6.
é o tipo de coisa que me acontece.
a primeira mulher interessante em que ponho os olhos desde sabe-se lá quando e ela acaba de dizer que é…?
“Você disse mesmo que é freira?”
“Sim.”
“Certo. Pensei que tivesse ouvido errado. Isso é um pouco mais freqüente no meu caso do que gostaria. E não faz nenhum bem na profissão. Ouvir errado, você entende?”
“Acho que sim.”
e agora? qual o próximo passo lógico? confesso que estou cansado demais pra simplesmente dispensá-la a fim de terminar a arrumação do escritório. talvez se…
“Você me acompanha até a esquina?”
“Não, acho que não.”
“É por uma boa causa, Amélia.”
“Espero que esteja claro que não faremos sexo, Lucas.”
“Sim, ainda não. Estive pensando em outros prazeres da carne.”
abro a porta e ela passa rente a mim, mais perto do que ela escolheria se tivesse a oportunidade e eu não estivesse bloqueando o caminho. sinto o calor de seu corpo e o cheiro de sua carne. recende a amaciante de roupa, seu único perfume.
outro momento constrangedor no elevador que, de repente, parece cheio demais pro horário. e pequeno. e apertado. ficamos frente ‘a frente mais uma vez. ela cola os seios em mim e minha gravata parece penetrar a concavidade entre eles. é difícil não olhar. conter a saliva que se avoluma em minha boca também.
enfim, na rua, nos dirigimos ‘a barraquinha de cachorro-quente.
“Um com tudo em cima pra mim, Chico.”
“E pra madama, seu Lucas?”
“Uma água,por favor.” ela diz, sem pestanejar.
“Tem certeza? O cachorro do Chico é o melhor da cidade.”
“Sim. Mas estou de jejum.”
“Na sua ordem isso é um tipo de mortificação?”
“Não. Tenho uma endoscopia marcada pra daqui a uma hora.”
verdade ou mentira? freiras realmente aproveitam suas saídas do convento pra fazer mil coisas se for verdade. contratar um detetive e fazer um exame doloroso desses no mesmo dia?
“Você poderia…” digo a ela, esfregando indicador e polegar, sem querer mexer no dinheiro ainda intocado do envelope. tenho outros planos pra ele.
não se fazendo de rogada, pergunta a Chico quanto é, saca da bolsa uma caneta com um panfleto dentro de um invólucro plástico mais um par de vales-transporte, deposita tudo na mão do vendedor atônito, dá-lhe as costas (pelo menos essa visão compensa um pouco) e me acompanha ladeira abaixo.
“Você pagou o cara com vales-transporte?”
“Foi o que sobrou do que arrecadei com as irmãs e irmãos pra fazer seu pagamento.”
“No convento vocês usam muito?”
“Não, Lucas. Foi nos ônibus que nossos neófitos recolheram as doações. No convento só fazemos a triagem.”
religiões modernas. onde foram parar as ofertas e dízimos?
termino de comer e jogo o guardanapo sujo de ketchup e mostarda no lixo mais próximo. me volto pensando em perguntar mais sobre a Ordem a que amélia pertence e percebo que vai ser perda de tempo.
ela está parada esperando a próxima lotação, provável que absorta na expectativa de ter um tubo inserido contra sua vontade garganta a dentro.
“Não vai se despedir?”
“Desculpe, mas estou mesmo preocupada com o horário.”
