrado os, ããã, fatos. Tá bom: ao invés de falar de ‘fatos’ vou falar de ‘impressões’.

A primeira que tive foi como um detonador pros outros. Não entendi porque reagiram de forma tão extrema a um troço mínimo daqueles. O salão em que estávamos não chegou nem a balançar, só vibrou um pouquinho.

Gauge começou a sinalizar muito rápido e Miriam, Garça e Velocidade da Luz deviam estar equipados com a porrinha porque ficaram de prontidão imediatamente. Roberto virou um borrão azulado e sumiu, mas antes fez duas coisas: ‘emprestou velocidade’ pros presentes e sintonizou a percepção de todo mundo no mesmo ritmo, de modo que uma reação rápida demais não ferisse alguém.

- Checa tua arma, Lucas, e reza pras ‘amebas espaciais’ não serem à prova de bala.

Meigo, né? Mira até tinha adotado minha nomenclatura fuleira. Mas apesar da referência explícita não captei a relação com a vibraçãozinha…

- Lucas, eu preciso ir no banheiro.

“Pô, Chuva, acho que não é uma boa hora pra isso. Fico com receio de perguntar onde é pressa gente estressada e levar um fora.” Quase acrescentei ‘se tiver muito apertado faz nas calças, aposto que não vai ser a primeira vez’, mas me contive. Pensando bem, com meu problema de diarréia verbal, talvez tenha deixado escapar, porque ele respondeu nos seguintes termos:

- Você não entendeu. Os chefes querem falar comigo.

Como é que fui esquecer? Os tais deuses com que Chuva costumava se comunicar, e que eu achava estarem só em sua cabeça, usavam vasos sanitários como orelhões. Até dá pra entender a confusão se a gente pensar na estética de ambos. Perguntei pra Miriam onde era a ‘casinha’ e passei a informação pra Chuva que se escafedeu.

Quando olhei ao redor, mesmo com percepção ajustada e o escambau, vi que Afonso e Mira já tavam armados até os dentes e ele parecia ter preocupações muito mais sérias que ocultar sua identidade. Vestia uma roupa parecida com a fantasia original do Garça… quase como uma armadura que as polícias de choque européias usam, inclusive um  elmo. O material era todo de um preto fosco, felizmente sem os detalhes amarelos que me ofuscavam os olhos e ele tava de cara limpa.

Mira ficaria linda até dentro de um barril. Preciso lembrar dessa imagem pra futura referência.

Parece que tanto design quanto material foram duplicados do que Gauge terminava de vestir. Era uma carapaça da mesma cor e parecia, como as paredes daquele nível, fodidamente orgânica.

Mais que nunca senti falta de Jack, meu parceiro inseparável em crises como aquela.

Fiz o que Mira mandou. Torci pra que a precaução fosse só isso, como na ocasião anterior, quando ‘resgatamos’ Chuva do bar no segundo nível. Fiz mais: procurei vazamentos biológicos inconscientes nas minhas roupas, afinal já vinha ameaçando vazar por mais de um orifício quase desde o começo dessa história. Felizmente só vi manchas de transpiração.

De repente lembrei de perguntar que raio tava acontecendo, e como sou acomodado e não queria a) ser esculachado por Afonso outra vez e b) servir como repasto pro Gauge, optei por perguntar pra única pessoa presente que não parecia adepta da violência.

“Dona Miriam, não é por nada, não, mas tá acontecendo alguma coisa que eu devia saber?”

Ela me olhou exatamente como minha professora da terceira série fazia, uma expressão de paciência profunda e, por que não dizer, amor ágape. Cê sabe, que não envolve sexo.

