24.

October 29, 2006

ontem Izzy me fez uma proposta.

mas não me lembro qual foi.

para variar, ela não está aqui. sumiu. evaporou. escafedeu-se. fico com água na boca só de pensar em sua pele leitosa e nos seus cabelos ruivos, embora ache que tenha algo errado aqui. ela não era morena? que seja.

esta noite não sonhei com macacos nem lagostas. piorou. desta vez, meu corpo estava repleto de entradas usb, onde estavam conectados vários dispositivos: pen-drives e cabos que iam à palms, laptops e outras traquitanas do mundo mobile. quem operava? amélia. e o menino com cara de pizza. e lúcio. e celso. e vânia. e Izzy. e quase me esqueço de chá. o que acontecia era (e nem me preocupo mais em não soar estranho): eles estavam tirando informações de mim. não sei de que tipo, e isso chega a ser irônico se quer saber, afinal, quem deveria estar conseguindo informações era eu, justamente a pessoa mais desinformada de todas nesta história. certo. à medida em que eu ia sendo esvaziado, me sentia fraco e confuso, bem confuso, mesmo para um sonho. todos riam e conversavam numa boa, mostrando uns aos outros o que quer que fosse que estava aparecendo em suas telinhas reluzentes. e eles olhavam, prestavam bastante atenção, trocavam alguns comentários, e voltavam a rir. e eu não podia fazer nada. não conseguia desconectar as coisas de mim. não conseguia gritar, mas tinha plena certeza de que estava sendo repartido, esfacelado em pequenos pacotinhos de 5v.

depois de um breve despertar, um sonho que me persegue. este, acho eu, por causa da expectativa familiar de que eu me formasse como advogado. até fiz um ano de direito mas desisti com a perspectiva de ter que trabalhar de verdade. meu pai, que parece mais um de meus colegas de escola envelhecido até o outro extremo do espectro, pergunta se eu passei no teste da AMORC. é como um vestibular. como o exame da ordem. no sonho, quer dizer. na realidade, apesar de saber o que é AMORC, não encontro um sentido pra presença da sigla em meu subconsciente.

quando acordo, a primeira coisa que me ocorre é dar um pulo na loja de eletrônicos. quero ver aquele novo palm. que se foda essa marreta e a bunda de amélia. e Izzy também. e lúcio, e celso e o caralho. festa estranha com gente esquisita. deveria tentar um concurso público? não. isso é coisa do sonho.

mudo de idéia no meio do caminho por causa de uma pedra.

o que preciso mesmo é recarregar as energias. fazer um troço que não faço há tempos.

ando até o porto. vejo o mar. deixo que o mar me veja. meu reflexo denuncia o desgaste das últimas horas de sexo tórrido com Izzy… pelo menos acho que foi isso. não fico tão quebrado assim desde outra vida.

tiro os sapatos.

vou andando devagar, de olho na água mas querendo outra coisa, mais sólida, algo em que enterrar os pés. sentir a textura da terra entre os dedos. quando dou por mim, estou no orquidário da cidade e não vejo as ondas, mas pessoas que são ondas. o que elas estão fazendo? quase pergunto, mas percebo que é tai chi. ando até um dos gramados, piso firme ainda observando os movimentos fluídos dos outros e começo a imitá-los. quase imediatamente sinto minha energia se renovando, como se eu fosse um personagem mitológico cuja força vem de seu contato com a origem da vida, com o solo e todos os microorganismos que ele contém.

23.

October 26, 2006

tudo por causa da bendita marreta. que nem sei pra que serve.

se fosse o moleque com cara de pizza a entrar em minha sala e vir com toda essa conversa, será que eu teria entrado nessa? teria acreditado em pelo menos uma fração da história que ele me contaria, como ocorreu com amélia?

deixa pra lá.

a questão agora é que estou, além de mal pago, fodido. preciso achar um meio de sair dessa. e encontrar uma maneira de levar amélia para cama, last but not least.

pelo menos me esqueci dos macacos. até agora, digo.

e tem o problema de saber onde estou que começa a me perturbar. onde estou? claro, se continuar desse jeito e nesse ritmo, a seguir estarei perguntando ‘quem sou eu?’ e coisas afins.

me concentro. tá, é uma piada particular. fica entre nós. por incrível que pareça, ainda estou no jardim da igreja. lembro da sugestão, da única, que amélia deu pra apaziguar minhas preocupações. rezar. mas será que consigo? religião nunca foi importante pra mim. o único deus em que consigo pensar é o hércules, mas ele tem a cara do kevin sorbo na minha imaginação. o que não é muito animador.

