Labirinto

September 2, 2006

6.

Filed under: K.I.S.S.

é o tipo de coisa que me acontece.

a primeira mulher interessante em que ponho os olhos desde sabe-se lá quando e ela acaba de dizer que é…?

“Você disse mesmo que é freira?”

“Sim.”

“Certo. Pensei que tivesse ouvido errado. Isso é um pouco mais freqüente no meu caso do que gostaria. E não faz nenhum bem na profissão. Ouvir errado, você entende?”

“Acho que sim.”

e agora? qual o próximo passo lógico? confesso que estou cansado demais pra simplesmente dispensá-la a fim de terminar a arrumação do escritório. talvez se…

“Você me acompanha até a esquina?”

“Não, acho que não.”

“É por uma boa causa, Amélia.”

“Espero que esteja claro que não faremos sexo, Lucas.”

“Sim, ainda não. Estive pensando em outros prazeres da carne.”

abro a porta e ela passa rente a mim, mais perto do que ela escolheria se tivesse a oportunidade e eu não estivesse bloqueando o caminho. sinto o calor de seu corpo e o cheiro de sua carne. recende a amaciante de roupa, seu único perfume.

outro momento constrangedor no elevador que, de repente, parece cheio demais pro horário. e pequeno. e apertado. ficamos frente ‘a frente mais uma vez. ela cola os seios em mim e minha gravata parece penetrar a concavidade entre eles. é difícil não olhar. conter a saliva que se avoluma em minha boca também.

enfim, na rua, nos dirigimos ‘a barraquinha de cachorro-quente.

“Um com tudo em cima pra mim, Chico.”

“E pra madama, seu Lucas?”

“Uma água,por favor.” ela diz, sem pestanejar.

“Tem certeza? O cachorro do Chico é o melhor da cidade.”

“Sim. Mas estou de jejum.”

“Na sua ordem isso é um tipo de mortificação?”

“Não. Tenho uma endoscopia marcada pra daqui a uma hora.”

verdade ou mentira? freiras realmente aproveitam suas saídas do convento pra fazer mil coisas se for verdade. contratar um detetive e fazer um exame doloroso desses no mesmo dia?

“Você poderia…” digo a ela, esfregando indicador e polegar, sem querer mexer no dinheiro ainda intocado do envelope. tenho outros planos pra ele.

não se fazendo de rogada, pergunta a Chico quanto é, saca da bolsa uma caneta com um panfleto dentro de um invólucro plástico mais um par de vales-transporte, deposita tudo na mão do vendedor atônito, dá-lhe as costas (pelo menos essa visão compensa um pouco) e me acompanha ladeira abaixo.

“Você pagou o cara com vales-transporte?”

“Foi o que sobrou do que arrecadei com as irmãs e irmãos pra fazer seu pagamento.”

“No convento vocês usam muito?”

“Não, Lucas. Foi nos ônibus que nossos neófitos recolheram as doações. No convento só fazemos a triagem.”

religiões modernas. onde foram parar as ofertas e dízimos?

termino de comer e jogo o guardanapo sujo de ketchup e mostarda no lixo mais próximo. me volto pensando em perguntar mais sobre a Ordem a que amélia pertence e percebo que vai ser perda de tempo.

ela está parada esperando a próxima lotação, provável que absorta na expectativa de ter um tubo inserido contra sua vontade garganta a dentro.

“Não vai se despedir?”

“Desculpe, mas estou mesmo preocupada com o horário.”

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