- Aquela vibração pode parecer pouco, Lucas, mas significa muita coisa. Nossa cidade está isolada do mundo externo, o que implica que a tectônica das placas não nos afeta. Além disso estamos em tamanho reduzido e dependemos de tecnologia segura e testada pra manter-nos estáveis, longe da ameaça de elétrons e quarks saltando quanticamente por aí. Trocando em miúdos, só é possível afetar as estruturas de Peniel de dentro e tomamos precauções no nível molecular e neuronal pra termos certeza de que nenhum morador comprometeria nossa integridade. A explicação restante é que o guardião do portal caiu, possivelmente superado pelos invasores, e que glúons tiveram acesso à dimensão de bolso.

“Mas, tipo, eles não vão ficar desorientados como eu e a Mira?”

- Lucas, apesar de nós falarmos dos glúons como organismos, raça, espécie, não estamos bem certos de que eles seriam afetados pela viagem no ‘escorregador de buraco de minhoca’, o mecanismo que te trouxe aqui. Gauge tentou me explicar o que eles são de fato, mas não usou só termos de biologia… equações complexas e fórmulas matemáticas, além de vários gráficos entraram na sua explanação e não tenho certeza de que entendi.

16.3

January 21, 2009

Eu precisava pensar rápido, encontrar uma saída praquela situação esdrúxula. Quer dizer, nesse ponto já deve ter ficado evidente o motivo pelo qual disse que não confio nas minhas memórias do que, de fato, aconteceu em Peniel.

Quão alteradas as percepções de uma pessoa podem ser sem comprometer sua sanidade? Eu já quase acreditava naquelas histórias absurdas de obiturações  que captam sinais de rádio.

E pra completar, o Garça Negra, seqüestrado e substituído por um glúon, agora dava as caras e todo mundo agia como se aquilo fosse natural, fizesse parte da ordem do universo e tal… tava pensando nisso quando me deu o estalo!

“Tudo bem, dona Miriam, eu topo usar o ponto eletrônico…”

- É link teletrônico, Lucas.

“Ótimo, brigado pela correção… link. Eu uso o lance desde que vocês me expliquem porque ninguém estranhou o aparecimento do nosso camarada Afonso aqui, do nada, sem maiores explicações. Digo, o cara já foi substituído uma vez. Quem me garante que esse aí não é outro glúon?”

- Peraí, Profit! Não faz muito tempo que cê ficou me consolando, dizendo que não tinha acontecido nada com meu pai, que uma ‘ameba espacial’ não ia dar conta de alguém tão assustador quanto o Garça e tudo mais…

“Ééé… bom, Mira, você já respondeu sua pergunta. Eu tava mesmo te consolando.”

- Lucas, eles podem disfarçar suas formas, mas a habilidade pra controlar feições está além da tecnologia que têm.

“Mas dona Miriam…”

- Preste atenção: os glúons que você encontrou não eram todos parecidos?

“É, todo mundo tinha a cara do Peter Lorre.”

- Então. Além disso se ele fosse um glúon não teria passado por Heytor.

Tinha isso, claro. Daí lembrei da última visão que tive de Heytor, na praia perfeita lutando com um glúon que pouco antes usava a fantasia do Garça.

“Ah! Então, Afonso, como é que tá o Heytor? E por que cê não recuperou tua fantasia?”

- Muito bem, Profit. Suas dúvidas parecem legítimas. – ele disse isso em um tom que tava longe de ser amistoso, o que contava pontos a seu favor. – Heytor está bem – ele continuou – conseguiu romper o exoesqueleto mimético do glúon e a criatura explodiu em chamas.

“Cara, cê tá brincando! Exoesqueleto não é que nem a casca de um caranguejo? Aquela coisa tava mais pra água-marinha!”

- Rárá! Certo. Leve em conta que estamos falando de uma espécie alienígena avançadíssima, tão antiga quanto os núcleos dos átomos, e você vai entender que a comparação com um crustáceo primitivo é patética.

“Cê tá dizendo que não gosta de caranguejo, ‘Garça’?”

- Rapaz, você está testando minha paciência. Primeiro dorme com minha filha, agora vai querer caçoar do meu totem?

