1.

July 31, 2006

MARRETA.

1.

o escritório foi revirado mais uma vez.

a décima neste mês.

pra minha sorte já não deixo mais a arma na gaveta. ou teria que fazer dez reposições e minhas finanças não andam em ordem o bastante pra que possa me dar esse luxo.

o quarto de jack daniels… preciso bolar uma estratégia pra carregar comigo também. um coldre pra garrafa? não, arriscado demais. com minha sorte levaria um tiro bem em cima dela.

percebo que estou pensando só coisas banais enquanto arrumo os móveis de modo que voltem ‘as suas posições convencionais. a canção quase alienígena que entra pela porta interrompe o fluir de idéias pré-concebidas. não é gerada por uma mera boca. é todo o corpo que fala.

o tecido que a envolve dos joelhos até o pescoço tem uma qualidade indefinível. não por se tratar da mais fina seda ou da chita mais simples, mas por estar tão colado ao seu corpo esbelto.

não importa a que classe social ela pertence.o jeito como anda grita “problema” a plenos pulmões.

“Sr. Prophet? Sr. Lucas Prophet?”

“É Profit. Lucas Profit. Mas pode me chamar de Bono.”

“Preciso de ajuda, sr. Profit.”

evito falar por alguns segundos. preciso saber de quanta ajuda ela precisa e este é o método mais rápido. além disso percebi que ela não disse o nome, reserva que indica uma certa desconfiança com relação a minha pessoa. não demora muito.

“Preciso muito de ajuda. Não sei mais a quem recorrer.”

“Srta.?”

“Omen. Amélia Omen.”

“E do que se trata, srta. Omen?”

mais retração.

“Talvez não fosse o caso de procurar alguém como o sr., mas…”

“Não sabia a quem recorrer, certo?”

“Sim.”

15.

July 25, 2006

Já deu pra perceber que nenhum evento estapafúrdio acontece nessa história, certo? Talvez alguém diga que é uma daquelas narrativas sobre nada… a vida é exatamente assim, não? Não faz sentido, não leva a lugar algum. Parece sim ser somente som e fúria sem nenhum significado.

Exceto que…

Coisas sem significado podem ser importantes.

Minha última noite trabalhando como vigia noturno foi mais interessante que qualquer voz saída de qualquer rádio jamais poderia ser.

A essa altura já tinha eliminado todas as matérias do ensino médio e me dedicava a estudar pra o vestibular com afinco pois não podia pagar uma faculdade particular. Tinha posto como missão provar a mim mesmo minha igualdade, embora hoje em dia isso pareça uma quimera, rejeitar a inferioridade de uma vez e levar a melhor vida possível.

Ao chegar na guarita, abri a garrafa térmica e enchi um copo de café. Senti o cheiro subir com a fumaça, um dos prazeres que mais tarde cultivei, apreciar um bom gole de café ainda fresco, ainda não viciado pelos resíduos imortais de mil cafés anteriores.

Verifiquei as câmeras de vigilância.

Depois de muito tempo de vício, optei por não ligar o rádio e esperar por Alice. Ela agora pertencia a um país que eu tinha deixado pra trás, só uma memória, pouco mais que isso, talvez.

Ainda a veria algumas vezes zapeando a tevê em busca de entretenimento nas madrugadas insones, em algum canal por assinatura, mas não houve mais contato real, o espelho da fantasia se partiu em cacos infinitos.

Num dos monitores de vigilância, uma pequena coluna de fumaça começava a se formar.

Um vulto se postou na porta de onde o fumo subia e demorei a reconhecê-la.

Era a garota do escritório outra vez, mas agora parecia estar ali mesmo. Li seus lábios mais do que ouvi sua voz, seus olhos fixos na câmera:

“Oi. Acho que comecei um incêndio sem querer.”

Tentei imaginar como seria a voz dela enquanto acionava o alarme e chamava a brigada de combate ao fogo da fábrica.