lembro da ‘oração do faminto’ que um engraçadinho me ensinou quando ainda era adolescente: "faça mal ou faça bem, amém." tento elaborar em cima e desisto alguns segundos depois. claro, nada mudou. ainda estou no mesmo lugar de quando comecei a pensar. amélia ainda está enfurnada dentro do templo fazendo sabe-se lá o quê. tenho que me virar sozinho. preciso retomar o fio da meada de onde o abandonei e tentar tirar algum sentido dessa coisa toda.

tomo um táxi? foda-se o táxi. vou a pé. tento lembrar o caminho até o escritório. claro que o lugar está assombrado. decido que já tive ’sobrenatural’ o bastante por um dia.

vou pro hotel.

quem sabe dou sorte e encontro um conhecido no caminho.

não, não encontro. pago por uma noite (nem se eu quisesse poderia ficar mais tempo neste pulgueiro) e subo as escadas, com receio de ter alguma experiência metafísica dentro do elevador. embora o que aconteceu comigo tenha ocorrido num espaço aberto, percebo que comecei a desenvolver uma claustrofobia rasteira, e só então me dou conta, em frente à porta do quarto, de que talvez não seja uma idéia tão boa assim me meter lá dentro.

e estou certo, como tem que ser.

ela fala de seu jeito peculiar, com uma pontada de ironia, um riso agudo oculto ou coisa que o valha:

"Pronto pra continuar de onde paramos, Profit?"

usa um vestido vermelho tóxico, sua pele rebrilha sob os 60 watts da lâmpada e sinto minha garganta se fechar enquanto, involuntariamente, sigo minhas pernas pra dentro do quarto. em menos tempo do que parece possível (uma piscadela) estou sob ela, dominado, submisso e outros sinônimos degradantes do tipo.

tento, mais uma vez, elaborar em cima da oração do faminto mas esqueço até do básico. a essa altura, tudo que posso concluir é que bem não fará.

"Assim…" ela sussurra.

a energia começa a se esvair rapidamente de mim. só consigo murmurar.

"Izzy, não, por favor."

e apago.

22.

October 22, 2006

repasso o que acabei de dizer a amélia pra meu próprio conhecimento, pra testar as sinapses velhas de guerra e ter certeza de que ainda funcionam a contento. tenho cada vez menos certeza de ter certezas. qual o formato de minha mente agora?

estava em meu escritório, fodido, até que entrou pela porta amélia, uma das mulheres mais gostosas que eu já vi na vida (a outra também entra nesta retrospectiva), querendo me contratar. numa seqüência de fatos que foi rápida demais para meu gosto, descobri que ela queria que eu encontrasse uma suposta relíquia mística com mais de dois mil anos de idade, que ela era freira e que, segundo seus padrões, não haveria a mínima possibilidade de nós nos conhecermos biblicamente. resolvi procurar ajuda especializada e acabei reencontrando meu amigo lúcio, dono de um cigarro que se recompõe sempre que apagado e que entende muito mais desses assuntos do que eu. lúcio, não o cigarro. fomos a um bar de outro conhecido, fiquei bêbado, segundo depoimentos arrumei briga (e apanhei) descobri que meu escritório é assombrado (ou possuído, dependendo de com quem falei), descobri também que uma das pistas mais prováveis é um desafeto das antigas, o homem que acabou com minha carreira (e quase levou minha vida junto). sem opções melhores, fomos atrás dele, celso, e pra minha surpresa acabei descobrindo que ele também está envolvido com essa coisa de ocultismo da qual lúcio tanto gosta. aliás, os dois ficaram à vontade demais um com o outro, pro meu gosto. não, não é ciúme. nesse interím, conheci Izzy, a outra concorrente a posto de mais gostosa que já vi na vida. Sem esperar, acabamos nos envolvendo mais… profundamente, só pra eu aparecer, sem saber como, na sede da ordem de amélia, enfiando o pau no jardim da igreja. já ouviu falar no cio da terra? agora inverta. para escapar dessa, decidi contar tudo, omitindo pequenos detalhes aqui e acolá, e ela, que ouviu meu relato com sisudez estóica, reconheceu sinais que eu não havia percebido, e me contou que Izzy, a mulher que comi no quintal de celso, é o diabo. ele mesmo (e me arrepia todo a possibilidade de que, durante nosso intercurso, com todo esse lance de manipulação da mente, eu tenha ficado do lado errado da equação, se é que vocês me entendem. farei um auto-exame de corpo de delito assim que possível).

isso pra não falar dos sonhos com macacos que cagam lagostas.