“Não, quer dizer, sobre esse lance de dormir…”

É, eu sei, tinha ido longe demais na tentativa de salvar meu rabo. Escapei de usar a porrinha eletrônica e ia levar porrada. Fazer o quê? Eu gosto de caranguejo.

- Pára, pai. Você provocou que eu ouvi. Explica logo pra ele essa coisa do exoesqueleto e pronto!

Essa era minha Mira! Sempre me defendendo do pai maníaco. Ensaiei um sorrisinho pra ela que me fuzilou com o olhar e formou as sílabas silenciosas de um ‘não provoca’ com aqueles lábios fantásticos.

- O exoesqueleto dos glúons é parte da tecnologia de sobrevivência em ambientes hostis, ou seja, cujas atmosferas provoquem sua combustão. Ele os isola e sua capacidade mimética lhes permite assumir formas diferentes: bípedes, quadrúpedes… até amebas, sem explodir em chamas.

“Por isso que ele não pegou fogo quando a Mira acendeu o batom!”

- Mas de que porra esse…

- Pai, olha a linguagem! Ele tá falando do mini-maçarico.

“Eles podem se disfarçar de pássaros também, né?”

- Profit, o que é um bípede pra você?

“Ããã…”

E Mira me deu uma cotovelada nas costelas. O pai padecia da boa e velha soberba, dava crédito demais à sua inteligência e subestimava todo mundo que não fosse ele ou um deus alienígena. A filha, por outro lado, sabia que eu tava de sacanagem. Gostava cada vez mais dela e meu interesse já começava a ir além da recreação sexual com uma mulher perfeitamente deliciosa.

“E tua fantasia? Cadê?”

- Estava suja. Imprópria para o uso.

“Então a gente se livrou dos glúons, certo?”

- rrrmenino…

Puta susto! Era uma… voz que ainda não tinha ouvido. A ficha caiu. O grunhido era de Gauge. Ele, bom, meio que falava afinal. Era um som desagradável pra cacete.

- rrrglúons rrrsão rrruma rrrentidade.

- O que Gauge quer dizer – Miriam interrompeu – é que uma vez que um deles chegou aqui, todos os outros partilharam seu conhecimento e aprenderam os caminhos. Eles sabem, inclusive, que obstáculos enfrentarão. Você sabe, ele têm uma consciência partilhada, apesar de também terem tratos que quase chegam a formar personalidades individuais.

16.2

January 13, 2009

Sim, como qualquer ser humano afoito com a autopreservação, minha atenção tinha sido dirigida à ameaça mais imediata do Garça, melhor, do Afonso, melhor, do pai da Mira, e Gauge e sua companheira meio que ficaram por ali como figurantes no ‘drama’ de minha vida.

Eu tava na mesma sala que o sujeito que, me disseram, ‘é o melhor de nós’ (levando em consideração que isso foi dito por alguém da comunidade fantasiada e que esses caras têm um ego do tamanho do Godzilla, é muita coisa) e, segundo informações oníricas que se provaram precisas com a corroboração de Roberto Maia (ou Velocidade da Luz), tinha sobrevivido à queda de seu disco voador (ou o que fosse), derrotando os glúons que o perseguiam em combate, ocultado uma cidadezinha inteira de detecção humana e/ou alienígena e construído uma comunidade utópica usando-a como base e, ainda assim, me comportava como o pedestre que anda pelas ruas acotovelando as pessoas, ou um turista de shopping que só enxerga o que está imediatamente à sua frente ignorando os demais que ocupam o mesmo espaço, ou o motorista que não vê pedestres e só vê outros carros quando entram em rota de colisão com o dele.

Toda a raiva que dirigi moderadamente a tantas pessoas pareceu, de repente, injustificada, uma vez que eu tinha acabado de fazer o mesmo.

