24.
ontem Izzy me fez uma proposta.
mas não me lembro qual foi.
para variar, ela não está aqui. sumiu. evaporou. escafedeu-se. fico com água na boca só de pensar em sua pele leitosa e nos seus cabelos ruivos, embora ache que tenha algo errado aqui. ela não era morena? que seja.
esta noite não sonhei com macacos nem lagostas. piorou. desta vez, meu corpo estava repleto de entradas usb, onde estavam conectados vários dispositivos: pen-drives e cabos que iam à palms, laptops e outras traquitanas do mundo mobile. quem operava? amélia. e o menino com cara de pizza. e lúcio. e celso. e vânia. e Izzy. e quase me esqueço de chá. o que acontecia era (e nem me preocupo mais em não soar estranho): eles estavam tirando informações de mim. não sei de que tipo, e isso chega a ser irônico se quer saber, afinal, quem deveria estar conseguindo informações era eu, justamente a pessoa mais desinformada de todas nesta história. certo. à medida em que eu ia sendo esvaziado, me sentia fraco e confuso, bem confuso, mesmo para um sonho. todos riam e conversavam numa boa, mostrando uns aos outros o que quer que fosse que estava aparecendo em suas telinhas reluzentes. e eles olhavam, prestavam bastante atenção, trocavam alguns comentários, e voltavam a rir. e eu não podia fazer nada. não conseguia desconectar as coisas de mim. não conseguia gritar, mas tinha plena certeza de que estava sendo repartido, esfacelado em pequenos pacotinhos de 5v.
depois de um breve despertar, um sonho que me persegue. este, acho eu, por causa da expectativa familiar de que eu me formasse como advogado. até fiz um ano de direito mas desisti com a perspectiva de ter que trabalhar de verdade. meu pai, que parece mais um de meus colegas de escola envelhecido até o outro extremo do espectro, pergunta se eu passei no teste da AMORC. é como um vestibular. como o exame da ordem. no sonho, quer dizer. na realidade, apesar de saber o que é AMORC, não encontro um sentido pra presença da sigla em meu subconsciente.
quando acordo, a primeira coisa que me ocorre é dar um pulo na loja de eletrônicos. quero ver aquele novo palm. que se foda essa marreta e a bunda de amélia. e Izzy também. e lúcio, e celso e o caralho. festa estranha com gente esquisita. deveria tentar um concurso público? não. isso é coisa do sonho.
mudo de idéia no meio do caminho por causa de uma pedra.
o que preciso mesmo é recarregar as energias. fazer um troço que não faço há tempos.
ando até o porto. vejo o mar. deixo que o mar me veja. meu reflexo denuncia o desgaste das últimas horas de sexo tórrido com Izzy… pelo menos acho que foi isso. não fico tão quebrado assim desde outra vida.
tiro os sapatos.
vou andando devagar, de olho na água mas querendo outra coisa, mais sólida, algo em que enterrar os pés. sentir a textura da terra entre os dedos. quando dou por mim, estou no orquidário da cidade e não vejo as ondas, mas pessoas que são ondas. o que elas estão fazendo? quase pergunto, mas percebo que é tai chi. ando até um dos gramados, piso firme ainda observando os movimentos fluídos dos outros e começo a imitá-los. quase imediatamente sinto minha energia se renovando, como se eu fosse um personagem mitológico cuja força vem de seu contato com a origem da vida, com o solo e todos os microorganismos que ele contém.
