7.
volta ao escritório e ‘a triste realidade que me aguarda lá. o último vislumbre do traseiro de amélia entrando no ônibus e a estranha analogia que me ocorre com o tubo endoscópico e o membro inchado dentro de minhas calças me distrai enquanto faço o caminho a pé.
o reflexo tabagista inerente aos detetives pós-bogart toma posse de meus reflexos novamente ao entrar no escritório. recoloco objetos nos lugares devidos e minha mente me afasta em direções desconhecidas.
relíquias.
uma marreta e um prego… ou cravo, como ela parece preferir. a pergunta que não cala é o que as torna relíquias, o que as faz sagradas pra essa ordem religiosa…
o santo graal foi usado na última ceia e colheu o sangue de cristo. a lança do destino furou-lhe o flanco e antecipou sua agonia.
mas a marreta de que amélia falou só foi usada em gente comum, ladrões, se acreditarmos na narrativa dos evangelhos.
o cravo nem neles. um cravo virgem, uma marreta sem respingos do sangue de jesus.
essa história do cravo virgem me faz lembrar de uma piada tosca da crucificação. o soldado romano responsável, na pressa, usa só três cravos pra prender cristo na cruz. prega os pés juntos, um sobre o outro, como estamos acostumados a ver nas imagens. sobra um espigão que ele segura na direção do ungido. este, olhando pro soldado com cara de sacana, rebola incomodado pendurado do madeiro e diz algo como “não vem com idéia, não!”
fim da piada.
não é engraçada. é profana. talvez quando fizer sexo com amélia conte a ela… antes, durante ou depois. pra aliviar a culpa? quem sabe?
a sala está arrumada.
sento na cadeira, vasculho a gaveta onde deveria estar o uísque, meu quartilho de jack daniels, abençoado uísque e o encontro em um de meus bolsos. carreguei a garrafa o tempo todo imitando minha idéia de que deveria descolar um coldre pra ela de modo inconsciente.
abro e encaixo o gargalo entre os lábios, sem querer perder uma gota. não bebo por estar tenso, como nos films noir. bebo porque gosto de beber. meu caminho pra cova seria mais curto se também fumasse. não fumo porque bebo. é uma lógica estranha, mas é tudo de que disponho no momento.
e pensando assim concluo que talvez o que os torne relíquias seja justamente o fato de não terem sido usados. afinal, amostras do sangue de deus podem ser colhidas no sudário, no graal e na lança. já imaginou se houvesse uma lenda disseminada de uma marreta sagrada que quebrou as pernas do cordeiro ou foi usada pra pregá-lo na cruz? seria mais uma entre muitos.
vou tentar resolver essa dúvida depois com amélia. talvez no pós-coito.