"No que você me meteu, Amélia?"

"Também não sei. Não esperava que as coisas fossem tomar essas proporções."

"Que proporções, Amélia?"

"Seu amigo. A Cápsula. O Adversário…"

"Adversário?"

"A Coisa que te violentou."

sob essa perspectiva, as coisas não melhoram nem um pouco.

"E agora?"

"Não sei. Preciso pensar. E fazer algumas preces. Agora, gostaria que você me desse licença. Necessito comunicar isso a meus Superiores."

"Hein???!!! Eu tô… tô… passando por tudo isso e você me pede pra dar licença? Não posso voltar pro meu escritório, não sei o que aconteceu com Lúcio ou Celso. Que eu faço agora?"

"Você sabe rezar?"

21.

October 19, 2006

ainda bem que vergonha não mata.

de todas as pessoas possíveis pra me encontrar como estou no momento tinha que ser, é claro, alguém que não estava presente quando tudo começou. esqueça vânia, chá, celso, lúcio. quem me pegou enroscado com a mãe terra foi amélia. de repente izzy não está em nenhum lugar em que possa ser vista. de repente, me dou conta, não estou no campo com lúcio e cia limitada. estou no jardim do templo em que amélia presta serviço e não é outra se não ela que se encontra em pé, na minha frente, mãos nas laterais do hábito marcando a cintura (que adoro mais ainda quando naquele indizível vestido justo), olhar reprovador e prestes a chamar a polícia, com o auxílio do noviço-cara-de-pizza do outro dia. não me pergunte como aconteceu. quer dizer, pergunte depois, quando eu tiver investigado o caso, falado com lúcio e descoberto mais a respeito da conversinha íntima que estava tendo com celso.

claro, ele pode mencionar minha conversa íntima com izzy. exceto que izzy pode não ter sido vista por ninguém. izzy pode ser só uma manifestação alucinatória de meu tesão reprimido por amélia.

onde está jack?

"Então?"

a palavra soa autoritária, reverbera pelo jardim e tenho a sensação de que serve pra convocar todos os presentes a fim de que testemunhem minha degradação.

"Como foi seu exame?" pergunto, tentando encontrar um terreno comum a nós dois novamente enquanto subo o zíper e abotôo a calça.

ela solta o ar pelo nariz, bufa mais um pouco e dispensa seu assistente.

"Volte pra dentro e diga que foi alarme falso de exibicionista."

"Sim, irmã."

o que vai acontecer a seguir é um mistério. minha vida, parece claro agora, está envolta por ele.

"Você ainda não disse o que está fazendo no jardim e…"

"Olha, eu queria explicar, mas também não tenho idéia de como cheguei aqui. A gente estava no campo, procurando pistas sobre a marreta… te falei que talvez tenhamos recuperado o prego?"

"O cravo?"

"Isso. Depende de o homem-mosca ou o homem-rã que meu amigo descolou já ter feito o serviço."

"Você quer me confundir e não explicar nada, certo? Talvez ache que por eu ser freira sou ingênua o bastante pra ser ludibriada com tanta facilidade…"

"Não é nada disso. Só estou tentando contar a verdade. O problema é que a verdade de uma hora pra outra deixou de parecer real."

"Que tal tentar começar do começo?"

e eu conto tudo, omitindo minhas distrações e devaneios com o corpo maravilhoso dela, tentando fazer a narração mais clara e concisa dos eventos conforme me lembro deles.

"Essa Izzy…’

"Sim?"

"Você não notou que ela parecia com alguém que tinha visto antes?"

"Claro."

"Você se deitou com o demônio, Lucas."

"E, na prática, o que isso significa? Quer dizer, muda alguma coisa entre nós?"

"Não. Continuo afirmando que não vou pra cama com você."

20.

October 14, 2006

"A Ordem Teutônica deixou de existir faz tempo, Celso."

"Mas os Senhores Desconhecidos não."

"Você fala do fiasco do Terceiro Reich?"

"Não, falo da Cápsula."

"E qual o interesse de seu clube na marreta?"

"Poder, é claro."

