Labirinto

July 5, 2006

fragmentos.

Filed under: O fio

3.

Claro que há um conflito nisso, agora que mencionei, percebo. Mas haveria um mais sério antes do fim da história. Mas preciso avançar um pouco antes de falar disso. Quer dizer, falar de verdade. Me antecipo sempre. É como chegar ao final da piada sem ter montado o cenário e dado o clima todo antes. Ela termina soando sem graça por causa da inabilidade de quem conta.

Ninguém quer que isso aconteça, certo?

Minha rotina prosseguiu do mesmo jeito por bastante tempo. Dias de sono, noites acordadas, encontros sem maior relevância com Joana, básicos pra satisfazer necessidades fisiológicas. Não, não é misoginia. Funcionava tão bem pra ela quanto pra mim essa ausência de compromisso.

Como quase tudo que me emocionava acontecia durante a programação noturna da rádio, foi uma surpresa me deparar com a promoção da semana que, por acaso, vinha na direção da minha curiosidade.

“Os primeiros cinco ouvintes que ligarem agora pra rádio vão ganhar um cd da banda ***** *******. Os ganhadores da semana passada devem comparecer no horário comercial na rua ____________ e retirar seus prêmios.”

Era tudo de que precisava: uma chance, um motivo, uma aproximação.

Peguei o telefone na hora, disquei como um lunático, como se minha vida dependesse daquilo… já projetava em minha imaginação um encontro coincidente entre eu e Alice, no mesmo horário, no mesmo lugar.

Ocupado.

Insisti.

Só na terceira tentativa obtive um resultado. Tarde. Demais. Não foi uma perda total porque consegui o endereço da rádio, o que já era um começo.

Minha carreira de perseguidor estava prestes a começar e eu não sabia.

4.

Novamente tinha atividade extra nos dias de folga: o jeito novo de me distrair que encontrei foi circular perto da emissora de rádio. Logo descobri um bar em que os funcionários freqüentavam.

Fiz amizade com Adamastor, um dos técnicos de som que trabalhavam lá. Por incrível que pareça, de verdade. Estranho pensar nisso. Tínhamos a mesma idade e interesses, apesar de ele ter freqüentado a escola, se formado e estar fazendo engenharia elétrica.

Nossas discussões giravam em torno da angústia e da sensação de inutilidade que sentíamos. Nada que não fosse superado com algumas garrafas de cerveja.

Claro que havia outra intenção com Adamastor, diretamente ligada à minha obsessão por Alice.

Enquanto não criava coragem pra perguntar coisas a respeito dela, recortava fotos de revistas e tentava montar um rosto que parecesse adequado. Gastava horas com isso, aquelas que eu costumava passar dormindo, enquanto eu mexia com cola e tesoura.

Adamastor se tornou um amigo inseparável, companheiro e confidente. Uma noite antes de ir trabalhar encontrei com ele no bar e, afinal, contei sobre minha fixação por Alice.

Ele sorriu, engoliu a cerveja choca, trincou os dentes, repuxou a cabeça pra um lado e sibilou. Seu humor era assim: resumido por um comercial idiota de cerveja. Achou engraçada minha confissão, a seguir  perguntou se eu não era algum tipo de maníaco sexual e disse que ia ver se me conseguia o endereço dela.

Daí soltou essa pérola:

“Por quê cê não manda umas flores pra rádio no horário de trabalho dela?”

Uau! Como não pensei nisso?

Percorri a cidade toda antes de encontrar uma floricultura que fizesse entregas às duas da manhã e tive que pagar um extra pro garoto levar as rosas, mas valeu ‘a pena.

Ela agradeceu no ar.

Foi incrível, orgásmico, ouvir aquela voz dizendo meu nome. Meio que gozei.

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