Labirinto

July 24, 2006

14.

Filed under: O fio

Se tivesse dito “sim” praquela pergunta de Alice talvez minha vida tivesse sido, por um tempo, uma versão de “Eduardo e Mônica” pra classes sociais diferentes e não idades.

Imagino que a complicação com Cléber seria ainda maior, que ele agiria de forma bem mais violenta se tivesse alguma verdade na sua suspeita.

Só posso imaginar, felizmente. Meus instintos, dessa vez, estavam certos.

Ele me abordou no bar como quem não quer nada, no melhor estilo “amigão” que seu dinheiro pode comprar. Adamastor não tinha aparecido e eu fazia minha cerveja durar o máximo que podia já sem esperar que ele viesse… em tempos mais abundantes, viraria uma depois da outra e me preocuparia com a conta só na hora de ir embora. Mais uma sorte, essa de estar duro.

“Fala, Pedro!”

“Oi, doutor.”

“Que é isso, Pedro! Você sabe meu nome! Não precisa de formalidade comigo!”

“Dr. Cléber, o senhor até pode dizer isso agora, mas a primeira coisa que lembro ouvir da sua boca foi uma ameaça. Então, se não se importar, prefiro tratar o sr. de doutor, mesmo.”

“Tudo bem, então. Se você prefere assim… mas esse seu comentário, Pedro… ele não é importante, é? Você não desobedeceu nosso acordo nem nada do tipo, certo? Porque, Pedro, eu posso ficar muito puto contigo muito rápido, entendeu?”

“Eu sei meu lugar, pode deixar. Não me meti com sua amiga do jeitinho que o senhor falou.”

“Achei que você fosse inteligente mesmo, Pedro. Tem visto o seu amigo? O informante lá que te deu o serviço sobre a Alice?”

“Tenho sim, mas só pra tomar cerveja e jogar conversa fora. Nunca mais perguntei dela. Não quero mais saber da vida de ninguém. Tenho muito com que me ocupar ficando sozinho.”

“Pedro, qualquer coisa que você precise… sabe, você é homem… se precisar se aliviar… é só falar comigo. Eu conheço umas donas que fariam o serviço barato.”

“Pode deixar, doutor. Mas ainda não tô precisando de ajuda profissional, não. Eu me viro.”

“Ok. Tá aqui minha parte pra te fazer esquecer nosso mal-entendido.” e deixou uma nota de 50 reais no balcão antes de sair.

Peguei minha bolsa com o uniforme de serviço, enxuguei o restinho de cerveja choca do copo, paguei com os trocados que ainda tinha e saí.

O balconista, um milagre de honestidade, me chamou e perguntou se eu tinha esquecido o dinheiro no balcão. Eu disse que não, que não era meu e que sabia disso porque tinha saído de casa só com o dinheiro da condução e da cerveja.

Ele embolsou sem discutir mais.

Trago essas lembranças de Cléber bem perto do peito porque foram formadoras do meu caráter depois de adulto. Se tivesse a chance algum dia de humilhar alguém, eu deixaria passar sem pestanejar.

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