"Mas a marreta é no máximo uma curiosidade histórica! Ela não tocou ou foi tocada pelO Ungido, você sabe…"

"Mas ainda assim é um objeto de culto. Queremos o poder da fé nela depositada."

"E vocês, com certeza, vão querer fazer alguma besteira com isso."

"Que tipo de besteira?"

"Despertar os Adormecidos, imagino. Algum dos que descansam em R’ylieh. Não são eles que você chama de ‘Senhores’?"

"Sub-rosa, Lúcio. Sub-rosa."

"Tá, mais um segredinho que não pode deixar as paredes do ‘clube do bolinha’. E quem vai ser o azarado?"

"Você fala do médium?"

"Não, falo da puta-que-o-pariu! Claro que quero saber quem é o médium que cês vão usar pra ancorar essa coisa horrível ‘a nossa realidade!"

"Frater Hyeronimus."

"Deus!"

claro que, apesar de não gostar do tom, eu não conseguia entender picas do que falavam. senti um negócio quente e úmido entrando em minha orelha, olhei pro lado e Izzy estava lá, com sua língua enorme e rosada trabalhando no orifício.

"Não devia ser eu a fazer isso?"

"Ai, benzinho, já ouvi dizer que variar de vez em quando é bom… por que você não relaxa e aproveita?"

tentador. mas minha experiência demonstra que resistir ‘as tentações pode ser mais sábio que ceder a elas. não que eu seja conhecido por minha sabedoria, claro. meu pau parece ligado em 220 volts, e a imagem da naja volta á minha mente, que, por associação, começa a listar símbolos fálicos: cobras, flautas, armas, espadas e marretas.

Izzy percebe que cincunavegar meus lóbulos auriculares com sua língua causa tremores em minhas pernas e imprime o que eu chamaria de sofreguidão à suas preliminares. onde está chá? e amélia? onde está amélia? e a língua de Izzy? meu pescoço… está no meu pescoço, enquanto uma de suas mãos (não importa qual a essa altura do campeonato, importa?) espreme minhas bolas com tanta força que, por um momento, penso que vou cuspir as duas como se fossem um par de azeitonas estragadas. azeitonas. não sei porque, mas sinto que quero atirar em Izzy. que já quis atirar em Izzy. ela percebe o desconforto que seu aperto me causou e passa a alisar a ferramenta com mais delicadeza. será que ninguém tá percebendo isso? e que história é essa de frater e o caralho? sinto vontade de me juntar aos dois. mas a repulsa ao celso é maior. o tesão cresce. tem algo aqui que não tá me cheirando bem. não que meu olfato esteja confiável. me sinto estranho. estou estranho.

Izzy já está só com as roupas de baixo. como ela fez isso? será que é tão gostosa quanto vânia? quanto amélia? bem que vânia podia se juntar a nós. procuro por ela e não a encontro. Izzy tem os peitos mais gostosos que eu já vi. as pernas mais gostosas que eu já vi, a bunda mais gostosa que eu já vi. ela está sem roupa. eu tirei? abro meu zíper o mais rápido que posso e solto meu scud na esperança que ele acerte o kibutz dela. mas, ninguém tá vendo isso mesmo? foda-se. estou em cima dela, que dispara palavrões num ritmo bem mais rápido do que minhas débeis estocadas. tô tentando impressionar, mas acho que não tô conseguindo.

"Lucas!!! Que diabo você está fazendo?"

conheço essa voz.

de onde?

tento meter mais uma vez nas entranhas mornas de Izzy e percebo…

19.

October 12, 2006

estou nervoso. estou uma pilha. a impressão que tenho é que meu coração vai estourar se continuar batendo nesse ritmo. preciso de jack. mas a garrafa ficou no escritório que, dizem, é assombrado. espero que quem quer que seja o fantasma inútil que ‘vive’ lá esteja fazendo bom uso de meu uísque. eu faria. será que fica bem pedir uma dose pra celso? digo, depois de ter conhecido sua mulher biblicamente?

"De que tipo de informação estamos falando?"

lúcio não responde de imediato. deve ter aprendido o truque de bel. não sei por que esse nome fica rolando na minha cabeça como um mantra: bel, bel, bel. talvez a pressão esteja me deixando um tantinho mais estressado do que o recomendado pelo ministério da saúde. estresse afeta meu desempenho, pode ter certeza. o intelectual, é disso que estou falando. pensar fica difícil e tudo que consigo fazer é repeti-lo. grudou em minha cabeça e parece não querer sair.

