Labirinto

July 6, 2006

mais VOZ.

Filed under: O fio

5.

Foi mais ou menos nesse ponto que Cléber apareceu pela primeira vez na história. Claro, como tudo mais em relação a ele, eu ainda não sabia.

Na minha alegria louca de garoto que tem um gesto de carinho correspondido, fiquei com a língua mais solta do que devia com Joana.

Durante um tempo continuamos na mesma modorra de pura relação carnal sem maiores conseqüências, tudo funcionando como devia, então, sem conseguir me conter mais fiz o que qualquer pessoa ingênua faria: fui honesto.

Grande erro.

“Sabe, tem um troço que quero te contar mas não sei como. No serviço, à noite…”

“Peraí! Você não vai contar nenhuma aventura sexual pra mim, vai?”

“Não, nada disso. É só que… bom, costumo ouvir esse programa de rádio…”

“Mas você vive ouvindo rádio!”

“É, eu sei, mas me deixa contar, tá?”

“Tá, tá.”

“Então: a estação toca basicamente música que fez sucesso nos anos setenta, oitenta, a maioria bem brega, tipo ‘Dancing Queen’, mas de vez em quando um apresentador diz alguma coisa, do tipo como vai ser a programação, ou elogios idiotas à própria rádio, coisa auto-masturbatória.”

“Tá. Não enrola.”

“Daí que, uma noite dessas, a  apresentadora nova começou a trabalhar e fiquei fissurado pela voz dela. Agora, se prepara que isso vai parecer idiota: me apaixonei pela mulher. É como ouvir a voz de um anjo, é a mulher que sempre quis ter comigo quando…”

“Como é?”

“É, acho que me apaixonei por ela e agora só faço pensar em como ela é.”

“Isso é ridículo! Não, pior, é patético. E eu, porra?”

“Você o quê?”

“Eu sou uma mulher de carne e osso e tô aqui, agora. Eu valho menos do que uma voz numa caixinha, é?”

“Ô, não é nada disso. É só que… puxa, o que você acha que quero dizer? É tão fascinante pensar nela, imaginar como seria ter a dona da voz colada ao meu ouvido, sussurrando umas barbaridades…é um tipo de fantasia, uma coisa que queria dividir com você.”

“Não, cara! Isso só pode ser um teste. O que você quer saber? Se tenho ciúme? Se é isso, já conseguiu, filho-da-puta.”

“Peraí, pô! Sem essa de teste, tá? Sem neura. Foi assim que a gente combinou desde o começo, lembra?”

“Se eu lembro? É claro, é claro. É demais esperar de um homem que ele perceba como uma mulher se envolve depois de um tempo, que ele não venha com esse discursozinho modelo, estereotipado que todos vocês usam, mais cedo ou mais tarde? ‘Nunca te prometi nada’. Seu merda! Viadinho-filho-da-puta!”

Daí ela levantou, tomou um banho, se vestiu e saiu batendo a porta tão forte que pedaços do reboco caíram no chão. Ainda tentei chamá-la, mas não adiantou. E acabou. Nunca mais a encontrei.

Ainda bem que não falei das flores.

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