Se…
…quiser saber mais a respeito de Lúcio, o personagem novo de MARRETA, clique aqui. Hipertexto? Bah!
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é impossível não perceber como ele não se destaca dos demais clientes do bar, um desses botecos de esquina, daqueles que servem ovos coloridos, torresmo mumificado (isso para não falar dos miúdos) e aguardente de baixa qualidade, aqueles onde discrição é a palavra de ordem e os funcionários se comportam como se fossem surdos. ele está lá, sentado numa mesa de canto onde estão duas garrafas de cerveja vazias e uma outra já pela metade, da mesma marca que está indicada na mesa e nas cadeiras de metal. cervejas que provavelmente terei de pagar.
como nunca entendi direito o nome dele e por causa de uma das garotas que andavam em sua companhia, por um tempo o chamei de "outro". a garota achava que éramos parecidos sabe deus por quê. depois comecei a usar um nome, um quase análogo de "lucas"… chamei-o "lúcio". dizer que é um tipo esquisito seria chover no molhado. como já deve ter dado pra perceber, como no silogismo de grouxo marx, qualquer um que aceite minha companhia com naturalidade é um possível suspeito.
mas lúcio não é assim: me fez sentir ‘a vontade desde o primeiro dia em que conversamos. meio monstro, meio santo, é como o dean moriarty do meu sal paradise.
o olfato denuncia que ele acendeu aquela coisa de novo. seu cigarro milagroso. dizem que foi abençoado pelo próprio cristo (mais uma relíquia?) e se refaz toda vez que é apagado. o cheiro é terrível. afinal, quanto tempo leva pro fumo mofar?
"E aí?"
"Tudo bom? Quer dar um tapa?"
"Não, valeu."
"Diz aí. Você não me ligou só pra matar saudade, né?"
"Não, não. Me diz: o que cê sabe sobre a marreta?"
"Héin? Marreta? Eu tinha uma, mas emprestei pro vizinho uma vez e…"
"Sem zoeira, Lúcio! Estou falando de uma marreta específica, sabe? Aquela de jesus e tal. Cê deve saber qual é."
"Ahhh! Você está falando DA marreta. Saquei. Mas, o que cê quer saber exatamente? Peraí! Já entendi. Roubaram, né?"
"Isso."
"E você quis me encontrar na esperança de que eu já apontasse os suspeitos e, quem sabe, até o culpado, né?"
"Bom, já que você tocou no assunto…"
"Cara, é por isso que eu não tenho dó nenhuma de te fazer pagar as minhas cervas. Falando nisso, pede pro garçom descer mais uma, vai."
e eu peço. já faz um tempo que não o vejo e ele parece um pouco mudado, talvez mais paranóico que o de costume, olhando por cima dos ombros o tempo todo, como se na espera de um ataque repentino.
a cerveja chega, o cigarro acaba e ele o deposita na cigarreira de prata que tira de um bolso insuspeito, invisível, no casaco.
"Escuta, aconteceu alguma coisa? Cê tá bem?", pergunto sem mais rodeios.
"Se eu contasse você não acreditaria. Parece coisa de gibi de terror… ajudei uma amiga a ir pra casa e agora tenho que lidar com as conseqüências. Você conhece o enredo: moça fantasma assassinada e condenada a vagar enquanto não solucionar o enigma da própria morte. Mandei o assassino numa viagem sem volta ao redor do próprio umbigo mas ele tinha as costas quentes com as pessoas erradas. Erradas pra mim, quer dizer. E não são bem pessoas."
por que fui perguntar?
"E sobre, você sabe, o item em questão?"
"Posso perguntar por aí. Talvez o Mosca ou o pessoal da "infernet". Mas vai te custar."
"Quanto?"
"Não é desse tipo de pagamento que estamos falando, Bono."
enigmático. ele é um dos poucos que usa meu apelido com propriedade e nos momentos certos. pego meu copo e provo a cerveja. não é uísque, mas preciso trabalhar mais um pouco antes de voltar pro escritório.
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