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“Cara, como é que cê sabe meu nome?”- foi tudo que consegui articular.
“Na verdade é bem simples, Pedro. Mas talvez fosse melhor deixar que Alice conte, é claro. Se importa, amor?”
“Eu estava trabalhando noutro dia, duas horas da manhã, tinha vindo direto da faculdade pra cá, suada, fedida, com fome, porra… um trapo. Daí, chega um moleque com umas flores. Pra mim. Fiquei tentando adivinhar quem tinha mandado as flores, mas não conseguia chegar a nenhum nome. No cartão, o nome de um desconhecido. ‘Puta merda, quem é esse cara?’ Era a única coisa em que conseguia pensar. Depois comecei um raciocínio desses que não leva a lugar nenhum, mas que mantém o cérebro funcionando: será que se o cara me conhecesse pessoalmente, profundamente, ainda acharia que eu mereço flores? Sim, porque, no final das contas, o idiota com certeza nem sabe quem sou eu, ele deve imaginar uma mulher sensual e irresistível que pode possuir usando um expediente idiota de sedução. Idiota e óbvio. Ele deve achar que toda mulher tem tendência pra botânica. Ah, sei lá. Acho chatas as atitudes óbvias.”
“Você está fugindo da narrativa, Alice… vamos lá, conte ao Pedro aqui o que ele precisa saber.”
“Daí começou a rolar uma nóia minha que tenho desde sempre: e se for um desses perseguidores, um desses caras tarados que sem quê nem pra quê começam a ter atitudes estranhas com desconhecidas?”
Engoli saliva e senti mais do que ouvi minha garganta estalando.
“E…” Cléber insistiu.
“Liguei pro Cléber, que é praticamente da família. Falei do meu medo. Ele pediu o cartão que veio com as flores.”
“E descobri você na outra extremidade das rosas, Pedro.”
Pensei que talvez fosse a hora de levantar, sair andando e esquecer o episódio todo. Cheio de vergonha como estava, foi o que comecei a fazer.
Cléber tinha outros planos.
“Por quê você não nos fala um pouco a seu respeito, Pedro. Quais são suas intenções com a Alice? Ou você manda flores aleatoriamente pra toda mulher desconhecida?”
“Ai, Deus.”- ouvi minha voz dizendo- “Então é você?!”
“Como?” – Cléber resmungou.
Eu estava falando com Alice, claro.
“É você! Não sabe como queria te conhecer. Desde que ouvi seu programa pela primeira vez tentei imaginar como você seria e, caramba, você tá certa! Todo o seu raciocínio…tudo…”
“É você mesmo o idiota das flores?”
“Mil perdões, mas sou eu, sim. Não sei no que tava pensando. Não sabia que você pensava desse jeito, que você acharia que eu só estava a fim de uma conquista barata.”
“Pedro, Pedro, Pedro… não vai nem negar?” – Cléber, mais uma vez interrompendo tudo. “Negar talvez fosse uma saída honrosa… mas acho que você é limitado demais pra perceber isso, não?”
“Cara, quem você acha que é pra falar assim comigo?”
“Primeiro, sou amigo de Alice e de sua família. Segundo, sou delegado de polícia. É suficiente pra você?”
Gelei novamente. O cara estava me investigando de verdade, então. Não eram só conversa fiada e ofensazinhas passageiras.
Em outras palavras, como sair dessa?