Dizer que nosso encontro foi natural não faria jus ao ocorrido. Foi mais que isso. E, outra vez, me vi apaixonado por uma fração de pessoa, um fotograma misterioso com uma imagem nunca esquecida.

FIM.

14.

July 24, 2006

Se tivesse dito “sim” praquela pergunta de Alice talvez minha vida tivesse sido, por um tempo, uma versão de “Eduardo e Mônica” pra classes sociais diferentes e não idades.

Imagino que a complicação com Cléber seria ainda maior, que ele agiria de forma bem mais violenta se tivesse alguma verdade na sua suspeita.

Só posso imaginar, felizmente. Meus instintos, dessa vez, estavam certos.

Ele me abordou no bar como quem não quer nada, no melhor estilo “amigão” que seu dinheiro pode comprar. Adamastor não tinha aparecido e eu fazia minha cerveja durar o máximo que podia já sem esperar que ele viesse… em tempos mais abundantes, viraria uma depois da outra e me preocuparia com a conta só na hora de ir embora. Mais uma sorte, essa de estar duro.

“Fala, Pedro!”

“Oi, doutor.”

“Que é isso, Pedro! Você sabe meu nome! Não precisa de formalidade comigo!”

“Dr. Cléber, o senhor até pode dizer isso agora, mas a primeira coisa que lembro ouvir da sua boca foi uma ameaça. Então, se não se importar, prefiro tratar o sr. de doutor, mesmo.”

“Tudo bem, então. Se você prefere assim… mas esse seu comentário, Pedro… ele não é importante, é? Você não desobedeceu nosso acordo nem nada do tipo, certo? Porque, Pedro, eu posso ficar muito puto contigo muito rápido, entendeu?”

“Eu sei meu lugar, pode deixar. Não me meti com sua amiga do jeitinho que o senhor falou.”

“Achei que você fosse inteligente mesmo, Pedro. Tem visto o seu amigo? O informante lá que te deu o serviço sobre a Alice?”

“Tenho sim, mas só pra tomar cerveja e jogar conversa fora. Nunca mais perguntei dela. Não quero mais saber da vida de ninguém. Tenho muito com que me ocupar ficando sozinho.”

“Pedro, qualquer coisa que você precise… sabe, você é homem… se precisar se aliviar… é só falar comigo. Eu conheço umas donas que fariam o serviço barato.”

“Pode deixar, doutor. Mas ainda não tô precisando de ajuda profissional, não. Eu me viro.”

“Ok. Tá aqui minha parte pra te fazer esquecer nosso mal-entendido.” e deixou uma nota de 50 reais no balcão antes de sair.

Peguei minha bolsa com o uniforme de serviço, enxuguei o restinho de cerveja choca do copo, paguei com os trocados que ainda tinha e saí.

O balconista, um milagre de honestidade, me chamou e perguntou se eu tinha esquecido o dinheiro no balcão. Eu disse que não, que não era meu e que sabia disso porque tinha saído de casa só com o dinheiro da condução e da cerveja.

Ele embolsou sem discutir mais.

Trago essas lembranças de Cléber bem perto do peito porque foram formadoras do meu caráter depois de adulto. Se tivesse a chance algum dia de humilhar alguém, eu deixaria passar sem pestanejar.

13.

July 19, 2006

Embora tivesse mais uma vez minha atenção, Alice não sabia bem o que queria. Até pra decidir o que beber no barzinho “cabeça” em que me levou demonstrou certa dificuldade.

Minha imaginação trabalhava como nunca no tecido delicado de sua roupa. Imaginação tátil, se quiser. Não conseguia parar de pensar em como seria tocar aquela roupa antes de livrar-me dela e tê-la nua… aí entrava em cena a imaginação visual, como você bem pode deduzir.

Na época minha cabeça ainda não estava tão danificada quanto agora por excesso de referências e me contentei em pensar que sua pele seria sedosa sob as pontas de meus dedos. Os lábios, flor carnuda e vicejante eram como um presente de outra dimensão.

