9.
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Imaginei que se tentasse sair novamente Cléber seria capaz de alguma atitude mais drástica, como me prender ou algo do gênero. Querendo ou não, dependia de sua boa-vontade. E aprendi que não é bom depender de gente como ele desde cedo.
Arrumei meu melhor sorriso e disse:
“Olha, eu sinto muito, mesmo. Se soubesse que você ia se ofender tanto ou se preocupar…”
Mas ela parecia determinada a não abandonar o assunto. E Cléber também.
“…o cara que imaginou que flores compram a simpatia de uma mulher e, quem sabe, uma trepada…”
“Não era nada disso. Só queria ser legal, quem sabe te encontrar e conversar um pouco. Trocar idéias. Só isso.”
“No que cê tava pensando quando fez aquilo?”
“Se tivesse pensado não tinha feito.”- Cléber sugeriu.
“Mas por quê?”
“Por causa da sua voz, acho. Me apaixonei por sua voz.”- eu disse por fim.
“E você acha que pode ter isso de mim?”
“Eu já tenho, moça.”
“Acho que isso acaba por aqui, não, Pedro? Nada de interrogar funcionários da rádio sobre o endereço dela, nada de mandar flores ou ser inconveniente mais uma vez com a Alice. Você sabe quem vai estar na outra ponta da alternativa. Não vou ser tolerante se houver uma próxima vez.”
Aquilo encerrava tudo. O que eu podia dizer? Pra quem apelar? Peguei os cacos do que restava da minha dignidade e saí daquele lugar.
Alice tinha os olhos fixos em mim, mas não fez nenhum movimento que mostrasse que queria saber de verdade quais eram os meus motivos.
Estava cansado e tonto mas precisava trabalhar. Vi Adamastor num canto com a mesma morena, agora ansiosa pra limpar seus ouvidos com a língua. Acenei e movi os lábios dizendo que precisava ir.
Atravessei a rua.
24 hs.
O som mecânico do cartão de ponto sendo picotado. Cheguei em minha guarita, abri a garrafa térmica, enchi um copo de café.
Verifiquei as câmeras de vigilância.
Liguei o rádio e esperei por ela.
