16.
celso fontoura, aquele filho-da-puta, acabou com minha vida só porque comi a mulher dele.
enquanto o táxi cruza a cidade, tento reestabelecer a sequência de acontecimentos que levou a situação até tal extremo anos atrás. celso era um delegado proeminente que havia caído nas graças da mídia por ter chefiado algumas operações que desbarataram quadrilhas envolvidas com políticos corruptos, todos exercendo seus mandatos tranquilamente hoje em dia. pra mim, eram dias melhores. com um nome no mercado e pessoas ilustres em minha clientela, não me faltava dinheiro. arriscaria até dizer que era feliz. isso mudou a partir do dia que vânia me ligou.
era o trabalho clássico. apesar da profissão do marido exigir dele jornadas de trabalho em horários pouco ortodoxos, que não revelasse informações confidenciais e que sua vida diferisse da de um ser humano normal em mais um punhado de pontos-chave, vânia acreditava piamente que celso estava tendo um caso. como todo bom profissional, preferi guardar minhas opiniões quando ouvi as queixas da esposa, mas eu também não tinha dúvidas. homens naquela posição costumam ser bem pragmáticos no que diz respeito aos meios dos quais se usam pra manter suas vidas nos trilhos, lidando com toda a sujeira com a qual costumam esbarrar, e o adultério é a profilaxia número um. quem sou eu pra condenar alguém?
com todos os detalhes acertados, iniciei a investigação. tive que tomar muito cuidado, já que a última coisa que queria era ser confundido por um dos seguranças com algum desafeto do delegado celso. e ele tinha muitos. o homem era arredio, mudava de rota quase todo dia. não mantinha uma rotina. sua vida não seguia nenhum tipo de padrão. era difícil acompanhá-lo e as poucas visitas femininas que recebia eram de jornalistas ou policiais, sempre a trabalho. levantei informações e o delegado também não parecia ser do tipo de homem que se vale da hierarquia para conseguir um jantar à luz de velas ou uma trepada no escritório. cheguei a sentir uma certa pontada de satisfação ao pensar que comunicaria à esposa queixosa que seu marido era realmente um exemplo de retidão. mas não era. e me arrependi cada um dos meus dias por ter descoberto isso.
"Chá?"
acho que estou imaginando coisas.
"Chá?"
não, lúcio está mesmo, no meio da estrada, me oferecendo chá. vai entender.
"Não, prefiro café."
"Acorda, Bono! Tô falando com o motorista."
"E o nome do cara é Chá?"
"Apelido. Mania dele desde que ganhou na loteria."
"Pérai! O taxista ganhou na loteria?"
"Dei uma forcinha, mas, sim, ele ganhou."
"E por que dirige o táxi?"
"Como já te disse, dei uma forcinha. Ele me deve."
"Por que Chá?"
"Bom, desde que ele se viu com toda aquela grana, resolveu que queria ser mais sofisticado. A idéia de sofisticação dele saiu dos filmes que conseguia ver quando tinha tempo. Como todo inglês é, pra ele, sofisticado, decidiu que tomar chá o faria estar um tanto mais próximo do que é ser inglês. E não se conteve. É viciado em chá."
"Acho que entendi."
"Chá, seu surdo, vira ‘a direita na próxima bifurcação, ok?"
"Feito, chefe."
ele faz a curva, lúcio volta ao silêncio anterior e me entrego novamente ‘a tentativa de reconstituir meu passado. parece tão remoto agora… outra vida. já ouvi dizerem que o passado é um estado da consciência. não sei direito o que significa, mas acho interessante repetir pra mim mesmo de vez em quando.
conforme o carro avança noite a dentro, me perco nas lembranças.
a primeira coisa que me vem ‘a memória é o sapato com solado limpinho de celso pressionando meu rosto contra o chão. claro que isso aconteceu depois de eu ter descoberto seu grande podre. antes, porém, veio a descoberta em si. como disse, segui-lo era difícil. mas aconteceu de eu conseguir não perdê-lo de vista e a partir disso revelar a vânia mais do que ela temia.
o lugar era desolado, parecia saído de um conto gótico em que os mortos se levantam pra executar alguma vingança pérfida, justiçar um mal-feitor ou, mais simples que isso, consertar um erro cometido em vida.
mas me distraio.
o lugar me assustou. mas o que vi quando tive acesso a uma das janelas próximas ao chão, estrategicamente colocadas pra que alguma luz solar adentrasse o porão, me assustou ainda mais.
era um bacanal. havia, ao contrário do que se possa pensar quando a palavra ‘bacanal’ é usada, só homens envolvidos num agarramento assombroso ao menos pra mim, que gosto de seguir as regras da natureza e acasalar com o sexo oposto.
tirei a câmera da bolsa que levava a tiracolo e gastei um rolo de 36 poses na orgia homo. concentrei meu foco em celso, que estava sendo penetrado por trás enquanto lambia o traseiro cabeludo de outro fulano.
não usei flash, claro, mas um amigo que trabalhava com revelação soube melhorar a qualidade das fotos com o devido incentivo financeiro.
depois, a parte difícil da tarefa: entregar o envelope pardo a vânia sem provocar um choque demasiado grande. pior é que tinha de fazê-lo pessoalmente. ainda faltava receber e não era meu costume não cobrar. se fosse de outra forma teria enfiado as fotos e o relatório num envelope e despachado pra ela por sedex.
fui pessoalmente.
