Tudo mudou a partir daí. Ouvir o programa de Alice já não tinha a mesma graça, perdeu-se um pouco do efeito que me causava imaginar como ela era. Mas tinha me habituado e continuei me entretendo como podia enquanto esperava.
Mas o quê estava esperando, certo? Depois de terem cuspido na minha cara que eu era “limitado” pra entender o que quer que fosse um tipo de raiva silenciosa me tomou.
Comecei a levar mais a sério a questão de não ter estudado e pensei que estava na hora de voltar. Com o problema de tempo sempre contando em minha cabeça, optei por fazer a eliminação de matérias, modalidade de educação que era a única possível pra mim naquele momento.
Em alguns meses estaria pronto pra prestar um vestibular, mas a coisa não funcionou como eu queria e ainda precisei esperar outro tanto até ter arranjado um emprego melhor, com horário decente que me permitisse estudar ‘a noite.
Era um jeito de me concentrar e provar pra mim mesmo que Cléber estava errado a meu respeito.
O engraçado é que, na minha cabeça, toda a obsessão por Alice já estava resolvida, o mistério, desfeito. Mas tinha posto em movimento um dispositivo com o qual ainda precisaria viver muito pra entender.
A imaginação de uma mulher.
Depois da primeira vez soube como ela me localizou. Eu ainda saía com Adamastor, ainda tomávamos cervejas sem conta, apesar de já não me lamentar tanto quanto antes. Foi ele quem contou a ela como me encontrar, em que horário era possível me ver e todo o resto.
Um dia, do nada, Alice reapareceu na minha vida. Dessa vez, eu esperava, não me daria problemas com a polícia.
