Você com certeza pode se perguntar: “Como assim? Como reapareceu? Você esteve com a mulher, o quê, meia hora?”
E, sim, estaria certo.
Mas é a verdade. Ela não estava lá e, de repente, estava. Reapareceu, entende, voltou a fazer parte da minha vida.
A princípio não entendi (sendo sincero agora: ainda não entendo) o que poderia querer de mim. A mulher achou que eu era algum tipo de tarado, pois um amigo policial pra me investigar, me enxotou de uma festa e agora…
Melhor falar do que ela queria, certo?
Acho que vale dizer que a curiosidade falou mais alto que o medo nesse caso. Ela quis, afinal, saber por quê eu tinha me interessado por ela, quem eu era, o que fazia e mais milhões de perguntas. Dessa vez, queria saber em primeira mão e não receber informações de terceiros.
Corro o risco de parecer pretensioso, mas acho que estava atraída por mim. E dessa vez, não veio disfarçada de homem como na festa. Tive até um pouco de dificuldade em reconhecê-la.
Alice foi a mulher mais complexa com que lidei e, é sério, não estava preparado pra lidar com ela.
Estava parada do lado de fora da fábrica, usando um vestidinho esvoaçante, solto do corpo, que a fazia parecer uma aparição (no bom sentido do termo)… seu cabelo louro, também solto, caía em cascata sobre os ombros e os óculos foram substituídos por lentes de contato. O batom foi o que mais me chamou atenção. Era vermelho e contrastava com o tom leitoso de sua pele.
Finalmente a Alice que eu esperava ser a dona da voz.
“Oi, Pedro.”
Foi tudo o que precisou dizer pra reconhecê-la.
“Oi, dona-encrenca.”- respondi, imaginando onde estaria Cléber.
“Paz, cara-pálida! Não vim pra brigar. Só quero trocar idéias. Conversar um pouco. Saber quem é você, estranho.”
“Entendi. Pra depois fazer pouco de mim com seus amiguinhos burgueses. Tá bom. Vai esperando.”
“É sério, Pedro: missão de paz. Juro. Quero saber mais…“
Claro, eu estava fazendo charme, mas e aí? Você não faria? Afinal, eu também tinha ego, apesar de não ter dinheiro.
“Tudo bem. Vamos conversar.”
“Pra onde?”- ela perguntou, abrindo a porta do carro.
“Um lugar em que a gente possa falar… e que não seja caro.”