E lá estava Gauge. Muito em forma prum cara que caiu em nosso monte de lama em 1936. Ligeiramente curvado pra frente mas não por conta do peso dos anos. Era característica de sua espécie, que tinha a parte superior do corpo (tronco, ombros, braços, cabeça) muito desenvolvida. Conveniente pra um povo que explorava estrelas e se engajava em combates de morte há milênios.

Gauge me fazia lembrar de lobos, ruskies, pastores. Talvez por causa da barba cerrada e cabelos abundantes, talvez, novamente, por causa da postura arqueada quase animalesca que, entre outras coisas, ajudava a proteger peito e abdômen (as partes mais moles do corpo que dão acesso aos órgãos vitais) e aliviava a carga das ‘patas’ traseiras, talvez por causa das orelhas que lhe davam um aspecto de atenção excepcional, ou às narinas que se dilatavam cheirando o ar com enorme prazer enquanto ele jogava a cabeça pra trás… mas eram os olhos que mais denunciavam esse parentesco canino. Olhos zen, que não entregavam o que se passava em sua mente e ainda assim eram fodidamente expressivos, que podiam estar dizendo algo como ‘continue falando e trate de manter-me interessado, porque sempre posso fazer uso gastronômico do que não me apetecer de outra forma’, ou coisa parecida. Era como olhar pro Django, meu ex-cachorro. Grandes olhos amendoados, sempre límpidos, e pronto pra confusão a qualquer momento…

Acho que deu pra entender. Esse aspecto de ‘porra, que ele vai fazer na seqüência?’ na verdade era mais assustador que as técnicas de provocar medo do Garça. Quer dizer, com o Garça cê poderia prever um olho roxo ou uma fratura exposta ou um tiro na cabeça… com Gauge, por outro lado…

E tinha a porra do sonho na estrada! Entalado na boca do lobo! Só quando tava entrando em desespero com a possibilidade de virar o almoço de Gauge lembrei da mulher.

E era uma mulher mesmo, não uma dessas meninas fantasiadas de adulta e, definitivamente, não uma senhora da terceira idade tentando passar por mocinha. Mulher, ponto final.

Ela acariciou o ombro de Gauge como se fosse importante manter um vínculo com ele. Ele encostou sua cabeça enorme na mão dela. É, o vínculo ali, evidente, era diferente do de uma mulher e seu bicho de estimação.

Eu devia estar embasbacado demais porque Mira fez uso de seus dotes de âncora com a realidade e estalou os dedos diante de meus olhos dizendo ‘terra pra Profit!’ três vezes. Então as apresentações voltaram ao cardápio do dia.

- Meu nome é Miriam, Lucas, e se você quiser falar com Gauge temos duas opções: ter paciência com as limitações vocais que ele tem ou usar o link teletrônico.

“Ah, oi, meu nome é… rárárá! Você sabe meu nome, né? E… se eu usar o tal link vou desmaiar, entrar nalguma realidade virtual ou passar por algum tipo de iluminação espiritual súbita?”

- Realmente? Não, Lucas. Você só se tornará capaz de processar e emitir os agregados de imagens/pensamentos através dos quais Gauge prefere comunicar-se. É tudo muito simples e higiênico.

16.1

January 8, 2009

O lance do biofeedback, a sensação que eu tinha naquela caminhada que, primeiro me tirou do ar e depois me enfureceu, é que meu sistema endógeno tava trabalhando com sobrecarga. Opióides e hormônios, endorfinas e adrenalina, eu tava quimicamente desequilibrado e não tinha meu quartilho de Jack pra dar uma pancada no sistema nervoso saturando-o de álcool e forçando o pâncreas a contrabalançar bombeando insulina. Tava na cara, pelo menos pra mim, que o que viesse a seguir ia ser uma merda irreconciliável.

