Já deu pra perceber que nenhum evento estapafúrdio acontece nessa história, certo? Talvez alguém diga que é uma daquelas narrativas sobre nada… a vida é exatamente assim, não? Não faz sentido, não leva a lugar algum. Parece sim ser somente som e fúria sem nenhum significado.

Exceto que…

Coisas sem significado podem ser importantes.

Minha última noite trabalhando como vigia noturno foi mais interessante que qualquer voz saída de qualquer rádio jamais poderia ser.

A essa altura já tinha eliminado todas as matérias do ensino médio e me dedicava a estudar pra o vestibular com afinco pois não podia pagar uma faculdade particular. Tinha posto como missão provar a mim mesmo minha igualdade, embora hoje em dia isso pareça uma quimera, rejeitar a inferioridade de uma vez e levar a melhor vida possível.

Ao chegar na guarita, abri a garrafa térmica e enchi um copo de café. Senti o cheiro subir com a fumaça, um dos prazeres que mais tarde cultivei, apreciar um bom gole de café ainda fresco, ainda não viciado pelos resíduos imortais de mil cafés anteriores.

Verifiquei as câmeras de vigilância.

Depois de muito tempo de vício, optei por não ligar o rádio e esperar por Alice. Ela agora pertencia a um país que eu tinha deixado pra trás, só uma memória, pouco mais que isso, talvez.

Ainda a veria algumas vezes zapeando a tevê em busca de entretenimento nas madrugadas insones, em algum canal por assinatura, mas não houve mais contato real, o espelho da fantasia se partiu em cacos infinitos.

Num dos monitores de vigilância, uma pequena coluna de fumaça começava a se formar.

Um vulto se postou na porta de onde o fumo subia e demorei a reconhecê-la.

Era a garota do escritório outra vez, mas agora parecia estar ali mesmo. Li seus lábios mais do que ouvi sua voz, seus olhos fixos na câmera:

“Oi. Acho que comecei um incêndio sem querer.”

Tentei imaginar como seria a voz dela enquanto acionava o alarme e chamava a brigada de combate ao fogo da fábrica.

Dizer que nosso encontro foi natural não faria jus ao ocorrido. Foi mais que isso. E, outra vez, me vi apaixonado por uma fração de pessoa, um fotograma misterioso com uma imagem nunca esquecida.

FIM.