Labirinto

September 26, 2006

14.

Filed under: K.I.S.S.

ingerir café com leite, pão e manteiga, uma ou duas frutas me ajuda a readquirir o foco perdido.

caminho até o escritório. abro a gaveta onde costumo deixar a arma e, é claro, acontece de novo. ela esteve no coldre de ombro o tempo todo. me pergunto como não percebi isso, como ignorei o peso extra em meu corpo capaz até de afetar o equilíbrio de alguém não acostumado e isso me dá a resposta. hábito. que, é evidente, me faz lembrar de amélia.

preciso voltar a vê-la o quanto antes. preciso de um método qualquer pra encontrá-la. ir novamente ao templo da ordem parece estar fora de cogitação por conta do muro que os outros noviços representam. preciso dela o quanto antes, não pra ajudar na investigação, já quase esquecida, mas pra meus fins egoístas. tenho a sensação de que comunicar o que descobri até agora pode ser a chave de seu cinto de castidade.

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desta vez acordo sem dor de cabeça, com o estômago roncando saudavelmente e disposto a achar amélia a qualquer custo. há necessidades que não podem ser ignoradas.

esfrego os olhos, me livro da remela e percebo a sombra sentada no lado oposto do escritório, me observando com atenção crescente. levo a mão ao coldre, esperando sentir a segurança que a madeira da empunhadura da arma pode trazer.

mas ela não está lá.

"Procurando por isso?"

ele sussurra, da escuridão e, mais uma vez, sinto os pêlos em minha nuca desejarem não estar lá. em sua mão grande, de unhas longas, minha arma. um feixe de luz incide no cano niquelado, produzindo o efeito que meu antagonista deseja. não o reconheço, não lembro dele. só sinto um inevitável cheiro de queimado e pressinto que ele esteve em meus sonhos no hotel.

"Então, veio terminar o que começou no FlorAmor, sr…?" consigo murmurar.

ele ouve. conta cinco segundos e responde.

"Bel. Pode me chamar de Bel."

"Como em Isabel?"

"Rá! Bem que Vladimir disse que o sr. era metido a engraçadinho. Observe: estou rolando de rir."

ele mal se move.

"Muito bem, sr. Bel. O que deseja? Além de me ofender, invadir meu escritório e roubar minha arma, quero dizer."

"Você chama isso de escritório, sr. Profit? Se pretende continuar trabalhando aqui e nesse ramo poderia recorrer a algum exorcista. Mas teria que ser dos bons. O lugar obviamente está possuído."

"Você quis dizer ‘assombrado’, não?"

"Não."

mais silêncio. ele é do tipo que acha que grandes pausas dramáticas podem assustar o interlocutor. vou te contar: comigo funciona sempre. preciso mesmo estar falando qualquer besteira pra me sentir seguro. como num filme de woody allen, em que as personagens, diferente do que acontece na vida real, falam tudo que lhes dá na telha.

"Sr.Bel, ainda não disse o que veio fazer aqui…"

"Quero saber de suas intenções, sr. Profit."

"Com relação ‘a marreta?"

"Perdão, que marreta?"

"Bom, melhor esquecer que perguntei. Que intenções?"

"O que o sr. pretendia quando passou a mão em mim?"

"Olha, eu estava de porre, totalmente bêbado. Não lembro de ter passado a mão em ninguém e, se passei, foi sem querer."

"Tenho certeza de que pelo menos essa parte do ’sem querer’ não é verdadeira. Você parecia saber perfeitamente o que fazer pra ter sido só um esbarrão."

"Mas estava praticamente inconsciente!"

"Talvez isso explique parte do ocorrido. É difícil me tocar sem que eu deseje, é difícil me pegar distraído o bastante pra isso."

ele está me perdendo rapidamente conforme a conversa fica mais e mais ininteligível.

"Vim aqui porque, apesar de minha reação inicial ter sido agressiva, confesso que gostei de ser tocado por você. Daí a pergunta: quais suas intenções?"

"Talvez… olha, sr. Bel, foi tudo um mal-entendido e me desculpo por isso. Infelizmente eu não estava no controle de minhas ações…" e prossigo com esse discurso respeitoso quanto ‘a sexualidade dele por mais um ou dois minutos mas não prestando atenção, de fato, ao que estou dizendo.

"Então o sr. não está interessado em mim?"

"Lamento, sr. Bel. Sou hetero."

"Não devia mexer com os sentimentos dos outros desse jeito, sr. Profit. Pode haver retaliações."

então ele faz algo realmente assustador: empunha a arma, apontando-a em minha direção. depois, começa a pressionar o gatilho devagar, devagar… estou quase urinando nas calças quando a porta abre de súbito e Bel desaparece, deixando a arma cair, batendo no chão e disparando, quase magicamente, em minha direção.

apago, mais uma vez.

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