"Do tipo que seu ‘clubinho’ compartilha."

"O que fazemos e o que falamos sub-rosa não deve ser divulgado. Não faria bem pra saúde da noosfera."

eles falam como se eu não estivesse aqui. percebo que chá está sozinho. percebo que vânia está sozinha. e que eu, miséria das misérias, estou sozinho. amélia deve estar rezando alguma novena ou se auto-flagelando em sua cela ou sendo atacada por alguma freira de pé grande. me aproximo de chá com o máximo de cuidado pra não despertar suspeitas em celso e pergunto:

"Tem uma latinha dessas sobrando?"

"Não me diga que você também gosta de chá!"

"A verdade é que a cor me faz lembrar do que gosto de verdade. Se não posso ter uísque real fico com o cenográfico mesmo."

ele tira outra lata de ‘iced tea’ da caixa de isopor que leva no banco do passageiro e passa pra mim.

"Saúde." diz.

"Amém." respondo.

lúcio e celso estão se afastando cada vez mais de onde estamos. parece que engrenaram direto na conversa hermética que comecei a ouvir e se entusiasmaram… esses tipos ocultistas são que nem nerds: quando se encontram ficam desfiando os conhecimentos de trívia esotérica pra ver quem sabe mais.

bel, bel, bel. de novo. repetição. ‘não sou homo’, eu disse. começo a ter dúvidas. então termino de tê-las e sigo adiante, observando uma amazona negra que se aproxima rapidamente de onde estou. ela puxa as rédeas do cavalo que resfolega e transpira devido ao exercício, desce da sela e se aproxima de mim com uma expressão gulosa no rosto. por mais estranho que pareça tem algo de familiar nela. sorri.

"Espero que você não tenha ficado chateado com o que aconteceu da última vez, Profit."

"Tenho certeza que não. Como ficar chateado com uma mulher como você?"

"Hm. Você definitivamente está mais receptivo agora. Talvez possamos conversar e até nos entender se continuar assim."

sei lá do que ela está falando. não lembro de tê-la visto antes. tenho certeza de que esse tipo de beleza exótica não escaparia pelo ralo de minha memória. decido arriscar e pergunto, mesmo sabendo que ela pode se ofender com isso.

"Olha, gracinha, tenho um problema sério pra lembrar de nomes e apesar de lembrar de você…"

"Isabel serve, Profit."

"Jesus! É bem engraçado, isso. Uns instantes atrás estava pensando… só uma curiosidade: qual é teu apelido? Não é…"

"Bel, claro. Você chamou, eu vim."

a essa altura vânia e chá também parecem distantes. como se eu tivesse me afastado deles inconscientemente. como se meu corpo decidisse por mim, agisse por mim, independente do que quer que se suceda em minha mente. o corpo fala, eu obedeço. e ele fala de assuntos proibidos pra menores enquanto estou junto de bel e de seu cavalo branco. mas era branco quando ela chegou?

"Seu cavalo…"

"Bonito, não? Eu que fiz."

"Quer dizer que você o criou?"

"Isso."

"Desde que era só um potrinho?"

"Desde que era só a idéia de um potrinho."

entendo cada vez menos, mas quem se importaria? ela tem um belo traseiro. dá vontade de ficar horas contemplando sua bundinha. é uma das minhas fixações. um dos meus fetiches. peguei isso com vânia, tão apertadinha.

então me lembro.

"Bel, posso te chamar de Izzy?"

"Easy? Talvez."

"Então, Izzy, adorei te ver e tudo mais, mas deveria participar da conversa daqueles dois."

"Lúcio e Celso?"

"Como cê sabe os nomes deles?"

"Velhos conhecidos. Encontrei o Lúcio há uns dias no FlorAmor, inclusive."

"Você também freqüenta? Não é só pra homens influentes?"

"Bom, não sou homem mas vou lá, sim."

como confundi-la com um homem? quem seria capaz. mas tergiverso.

"Preciso mesmo saber do que eles tão falando."

"Posso dar um jeito." ela diz e gesticula de um jeito engraçado. então, de repente, parece que estamos bem perto dos dois, ou que eles estão berrando de modo que se possa ouvir a quilômetros.

não sei se gosto do que ouço.

18.