Sonhei com essas impressões noite passada, como se a memória se fundisse ao desejo e este pretendesse me compensar com algo que eu não mais teria materialmente.

As perguntas dela a meu respeito… eram gerais. A aparente atração, minha justificativa pra entender seu interesse por mim, esvaiu-se de repente quando começou, o quê?, a entrevista.

“Você é da região?”

“Não, sou nordestino. Mas vim muito pequeno pra cá. Se voltasse ao nordeste agora era capaz de não me adaptar por lá.”

“Sei. Qual a sua escolaridade?”

“Estou eliminando matérias conforme posso. Terminei todas do ensino fundamental. Ainda faltam algumas pra completar o ensino médio.”

“Do que você gosta?”

“Como assim? De estudar?”

“Não, de fazer.”

“Se me perguntasse há um tempinho atrás, era ouvir rádio. Hoje… não sei, preciso arrumar alguma coisa pra me distrair.”

“Você não tem nenhum hobby mesmo? Não tem namorada?”

“Tinha, mas não sabia que ela se considerava assim, tão ligada a mim. Quando percebi já era tarde. Ela foi embora.”

“Pena.”

“Escuta, é assim que a gente vai passar a noite, mesmo? Tá parecendo um interrogatório, não uma conversa.”

“É um jeito de se ver… você não tem nenhum curiosidade a meu respeito? Pode perguntar que respondo.”

“Já tive. Queria saber como você era quando conhecia só sua voz. Agora preciso decidir de qual versão de você gosto mais: a garota de camisa masculina e jeans ou a mulher superproduzida de hoje.”

“Ah, você não gostou?”

“Ao contrário, gostei bastante. Só não sei qual delas é você… qual é a dona da voz.”

“Você é esquisito, Pedro. Já te ocorreu que posso ter me arrumado toda só pra vir te ver?”

“Não. Não me iludo com esse tipo de coisa.”

“E está certo em fazer assim. Fui numa entrevista de emprego… quem sabe com alguma sorte saio do rádio e vou pra tevê.”

“Entendi. Ainda assim fica a dúvida.”

“E se eu te dissesse que nenhuma das duas? A única hora em que me sinto eu mesma é quando estou em casa ‘a vontade, comendo, assistindo a um filme, tomando banho… acho que é aí que deixo todas as máscaras de lado e sou eu mesma. E você? Quando você é você mesmo?”

“À toda hora. Não sou tão complicado. Gosto de simplicidade. O que você vê é o que você tem. Nem mais nem menos.”

“Acho que gosto disso, dessa objetividade. Só não sei se estaria preparada pra lidar com ela no dia-a-dia.”

“Você não precisa. É só entrar no carro e ir pra outro lugar. Eu saio de sua vista, a simplicidade fica comigo, sua vida volta a ser complexa e interessante.”

“Rárárá! Você estuda mesmo pra esses exames de eliminação de matéria, né?’

“Olha, pra dizer a verdade aprendi a maioria das palavras difíceis que sei ouvindo teu programa e consultando o dicionário pra ver o que significavam.”

“Sério?”

“Alice também é cultura…”

“Pára de tirar sarro!”

“Parei.”

“Pedro…”

“Alice…”

“Pedro, você quer ir pra cama comigo?”

“Quero Alice. Só não sei se posso.”

“Você só tem de dizer que quer, Pedro.”

“Alice, a gente é muito diferente um do outro.”

“Pedro, é só sexo, tá?”

“Alice, isso é ficção, tá?”

“Significando?”

“Aprendi do jeito mais difícil mas aprendi: sexo sempre significa mais pra uma das pessoas envolvidas.”

Daí, como dizer, meio que acabou qualquer clima que poderia ter surgido. Fazia pouco tempo que Joana tinha me deixado, era tudo muito fresco na memória pra que eu deixasse passar o mesmo erro novamente.

