Labirinto

July 8, 2006

7.

Filed under: O fio

Voltei a pensar na festa e tudo mais desapareceu. Era meio que uma questão de concentração. Desejar que o que achei ter visto era só cansaço, conseqüência de pouco sono e muito estresse.

O grande dia tinha chegado, enfim, e lá ia eu com minha melhor roupa, usando meu melhor perfume e tentando a todo custo parecer natural. Claro,era o único que achava que ser natural seria o senso-comum.

As pessoas se moviam de um jeito engraçado, numa tentativa de parecerem seguras e sensuais ao mesmo tempo. Era bizarro.

Circulei durante uns dez minutos, tentando localizar Alice pela voz, sem conseguir. Desisti e sentei numa cadeira que tinha dois pingüins se encarando no encosto, coisa esquisita… a mesa metálica de armar fazendo conjunto com a cadeira na minha frente estava cheia de frituras gordurosas e bebidas.

Adamastor só fez mesmo entrar comigo, me apresentar e deixar ‘a vontade pra, logo em seguida, desaparecer com uma gracinha de menina com quem ele trabalhava pro lado de um escritório escuro.

Estava por minha conta.

Comecei com uma cerveja, pensando em qual seria meu estado no horário de entrada para o turno do cemitério.

Já estava meio alto quando uma mulher sentou na cadeira do meu lado. Nada especial. Bem normal até: loura, cabelos presos num rabo-de-cavalo, óculos de aros redondos, o bom e velho blue jeans e uma camisa masculina gigante fechada até o último botão. Tinha uma presença tão forte que pensei que era lésbica.

“Oi.”- Eu disse, meio travado.

“Oi.” Ela respondeu, desanimada.

Mordisquei uma cutícula tentando encontrar o que falar, mas ela foi mais rápida.

“Saco! Odeio essas festinhas de merda. Todo mundo finge ser uma coisa diferente do que é mesmo, todo mundo fica simpático e de olho bem aberto pra poder comentar depois o quê o fulano e a sicrana estavam fazendo. Hipocrisia, esse é o nome da festa.”

“Ei, ei. Um pouco mais devagar. Tô lento demais pra acompanhar falas longas, então, devagar.”

“Ná! Você não precisa ouvir as merdas que quero dizer. A gente nem se conhece, né?!”

“Não, mas tudo bem, eu não ligo. Só tô esperando mesmo dar a hora de ir trabalhar. Posso ouvir.”

“Ah, é só que tô cansada dessa merda. Nada generalizado, só essas pessoinhas que querem parecer uma coisa e são outra. Sabe como é?”

“Sei, sim. Baita chatice mesmo.”

Foi aí que ele chegou, claro. Ainda não estou acostumado ‘a idéia de falar do assunto, então posso ficar meio lacônico de repente.

Cléber era o típico… como definir? Ele também parecia bem comum, bem normal. O que o fazia diferente não eram as roupas, nem o que ele falava. Era o modo como falava.

“Oi, amor? Se divertindo?”

A mulher se empertigou toda, armou-se, mesmo. Me dei conta que sequer sabia seu nome, que minha regrinha de apresentação tinha funcionado mais uma vez com uma estranha simpática… que não continuaria sendo estranha por mais muito tempo, claro.

O que foi dito e por quem foi dito… acho que me assustou, porque nunca tinha visto Cléber na vida.

“Vocês já se conhecem?” – ele perguntou.

“Não.” – respondemos quase em uníssono.

E acrescentei:

“Mas também não te conheço.”

“Ah, isso é fácil de corrigir. Meu nome é Cléber, essa mulher adorável ao seu lado se chama Alice e você, é claro, é Pedro, o guarda noturno.”

Gelei.

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