October 7, 2006

“Vânia. Vânia Fontoura.”

as palavras soam estranhas depois que estão no ar. no ar. noir. lúcio, o safado, já se adianta e dá um beijo estalado na bochecha de vânia, que realmente não entende o que está acontecendo na porta de sua casa. acredito que o cigarro de lúcio tem algo a ver com isso. em sua cabeça de esposa de delegado, os termos “ex-amante espancado pelo marido”, “(supostas) drogas” e “três homens mau-encarados na porta de casa” estavam sendo compilados de maneira que supus bastante desagradável. ela não percebe que estou me cagando de medo. ela não percebe que lúcio não tira a)os olhos do seu generoso decote; b)nem aquele sorrisinho maquiavélico da cara. ela não percebe, sequer, que chá só bebe chá.

“Oi, Vânia. Há quanto tempo…”

“É, quanto tempo, né?”

e emenda.

“E… o que te traz aqui, depois desse tempo todo?”

(você não veio acertar as contas com o celso, não, veio?) é a pergunta que sua expressão me telegrafa.

“Bom, eu… queria falar com seu marido…”

“Olha, Lucas, se é sobre o que aconteceu antes, a gente já superou tudo e não sei se sua presença aqui vai ser boa pra todo mundo, entende?”

“Amélia, eu…”

“Do que você me chamou?”

mesmo com a cabeça ocupada com a possibilidade (não tão hipotética assim à medida que as memórias escapam cada vez mais rápido)  do marido tomar um balaço na cara, ela não deixa de demonstrar uma pontada de ciúmes por ter sido confundida com outra.

“Desculpa Vânia, tô com a cabeça nas nuvens. Mas, voltando ao assunto, posso falar com o seu marido?”

evito enunciar o nome dele, que a mim, soa cada vez mais como uma blasfêmia. referências se cruzam e acabo resgatando alguns momentos da minha infância, quando as crianças inventavam que uma palavra, invariavelmente significando algo ruim, se repetida um número de vezes que sempre variava entre os ímpares antes de dez, faria com que o demônio (capeta, para nós) surgisse em nossos quartos durante a noite e puxasse nossos pés. ninguém sabia exatamente o que implicava ter o pé puxado pelo capeta, mas não me lembro de nenhuma criança empolgada com a possibilidade de descobrir. mas lembro das inúmeras vezes em que fiquei praticamente mudo durante dias inteiros, com medo de exceder minha cota de palavrões e, em conseqüência, ser visitado pelo diabo depois que minha mãe fechasse a porta. é uma sensação parecida que me invade quando vejo o cano de uma pistola compacta e de design elegantíssimo a poucos centímetros da têmpora esquerda de lúcio.

“O que você quer aqui, seu filho-da-puta?”

frio como um sorvete. não consigo tirar os olhos da arma, uma dessas maravilhas tecnológicas feitas no leste europeu , com nome impronunciável e capaz de enganar detectores de metal fajutos, sobre a qual li alguma coisa em uma revista (ou teria sido num site?) dia desses. queria ter uma dessas. lúcio está um pouco tenso, mas não parece que seu coração está quicando dentro da sua boca, tentando encontrar uma saída entre os dentes, como o meu. vânia fica paralizada.

“Fala logo ou já sabe o que vai acontecer com seu amiguinho aqui, né?”

“Ele não tem nada a ver com isso…”

tento soar o mais frio que posso. mas, por enquanto, só suo frio.

“Tem sim, já que está aqui com você. A arma está na cabeça dele porque você eu já conheço, e sei que não passa de um borra-botas!”

“Putz, doutor, borra-botas? Quantos anos você tem?”

“Cala a boca, desgraçado!”

“Lúcio, cala a boca.”

chá aparece como um fantasma em minha visão periférica e não tenho coragem de virar o rosto nem um grau que seja mas, pelo que percebo, ele não chegou a se mover.

“Agora é sério, doutor. Se não tirar esse ferro da minha cabeça, você vai ter sérios problemas com Astaroth. Eu garanto.”

como uma naja hipnotizada, celso vai, aos poucos afastando a arma da cabeça de lúcio, que aproveita o momento para dar mais uma olhada no decote de vânia. celso, sem olhar para mim, pergunta:

“Você seria capaz, mesmo, não? Dá pra sentir o ranço de Gehennah emanando de seu corpo."

"Isso? É só meu cigarro."

entredentes, celso pergunta:

"O que vocês querem?"

lúcio se adianta.

“Só uma informação.”

17.