Alice deu uma desculpa qualquer, disse que precisava trabalhar, não se lembrou que eu sabia seus horários e foi embora. Precisei pegar um ônibus, mas estava bem, não me perguntava mais como poderia ter sido.

Claro, não foi a última vez que ouvi falar de Alice. Mas antes tinha encontros estranhos pela frente. Um deles com Cléber. Outro, com o desconhecido. Mesmo.

12.

July 15, 2006

Você com certeza pode se perguntar: “Como assim? Como reapareceu? Você esteve com a mulher, o quê, meia hora?”

E, sim, estaria certo.

Mas é a verdade. Ela não estava lá e, de repente, estava. Reapareceu, entende, voltou a fazer parte da minha vida.

A princípio não entendi (sendo sincero agora: ainda não entendo) o que poderia querer de mim. A mulher achou que eu era algum tipo de tarado, pois um amigo policial pra me investigar, me enxotou de uma festa e agora…

Melhor falar do que ela queria, certo?

Acho que vale dizer que a curiosidade falou mais alto que o medo nesse caso. Ela quis, afinal, saber por quê eu tinha me interessado por ela, quem eu era, o que fazia e mais milhões de perguntas. Dessa vez, queria saber em primeira mão e não receber informações de terceiros.

Corro o risco de parecer pretensioso, mas acho que estava atraída por mim. E dessa vez, não veio disfarçada de homem como na festa. Tive até um pouco de dificuldade em reconhecê-la.

Alice foi a mulher mais complexa com que lidei e, é sério, não estava preparado pra lidar com ela.

Estava parada do lado de fora da fábrica, usando um vestidinho esvoaçante, solto do corpo, que a fazia parecer uma aparição (no bom sentido do termo)… seu cabelo louro, também solto, caía em cascata sobre os ombros e os óculos foram substituídos por lentes de contato. O batom foi o que mais me chamou atenção. Era vermelho e contrastava com o tom leitoso de sua pele.

Finalmente a Alice que eu esperava ser a dona da voz.

“Oi, Pedro.”

Foi tudo o que precisou dizer pra reconhecê-la.

“Oi, dona-encrenca.”- respondi, imaginando onde estaria Cléber.

“Paz, cara-pálida! Não vim pra brigar. Só quero trocar idéias. Conversar um pouco. Saber quem é você, estranho.”

“Entendi. Pra depois fazer pouco de mim com seus amiguinhos burgueses. Tá bom. Vai esperando.”

“É sério, Pedro: missão de paz. Juro. Quero saber mais…“

Claro, eu estava fazendo charme, mas e aí? Você não faria? Afinal, eu também tinha ego, apesar de não ter dinheiro.

“Tudo bem. Vamos conversar.”

“Pra onde?”- ela perguntou, abrindo a porta do carro.

“Um lugar em que a gente possa falar… e que não seja caro.”

11.

July 14, 2006

Tudo mudou a partir daí. Ouvir o programa de Alice já não tinha a mesma graça, perdeu-se um pouco do efeito que me causava imaginar como ela era. Mas tinha me habituado e continuei me entretendo como podia enquanto esperava.

Mas o quê estava esperando, certo? Depois de terem cuspido na minha cara que eu era “limitado” pra entender o que quer que fosse um tipo de raiva silenciosa me tomou.

Comecei a levar mais a sério a questão de não ter estudado e pensei que estava na hora de voltar. Com o problema de tempo sempre contando em minha cabeça, optei por fazer a eliminação de matérias, modalidade de educação que era a única possível pra mim naquele momento.

Em alguns meses estaria pronto pra prestar um vestibular, mas a coisa não funcionou como eu queria e ainda precisei esperar outro tanto até ter arranjado um emprego melhor, com horário decente que me permitisse estudar ‘a noite.

Era um jeito de me concentrar e provar pra mim mesmo que Cléber estava errado a meu respeito.

O engraçado é que, na minha cabeça, toda a obsessão por Alice já estava resolvida, o mistério, desfeito. Mas tinha posto em movimento um dispositivo com o qual ainda precisaria viver muito pra entender.

