Cochilei mais de uma vez. A bebida podia até não me deixar de ressaca, mas estava cobrando seu preço de um jeito ou de outro.

O programa terminou e saí pra fazer a ronda pelos corredores, agora me dava conta, intermináveis. A cerveja mudou um pouco minha percepção das coisas.

Uma das salas estava com a luz acesa. Já tinha visto algo parecido num capítulo anterior. Só que desta vez precisava das mãos pra me segurar em pé. Nada de cassetete. Pensando nisso me ocorreu que talvez Cléber tivesse feito aquela visita noturna assustadora. Não seria de estranhar. Nele tudo parecia assustador.

Imaginei que alguém tivesse esquecido a luz assim na pressa de ir embora. Era a hipótese em que eu queria acreditar, pelo menos. Não teria condição de fazer nada além de cair no chão e chorar se a fábrica estivesse sendo roubada.

Quando entrei vi que uma mulher estava sentada e debruçada sobre uma das mesas, com um cigarro aceso entre o indicador e o anular da mão esquerda. A porta rangeu quando a escancarei e a garota, levantando, me olhou assustada e disse:

“Não fui eu!”

“Quê?”

“Ah, meu Deus! Não!”

“Calma, calma. O que aconteceu? Você dormiu aqui e esqueceu de ir pra casa?”

“Não! Eu tava fazendo hora-extra e quando percebi estava sozinha aqui e o prédio fechado. Tentei ligar pra portaria, mas a secretária deixou o PABX desligado e não tinha linha nem pra ligar pra outro setor. Acendi esse cigarro e devo ter pegado no sono. Quando vi o fogo e a fumaça…”

Ela olhava desesperada para os lados.

“Que fogo? Que fumaça?”- perguntei, desviando o olhar dela, só me virando o suficiente pra ter uma noção do que tinha acontecido e não vi nada queimado ou chamuscado. Quando olhei novamente em sua direção, já não estava mais lá e as luzes se apagaram.

Não tinha sobrado nem o cheiro do cigarro nem a memória da voz dela. Engraçado na minha situação esquecer justamente a voz de alguém. Ilusão de ótica? Sei lá.