Labirinto

July 7, 2006

6.

Filed under: O fio

O tempo passou mais lentamente a partir daí. Procurava pelo rosto de Alice e começava a ficar obcecado com a idéia. Outras coisas começaram a acontecer no meu turno e a fábrica passou a parecer meio bizarra. Não cheguei a ver nada, mas ouvia sons estranhos e, uma vez, tive a nítida impressão de que duas pessoas conversavam no pátio perto da guarita.

Adamastor fez valer mais uma vez a amizade que lhe dedicava umas semanas depois do episódio das flores.

“Seguinte: vai ter uma festa de confraternização na rádio semana que vem… essas coisas que fazem em fim de ano, sabe?! Bom, você vai comigo e eu te apresento como meu irmão. Se não encontrar a tal mulher lá, continuo tentando arrumar o telefone ou endereço da desgraçada.”

“Pô, Adama, é perfeito! Assim não preciso me expor tanto e descubro como ela é. Te amo, cara.- e sapequei um beijo no rosto dele que deu risada.”

“Deixa de viadagem, mêrmão!” e esfregou o rosto com as costas da mão.

Tudo parecia caminhar pra uma conclusão, algo legal que, parecia, ia acontecer.

Na véspera da festa, enquanto ouvia o programa de Alice, estava mais frenético que nunca, não sei se por ansiedade ou por causa de todo o café que tomei.

Terminado o programa, saí pra fazer a ronda a pé pelos corredores do prédio de escritórios da fábrica.

Uma das salas estava com a luz acesa. Junte isso ‘as vozes que pareciam surgir do nada e os pêlos em minha nuca levantaram rapidinho.

Só tinha um cassetete com que me virar. Pensei no pior: alguém finalmente ia fazer valer meu salário e me mandar de volta pra minha terra num caixão.

Entrei empurrando a porta com força.

Ninguém.

Voltei ao corredor e tive a impressão de ver um homem saindo o mais discretamente que podia. Fui checar os monitores das câmeras de segurança e nada. Será que o sujeito sabia onde estavam e conseguia passar por elas sem ser filmado?

O cheiro de cigarro aceso e uma colônia pós-barba cara foram os únicos vestígios que ficaram dessa visita noturna.

Não falei com ninguém do ocorrido. Não teria como provar. Na melhor das hipóteses, diriam que eu estava alucinando e, em conseqüência, perderia o emprego.

Fora de cogitação.

É claro que depois conheci o sujeito frente ‘a frente. Mas ele nunca falou com todas as letras que invadiu propriedade privada só pra me assustar.

Cléber era exatamente desse jeito.

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