A imaginação de uma mulher.

Depois da primeira vez soube como ela me localizou. Eu ainda saía com Adamastor, ainda tomávamos cervejas sem conta, apesar de já não me lamentar tanto quanto antes. Foi ele quem contou a ela como me encontrar, em que horário era possível me ver e todo o resto.

Um dia, do nada, Alice reapareceu na minha vida. Dessa vez, eu esperava, não me daria problemas com a polícia.

10.

July 13, 2006

Cochilei mais de uma vez. A bebida podia até não me deixar de ressaca, mas estava cobrando seu preço de um jeito ou de outro.

O programa terminou e saí pra fazer a ronda pelos corredores, agora me dava conta, intermináveis. A cerveja mudou um pouco minha percepção das coisas.

Uma das salas estava com a luz acesa. Já tinha visto algo parecido num capítulo anterior. Só que desta vez precisava das mãos pra me segurar em pé. Nada de cassetete. Pensando nisso me ocorreu que talvez Cléber tivesse feito aquela visita noturna assustadora. Não seria de estranhar. Nele tudo parecia assustador.

Imaginei que alguém tivesse esquecido a luz assim na pressa de ir embora. Era a hipótese em que eu queria acreditar, pelo menos. Não teria condição de fazer nada além de cair no chão e chorar se a fábrica estivesse sendo roubada.

Quando entrei vi que uma mulher estava sentada e debruçada sobre uma das mesas, com um cigarro aceso entre o indicador e o anular da mão esquerda. A porta rangeu quando a escancarei e a garota, levantando, me olhou assustada e disse:

“Não fui eu!”

“Quê?”

“Ah, meu Deus! Não!”

“Calma, calma. O que aconteceu? Você dormiu aqui e esqueceu de ir pra casa?”

“Não! Eu tava fazendo hora-extra e quando percebi estava sozinha aqui e o prédio fechado. Tentei ligar pra portaria, mas a secretária deixou o PABX desligado e não tinha linha nem pra ligar pra outro setor. Acendi esse cigarro e devo ter pegado no sono. Quando vi o fogo e a fumaça…”

Ela olhava desesperada para os lados.

“Que fogo? Que fumaça?”- perguntei, desviando o olhar dela, só me virando o suficiente pra ter uma noção do que tinha acontecido e não vi nada queimado ou chamuscado. Quando olhei novamente em sua direção, já não estava mais lá e as luzes se apagaram.

Não tinha sobrado nem o cheiro do cigarro nem a memória da voz dela. Engraçado na minha situação esquecer justamente a voz de alguém. Ilusão de ótica? Sei lá.

9.

July 12, 2006

9.

Imaginei que se tentasse sair novamente Cléber seria capaz de alguma atitude mais drástica, como me prender ou algo do gênero. Querendo ou não, dependia de sua boa-vontade. E aprendi que não é bom depender de gente como ele desde cedo.

Arrumei meu melhor sorriso e disse:

“Olha, eu sinto muito, mesmo. Se soubesse que você ia se ofender tanto ou se preocupar…”

Mas ela parecia determinada a não abandonar o assunto. E Cléber também.

“…o cara que imaginou que flores compram a simpatia de uma mulher e, quem sabe, uma trepada…”

“Não era nada disso. Só queria ser legal, quem sabe te encontrar e conversar um pouco. Trocar idéias. Só isso.”

“No que cê tava pensando quando fez aquilo?”

“Se tivesse pensado não tinha feito.”- Cléber sugeriu.

“Mas por quê?”

“Por causa da sua voz, acho. Me apaixonei por sua voz.”- eu disse por fim.

“E você acha que pode ter isso de mim?”

“Eu já tenho, moça.”

“Acho que isso acaba por aqui, não, Pedro? Nada de interrogar funcionários da rádio sobre o endereço dela, nada de mandar flores ou ser inconveniente mais uma vez com a Alice. Você sabe quem vai estar na outra ponta da alternativa. Não vou ser tolerante se houver uma próxima vez.”