Toda aquela coisa de utopia futurista sócio-tecnológica começou a me alcançar a partir do momento que ganhei perspectiva. A organização vertical da cidade em níveis tinha ou não tinha uma idéia subjacente de estratificação social, quase como o sistema de castas indiano? É o que acontece quando sua perspectiva vem graças a um monte de substâncias que teu corpo produz mas que não administra conscientemente. Iluminação e confusão podem muito bem parecer a mesma porcaria.

Daí preu ficar mais transtornado ainda com a questão social, a gente entrou num salão que, sei lá, parecia saído dum daqueles filmes hollywoodianos sobre a realeza. Um daqueles com a Cate Blanchett no papel de rainha… hm, Cate… cê entendeu: alguém precisava demonstrar quão grandioso e superior era com relação ao ‘resto’. Era desse jeito que eu percebia aquela ostentação. Como se eu fosse um ‘resto’. Some a isso a admiração recém-adquirida pelos meus acompanhantes e o desequilíbrio químico que experimentava e, presto!, sem piscar os olhos eu me senti no direito de chutar a bunda de qualquer entidade ‘superior’ que viesse me encher o saco.

No caso Gauge, uma mulher bem vestida que aparentava uns 30 anos, e um sujeito de mais ou menos 50, ainda em forma, vigoroso, pouco mais alto que eu e ostentando uma orgulhosa careca completa… disse que ele era fodidamente familiar?

Foi o careca, aliás, que causou maior impacto no meu grupo, sendo mais específico, em Mira, que quando o viu correu pros seus braços. ‘Encontro fodido’, pensei comigo mesmo, cheio de ressentimento, com a certeza atroz de que nossa combinação de ‘sexo recreacional depois da missão’ ia furar por conta da interferência do Sr. Carecão. Como não dava pra evitar, me aproximei soltando fumaça e com o coração sangrando.

Quando meu grupo tava perto o bastante o careca me olhou diretamente e eu soube quem ele era. Quase mijei nas calças. É, ele usava jeans e camiseta pretos, botas idem, mas eu não tinha relacionado essa informação com quem o cara seria. Bastou me olhar uma vez e bum! Uma criatura cuja natureza era tão duvidosa e sobre a qual só se sabia uma coisa: ele provocava medo mesmo sem sua fantasia.

- Lucas, vem aqui! Deixa eu te apresentar…

“Garça?”

- Em roupas civis não, Profit. Afonso Guerra. Te subestimei, não é? Você afinal encontrou Peniel…

Disse isso balançando minha mão inerte e fria e fez mais uma de suas coisas assustadoras de combatente sombrio do crime: me cheirou.

- Mira – ele disse e quase me caguei – você deitou com esse… ‘detetive’?

‘Fodeu’, pensei. Eu tinha mesmo tomado liberdades com Mira Bandeira. Não chegamos a concluir o ato nem no gabarito, mas tinha me agarrado com ela na primeira oportunidade. ‘E agora, o cara que a tinha treinado sentiu o cheiro dela em mim e vai me cobrir de porrada’, foi minha conclusão. Afinal, eu tinha tido intimidades com sua… pupila? Amante?

A iminência de levar uns sopapos ajudou e muito a diminuir minha revolta social. Agora meus instintos de autopreservação estavam ligados e eu tendia mais pra parte ‘fugir’ do que pra ‘lutar’.

O que Mira disse a seguir me deixou chocado, mas não diminuiu em um miligrama meu medo.

- Pára com isso, pai! O Lucas é destrambelhado mas tem bom coração. Além disso eu não sou mais nenhuma menininha.

“Fodeu duplo!!!” A situação só piorava e Mira sequer tinha negado nosso suposto intercurso. ‘Morrer agora seria um puta alívio’. A mão do Garça soltou a minha. ‘Ele vai me socar’, pensei.

- Olha a língua na frente da minha filha, Profit. Não é assim que se trata uma mulher.

- Paaaiii!!! – eu ouvi Mira dizer e, estranhamente, não caí inconsciente. Nem de medo nem por nocaute.

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