Labirinto

September 23, 2006

13.

Filed under: K.I.S.S.

vladimir tentou explicar que o lugar onde havia ocorrido meu acidente gastro-intestinal (lembro de amélia ao pensar nisso) não era seu escritório, mas outra coisa. lúcio sussurrou no ouvido dele alto o bastante pra que eu ouvisse. "Isso é sinistro demais e Lucas ingênuo demais".

eles parecem estar acertando as contas enquanto marco passo do lado de fora do verdadeiro escritório de vladimir. lúcio vem em minha direção. gesticula com as mãos pra que eu comece a andar e é o que faço. vladimir parece estar muito puto com o incidente.

pena não ter encontrado uma libertina que, bom, me libertasse dos fluídos sexuais que ameaçam subir ‘a cabeça desde que conheci minha noviça… teria sido divertido. mas pensando melhor a respeito decido que não seria uma experiência legal pra nenhum de nós (eu e minha hipotética parceira) se as revoluções estomacais acontecessem durante o intercurso. já ouvi falar de coprofagia, de quem curte a boa e velha "ducha dourada", mas não tenho certeza se há ou não alguma perversão envolvendo vômito.

tento dizer a lúcio que preciso ir ao escritório apanhar minha arma e fazer uma visita rápida a celso fontoura, mas ele já se antecipou a mim e sugere que eu vá pra um hotel qualquer passar a noite. meio a contragosto (pero-no-mucho) aceito a sugestão. lúcio parece disposto a esticar a noite por mais uma ou duas horas. são três da madrugada quando nos separamos e não posso deixar de ter a impressão de estar sendo seguido por parte do caminho.

no hotel descubro que torrei quase todo o dinheiro recebido como adiantamento pela investigação. toda aquela bateção de perna pra encontrar o modelo mais acessível de laptop de ontem foi em vão. certo que a grana daria só pra entrada e uma ou duas parcelas, mas já era um começo e, agora, me vi reduzido a voltar pra antes do começo.

retrocesso.

o quarto é um retângulo de pouco mais de dois metros de cumprimento por um e meio de largura. tem espaço o bastante pra ficar deitado na cama, levantar e sair. a economia espacial é tanta que a porta abre pra fora. o banheiro é um urinol. se quiser sentar no vaso tenho que andar corredor abaixo até a "casinha" oficial, com vaso sanitário, água corrente e outros luxos impossíveis fisicamente no dormitório cubiculoso.

só de cuecas me estico na cama. está quente o bastante pra usar até menos roupa. fecho os olhos e penso em imagens agradáveis na tentativa de induzir um sono sem agitação ou pesadelos.

vejo carneirinhos correndo pelo campo, pulando a cerca. quando o último deles salta percebo que é alvo da perseguição de uma criatura sinistra que sacudo, imediatamente, pra longe de minha atenção.

respiro fundo, tento me acalmar, mas não consigo evitar a lembrança de ter ouvido, na conversa entre lúcio e vladimir, a palavra "demônio". não me assusto fácil, ainda mais quando sei que coisas assim não existem, que não passam de mitos. a imagem que se formou voluntariamente enquanto contava carneiros, no entanto, tinha todas as características físicas atribuídas a esse tipo de criatura que usava, ainda, os óculos de casco de tartaruga de celso fontoura. cascos fendidos, chifres e todo o resto. no olhar a intenção de fazer aos pobres animais lanosos o que fez a mim em outra vida.

apaguei por doze horas inteiras e acordo sem recordar direito quem sou, onde estou, minhas senhas pessoais e todo o resto. não importa. a dor de cabeça que me lembra do abuso ao fígado indica que preciso ingerir qualquer coisa pra reestabelecer o equilíbrio de açúcar no meu sangue.

Get free blog up and running in minutes with Blogsome
Theme designed by Jay of onefinejay.com