Aquilo encerrava tudo. O que eu podia dizer? Pra quem apelar? Peguei os cacos do que restava da minha dignidade e saí daquele lugar.

Alice tinha os olhos fixos em mim, mas não fez nenhum movimento que mostrasse que queria saber de verdade quais eram os meus motivos.

Estava cansado e tonto mas precisava trabalhar. Vi Adamastor num canto com a mesma morena, agora ansiosa pra limpar seus ouvidos com a língua. Acenei e movi os lábios dizendo que precisava ir.

Atravessei a rua.

24 hs.

O som mecânico do cartão de ponto sendo picotado. Cheguei em minha guarita, abri a garrafa térmica, enchi um copo de café.

Verifiquei as câmeras de vigilância.

Liguei o rádio e esperei por ela.

8.

July 11, 2006

8.

“Cara, como é que cê sabe meu nome?”- foi tudo que consegui articular.

“Na verdade é bem simples, Pedro. Mas talvez fosse melhor deixar que Alice conte, é claro. Se importa, amor?”

“Eu estava trabalhando noutro dia, duas horas da manhã, tinha vindo direto da faculdade pra cá, suada, fedida, com fome, porra… um trapo. Daí, chega um moleque com umas flores. Pra mim. Fiquei tentando adivinhar quem tinha mandado as flores, mas não conseguia chegar a nenhum nome. No cartão, o nome de um desconhecido. ‘Puta merda, quem é esse cara?’ Era a única coisa em que conseguia pensar. Depois comecei um raciocínio desses que não leva a lugar nenhum, mas que mantém o cérebro funcionando: será que se o cara me conhecesse pessoalmente, profundamente, ainda acharia que eu mereço flores? Sim, porque, no final das contas, o idiota com certeza nem sabe quem sou eu, ele deve imaginar uma mulher sensual e irresistível que pode possuir usando um expediente idiota de sedução. Idiota e óbvio. Ele deve achar que toda mulher tem tendência pra botânica. Ah, sei lá. Acho chatas as atitudes óbvias.”

“Você está fugindo da narrativa, Alice… vamos lá, conte ao Pedro aqui o que ele precisa saber.”

“Daí começou a rolar uma nóia minha que tenho desde sempre: e se for um desses perseguidores, um desses caras tarados que sem quê nem pra quê começam a ter atitudes estranhas com desconhecidas?”

Engoli saliva e senti mais do que ouvi minha garganta estalando.

“E…” Cléber insistiu.

“Liguei pro Cléber, que é praticamente da família. Falei do meu medo. Ele pediu o cartão que veio com as flores.”

“E descobri você na outra extremidade das rosas, Pedro.”

Pensei que talvez fosse a hora de levantar, sair andando e esquecer o episódio todo. Cheio de vergonha como estava, foi o que comecei a fazer.

Cléber tinha outros planos.

“Por quê você não nos fala um pouco a seu respeito, Pedro. Quais são suas intenções com a Alice? Ou você manda flores aleatoriamente pra toda mulher desconhecida?”

“Ai, Deus.”- ouvi minha voz dizendo- “Então é você?!”

“Como?” – Cléber resmungou.

Eu estava falando com Alice, claro.

“É você! Não sabe como queria te conhecer. Desde que ouvi seu programa pela primeira vez tentei imaginar como você seria e, caramba, você tá certa! Todo o seu raciocínio…tudo…”

“É você mesmo o idiota das flores?”

“Mil perdões, mas sou eu, sim. Não sei no que tava pensando. Não sabia que você pensava desse jeito, que você acharia que eu só estava a fim de uma conquista barata.”

“Pedro, Pedro, Pedro… não vai nem negar?” – Cléber, mais uma vez interrompendo tudo. “Negar talvez fosse uma saída honrosa… mas acho que você é limitado demais pra perceber isso, não?”

“Cara, quem você acha que é pra falar assim comigo?”