October 6, 2006

não saber o que vem a seguir interrompe por momentos o fluxo desse estado mental que é o passado. já disse isso? pois é. o carro começa a parar, vejo lúcio sacando sua cigarreira escrota de prata e pegando o cigarro mais fedido do universo a fim de atormentar minhas narinas. chá? ele tem, muito convenientemente, nas mãos uma lata de ‘iced tea’. descansa os pés no chão de terra do lado de fora da porta do motorista. eu? engulo em seco diversas vezes tentando me preparar pro desconhecido. meu impulso inicial é sair correndo, evitar o confronto, mas não posso me dar ao luxo. apesar da história pregressa que tenho com o delegado celso fontoura preciso encontrar respostas. se não pelo dinheiro, por amélia… e seu vestidinho apertado… e a promessa de sexo sacro.

a casa é desprovida dos atrativos que se esperaria numa construção de campo. não há cercas brancas nem paredes de tijolo exposto. só uma sisudez que combina com o perfil de celso. minhas pernas parecem entidades autônomas, agindo contra o que vai em minha cabeça. o último encontro que tive com o delegado terminou com ele limpando o chão de sua casa com minha bunda e pisando em meu rosto com seu sapato imaculadamente limpo. bom, resta o consolo de que se trata de outra casa, do tempo em que ele ainda estava na ativa. agora, depois de aposentado, retirou-se da balbúrdia da cidade, optou pela vida mais natureba provavelmente convencido pelo namorado ou algo assim.

o rosto de lúcio está escondido por uma nuvem de seu cigarro radioativo quando ele leva o dedo ‘a campainha. respiro fundo, acho que dou um gritinho, não tenho certeza, e o som se propaga pela vastidão do campo… um som primordial, como o grito de uma criatura saída de um filme bobo de terror dos anos 80.

"Já vai!"

ouço a voz, feminina demais pra ser de celso, feminina demais pra ser de qualquer homem, escapando pelas frestas da porta e me arrepio. um arrepio de reconhecimento. a memória deixa, de repente, de ser um estado mental pra se tornar uma realidade.

vânia tem no rosto a mesma expressão de quando viu as fotos de seu marido tomando no rabo ao me ver. minha mente se divide entre passado e presente. a  mulher traída que se jogou em meus braços há dez anos em busca de uma vingança fútil e a mulher surpresa que mantém a porta aberta e o queixo caído ‘a minha frente.

o sexo foi longo e louco. ela parecia tentar se satisfazer ou satisfazer sua ira com cada estocada que eu dava. pedia pra fazer assim ou assado e sua imaginação não tinha limites, assim como sua libido. em determinado momento pediu, urgente, que eu a fizesse sentir o mesmo que o marido, que a possuísse por trás e urrou incongruências e maldições.

agora parece recatada demais, mais madura, senhora de si… apesar de a boca ainda pender aberta. mas ela se recupera logo.

"Lucas?"

demoro a responder porque minha mente deriva pro momento extático em que a chave soou na fechadura e fomos pegos em flagrante delito por celso. lembro do som de seus passos, lembro do som de seu punho, lembro do som do meu sangue que primeiro tamborilou em minhas têmporas e depois sujou o assoalho.

"Não vai nos apresentar, Bono?"

o cinismo de lúcio não tem limites. ele sabe, só pode saber. o sujeito é quase telepático quando quer.

16.

October 1, 2006

celso fontoura, aquele filho-da-puta, acabou com minha vida só porque comi a mulher dele.

enquanto o táxi cruza a cidade, tento reestabelecer a sequência de acontecimentos que levou a situação até tal extremo anos atrás. celso era um delegado proeminente que havia caído nas graças da mídia por ter chefiado algumas operações que desbarataram quadrilhas envolvidas com políticos corruptos, todos exercendo seus mandatos tranquilamente hoje em dia. pra mim, eram dias melhores. com um nome no mercado e pessoas ilustres em minha clientela, não me faltava dinheiro. arriscaria até dizer que era feliz. isso mudou a partir do dia que vânia me ligou.

era o trabalho clássico. apesar da profissão do marido exigir dele jornadas de trabalho em horários pouco ortodoxos, que não revelasse informações confidenciais e que sua vida diferisse da de um ser humano normal em mais um punhado de pontos-chave, vânia acreditava piamente que celso estava tendo um caso. como todo bom profissional, preferi guardar minhas opiniões quando ouvi as queixas da esposa, mas eu também não tinha dúvidas. homens naquela posição costumam ser bem pragmáticos no que diz respeito aos meios dos quais se usam pra manter suas vidas nos trilhos, lidando com toda a sujeira com a qual costumam esbarrar, e o adultério é a profilaxia número um. quem sou eu pra condenar alguém?

