Embora tivesse mais uma vez minha atenção, Alice não sabia bem o que queria. Até pra decidir o que beber no barzinho “cabeça” em que me levou demonstrou certa dificuldade.
Minha imaginação trabalhava como nunca no tecido delicado de sua roupa. Imaginação tátil, se quiser. Não conseguia parar de pensar em como seria tocar aquela roupa antes de livrar-me dela e tê-la nua… aí entrava em cena a imaginação visual, como você bem pode deduzir.
Na época minha cabeça ainda não estava tão danificada quanto agora por excesso de referências e me contentei em pensar que sua pele seria sedosa sob as pontas de meus dedos. Os lábios, flor carnuda e vicejante eram como um presente de outra dimensão.
Sonhei com essas impressões noite passada, como se a memória se fundisse ao desejo e este pretendesse me compensar com algo que eu não mais teria materialmente.
As perguntas dela a meu respeito… eram gerais. A aparente atração, minha justificativa pra entender seu interesse por mim, esvaiu-se de repente quando começou, o quê?, a entrevista.
“Você é da região?”
“Não, sou nordestino. Mas vim muito pequeno pra cá. Se voltasse ao nordeste agora era capaz de não me adaptar por lá.”
“Sei. Qual a sua escolaridade?”
“Estou eliminando matérias conforme posso. Terminei todas do ensino fundamental. Ainda faltam algumas pra completar o ensino médio.”
“Do que você gosta?”
“Como assim? De estudar?”
“Não, de fazer.”
“Se me perguntasse há um tempinho atrás, era ouvir rádio. Hoje… não sei, preciso arrumar alguma coisa pra me distrair.”
“Você não tem nenhum hobby mesmo? Não tem namorada?”
“Tinha, mas não sabia que ela se considerava assim, tão ligada a mim. Quando percebi já era tarde. Ela foi embora.”
“Pena.”
“Escuta, é assim que a gente vai passar a noite, mesmo? Tá parecendo um interrogatório, não uma conversa.”
“É um jeito de se ver… você não tem nenhum curiosidade a meu respeito? Pode perguntar que respondo.”
“Já tive. Queria saber como você era quando conhecia só sua voz. Agora preciso decidir de qual versão de você gosto mais: a garota de camisa masculina e jeans ou a mulher superproduzida de hoje.”
“Ah, você não gostou?”
“Ao contrário, gostei bastante. Só não sei qual delas é você… qual é a dona da voz.”
“Você é esquisito, Pedro. Já te ocorreu que posso ter me arrumado toda só pra vir te ver?”
“Não. Não me iludo com esse tipo de coisa.”
“E está certo em fazer assim. Fui numa entrevista de emprego… quem sabe com alguma sorte saio do rádio e vou pra tevê.”
“Entendi. Ainda assim fica a dúvida.”
“E se eu te dissesse que nenhuma das duas? A única hora em que me sinto eu mesma é quando estou em casa ‘a vontade, comendo, assistindo a um filme, tomando banho… acho que é aí que deixo todas as máscaras de lado e sou eu mesma. E você? Quando você é você mesmo?”
“À toda hora. Não sou tão complicado. Gosto de simplicidade. O que você vê é o que você tem. Nem mais nem menos.”
“Acho que gosto disso, dessa objetividade. Só não sei se estaria preparada pra lidar com ela no dia-a-dia.”
“Você não precisa. É só entrar no carro e ir pra outro lugar. Eu saio de sua vista, a simplicidade fica comigo, sua vida volta a ser complexa e interessante.”
“Rárárá! Você estuda mesmo pra esses exames de eliminação de matéria, né?’
“Olha, pra dizer a verdade aprendi a maioria das palavras difíceis que sei ouvindo teu programa e consultando o dicionário pra ver o que significavam.”
“Sério?”
“Alice também é cultura…”
“Pára de tirar sarro!”
“Parei.”
“Pedro…”
“Alice…”
“Pedro, você quer ir pra cama comigo?”
“Quero Alice. Só não sei se posso.”
“Você só tem de dizer que quer, Pedro.”
“Alice, a gente é muito diferente um do outro.”
“Pedro, é só sexo, tá?”
“Alice, isso é ficção, tá?”
“Significando?”
“Aprendi do jeito mais difícil mas aprendi: sexo sempre significa mais pra uma das pessoas envolvidas.”
Daí, como dizer, meio que acabou qualquer clima que poderia ter surgido. Fazia pouco tempo que Joana tinha me deixado, era tudo muito fresco na memória pra que eu deixasse passar o mesmo erro novamente.
Alice deu uma desculpa qualquer, disse que precisava trabalhar, não se lembrou que eu sabia seus horários e foi embora. Precisei pegar um ônibus, mas estava bem, não me perguntava mais como poderia ter sido.
Claro, não foi a última vez que ouvi falar de Alice. Mas antes tinha encontros estranhos pela frente. Um deles com Cléber. Outro, com o desconhecido. Mesmo.