“Primeiro, sou amigo de Alice e de sua família. Segundo, sou delegado de polícia. É suficiente pra você?”

Gelei novamente. O cara estava me investigando de verdade, então. Não eram só conversa fiada e ofensazinhas passageiras.

Em outras palavras, como sair dessa?

7.

July 8, 2006

Voltei a pensar na festa e tudo mais desapareceu. Era meio que uma questão de concentração. Desejar que o que achei ter visto era só cansaço, conseqüência de pouco sono e muito estresse.

O grande dia tinha chegado, enfim, e lá ia eu com minha melhor roupa, usando meu melhor perfume e tentando a todo custo parecer natural. Claro,era o único que achava que ser natural seria o senso-comum.

As pessoas se moviam de um jeito engraçado, numa tentativa de parecerem seguras e sensuais ao mesmo tempo. Era bizarro.

Circulei durante uns dez minutos, tentando localizar Alice pela voz, sem conseguir. Desisti e sentei numa cadeira que tinha dois pingüins se encarando no encosto, coisa esquisita… a mesa metálica de armar fazendo conjunto com a cadeira na minha frente estava cheia de frituras gordurosas e bebidas.

Adamastor só fez mesmo entrar comigo, me apresentar e deixar ‘a vontade pra, logo em seguida, desaparecer com uma gracinha de menina com quem ele trabalhava pro lado de um escritório escuro.

Estava por minha conta.

Comecei com uma cerveja, pensando em qual seria meu estado no horário de entrada para o turno do cemitério.

Já estava meio alto quando uma mulher sentou na cadeira do meu lado. Nada especial. Bem normal até: loura, cabelos presos num rabo-de-cavalo, óculos de aros redondos, o bom e velho blue jeans e uma camisa masculina gigante fechada até o último botão. Tinha uma presença tão forte que pensei que era lésbica.

“Oi.”- Eu disse, meio travado.

“Oi.” Ela respondeu, desanimada.

Mordisquei uma cutícula tentando encontrar o que falar, mas ela foi mais rápida.

“Saco! Odeio essas festinhas de merda. Todo mundo finge ser uma coisa diferente do que é mesmo, todo mundo fica simpático e de olho bem aberto pra poder comentar depois o quê o fulano e a sicrana estavam fazendo. Hipocrisia, esse é o nome da festa.”

“Ei, ei. Um pouco mais devagar. Tô lento demais pra acompanhar falas longas, então, devagar.”

“Ná! Você não precisa ouvir as merdas que quero dizer. A gente nem se conhece, né?!”

“Não, mas tudo bem, eu não ligo. Só tô esperando mesmo dar a hora de ir trabalhar. Posso ouvir.”

“Ah, é só que tô cansada dessa merda. Nada generalizado, só essas pessoinhas que querem parecer uma coisa e são outra. Sabe como é?”

“Sei, sim. Baita chatice mesmo.”

Foi aí que ele chegou, claro. Ainda não estou acostumado ‘a idéia de falar do assunto, então posso ficar meio lacônico de repente.

Cléber era o típico… como definir? Ele também parecia bem comum, bem normal. O que o fazia diferente não eram as roupas, nem o que ele falava. Era o modo como falava.

“Oi, amor? Se divertindo?”

A mulher se empertigou toda, armou-se, mesmo. Me dei conta que sequer sabia seu nome, que minha regrinha de apresentação tinha funcionado mais uma vez com uma estranha simpática… que não continuaria sendo estranha por mais muito tempo, claro.

O que foi dito e por quem foi dito… acho que me assustou, porque nunca tinha visto Cléber na vida.

“Vocês já se conhecem?” – ele perguntou.

“Não.” – respondemos quase em uníssono.

E acrescentei:

“Mas também não te conheço.”

“Ah, isso é fácil de corrigir. Meu nome é Cléber, essa mulher adorável ao seu lado se chama Alice e você, é claro, é Pedro, o guarda noturno.”

Gelei.

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