Batidas.
VOZ
Abmael M.C.
1.
A primeira coisa que qualquer pessoa deveria saber a meu respeito é que detesto me apresentar. Fico constrangido, acho chato e, mais que isso, sempre tenho a sensação de estar me intrometendo em assunto particular. Você sabe, quando alguém te apresenta a alguém é porque uma pessoa só conhece as outras duas. Significando que não são as três que se conhecem, portanto… você já entendeu. Uma delas está sobrando.
Mas como conhecer alguém incapaz de se apresentar, certo? Ou que não goste de ser apresentado? Será que não poderíamos começar conversando normalmente e, de repente perceber que não sabemos como o outro se chama e perguntar “como é seu nome?”, assim, como quem não quer nada? Algo natural?
Como é meu nome… você entendeu.
2.
Então preciso contar uma história antes. Não, não, pra ser sincero, não preciso. Me chamam Pedro. Tem quem diga que é por causa da “pedra no meio do caminho” do Drummond, outras versões falam de uma homenagem a um santo qualquer da cristandade. Não nego nenhuma das versões.
A história?
Sim, claro, a história.
Na época trabalhava no que considero hoje o pior emprego que já tive. Era guarda noturno. Foi o mais próximo de ser um agente da lei a que cheguei. Ou de ser um detetive particular. Não que os detetives sejam o oposto dos agentes da lei, mas eles transitam de lá pra cá com maior desenvoltura, certo? Como ainda não tinha o ensino médio completo não consegui coisa melhor.
A cidade brilhava na madrugada, não como Paris, mais como algo nocivo e radiativo. A fábrica parecia um inferno durante o dia e um cemitério ‘a noite. Não me incomodava. A única vista possível da guarita, para além da fábrica, era a cidade doentiamente iluminada.
Pra me distrair precisaria de uma tevê, mas a grana do salário não era suficiente e me contentei com um rádio. Era também um jeito de me fazer estudar. Anotava as palavras difíceis que ouvisse durante a programação e as procurava depois no dicionário velho e batido que emprestei de um dos escritórios.
Ficava imaginando rostos pras vozes, tentando completar as falhas do desconhecido… tudo pra me manter acordado e não pirar. Recortava mentalmente rostos que via em filmes, jornais e revistas e os encaixava em cada voz e me sentia satisfeito com isso.
Até que ela finalmente surgiu, numa noite qualquer daquele tempo ido, uma voz diferente e poderosa que desafiava minha imaginação e me fazia sonhar ao seu som melódico. Compunha cenários mentais em que ela aparecia, sempre com o rosto oculto, vestindo uma daquelas camisolas transparentes que permitem que se poupe imaginação.
Passava boa parte de meus dias dormindo, me preparando pros encontros noturnos com Alice, a desconhecida do rádio. Acordado, lia e ouvia rádio, hábitos que se tornaram vícios e me levaram a abandonar a tevê de vez.
‘As vezes conseguia tempo pra encontrar Joana, uma amiga que tinha as mesmas necessidades que eu: sexo, carinho, conversa fiada.