com todos os detalhes acertados, iniciei a investigação. tive que tomar muito cuidado, já que a última coisa que queria era ser confundido por um dos seguranças com algum desafeto do delegado celso. e ele tinha muitos. o homem era arredio, mudava de rota quase todo dia. não mantinha uma rotina. sua vida não seguia nenhum tipo de padrão. era difícil acompanhá-lo e as poucas visitas femininas que recebia eram de jornalistas ou policiais, sempre a trabalho. levantei informações e o delegado também não parecia ser do tipo de homem que se vale da hierarquia para conseguir um jantar à luz de velas ou uma trepada no escritório. cheguei a sentir uma certa pontada de satisfação ao pensar que comunicaria à esposa queixosa que seu marido era realmente um exemplo de retidão. mas não era. e me arrependi cada um dos meus dias por ter descoberto isso.

"Chá?"

acho que estou imaginando coisas.

"Chá?"

não, lúcio está mesmo, no meio da estrada, me oferecendo chá. vai entender.

"Não, prefiro café."

"Acorda, Bono! Tô falando com o motorista."

"E o nome do cara é Chá?"

"Apelido. Mania dele desde que ganhou na loteria."

"Pérai! O taxista ganhou na loteria?"

"Dei uma forcinha, mas, sim, ele ganhou."

"E por que dirige o táxi?"

"Como já te disse, dei uma forcinha. Ele me deve."

"Por que Chá?"

"Bom, desde que ele se viu com toda aquela grana, resolveu que queria ser mais sofisticado. A idéia de sofisticação dele saiu dos filmes que conseguia ver quando tinha tempo. Como todo inglês é, pra ele, sofisticado, decidiu que tomar chá o faria estar um tanto mais próximo do que é ser inglês. E não se conteve. É viciado em chá."

"Acho que entendi."

"Chá, seu surdo, vira ‘a direita na próxima bifurcação, ok?"

"Feito, chefe."

ele faz a curva, lúcio volta ao silêncio anterior e me entrego novamente ‘a tentativa de reconstituir meu passado. parece tão remoto agora… outra vida. já ouvi dizerem que o passado é um estado da consciência. não sei direito o que significa, mas acho interessante repetir pra mim mesmo de vez em quando.

conforme o carro avança noite a dentro, me perco nas lembranças.

a primeira coisa que me vem ‘a memória é o sapato com solado limpinho de celso pressionando meu rosto contra o chão. claro que isso aconteceu depois de eu ter descoberto seu grande podre. antes, porém, veio a descoberta em si. como disse, segui-lo era difícil. mas aconteceu de eu conseguir não perdê-lo de vista e a partir disso revelar a vânia mais do que ela temia.

o lugar era desolado, parecia saído de um conto gótico em que os mortos se levantam pra executar alguma vingança pérfida, justiçar um mal-feitor ou, mais simples que isso, consertar um erro cometido em vida.

mas me distraio.

o lugar me assustou. mas o que vi quando tive acesso a uma das janelas próximas ao chão, estrategicamente colocadas pra que alguma luz solar adentrasse o porão, me assustou ainda mais.

era um bacanal. havia, ao contrário do que se possa pensar quando a palavra ‘bacanal’ é usada, só homens envolvidos num agarramento assombroso ao menos pra mim, que gosto de seguir as regras da natureza e acasalar com o sexo oposto.

tirei a câmera da bolsa que levava a tiracolo e gastei um rolo de 36 poses na orgia homo. concentrei meu foco em celso, que estava sendo penetrado por trás enquanto lambia o traseiro cabeludo de outro fulano.

não usei flash, claro, mas um amigo que trabalhava com revelação soube melhorar a qualidade das fotos com o devido incentivo financeiro.

depois, a parte difícil da tarefa: entregar o envelope pardo a vânia sem provocar um choque demasiado grande. pior é que tinha de fazê-lo pessoalmente. ainda faltava receber e não era meu costume não cobrar. se fosse de outra forma teria enfiado as fotos e o relatório num envelope e despachado pra ela por sedex.

fui pessoalmente.

Get free blog up and running in minutes with Blogsome
Theme designed by Viewfinder Design