Labirinto

October 6, 2006

17.

Filed under: K.I.S.S.

não saber o que vem a seguir interrompe por momentos o fluxo desse estado mental que é o passado. já disse isso? pois é. o carro começa a parar, vejo lúcio sacando sua cigarreira escrota de prata e pegando o cigarro mais fedido do universo a fim de atormentar minhas narinas. chá? ele tem, muito convenientemente, nas mãos uma lata de ‘iced tea’. descansa os pés no chão de terra do lado de fora da porta do motorista. eu? engulo em seco diversas vezes tentando me preparar pro desconhecido. meu impulso inicial é sair correndo, evitar o confronto, mas não posso me dar ao luxo. apesar da história pregressa que tenho com o delegado celso fontoura preciso encontrar respostas. se não pelo dinheiro, por amélia… e seu vestidinho apertado… e a promessa de sexo sacro.

a casa é desprovida dos atrativos que se esperaria numa construção de campo. não há cercas brancas nem paredes de tijolo exposto. só uma sisudez que combina com o perfil de celso. minhas pernas parecem entidades autônomas, agindo contra o que vai em minha cabeça. o último encontro que tive com o delegado terminou com ele limpando o chão de sua casa com minha bunda e pisando em meu rosto com seu sapato imaculadamente limpo. bom, resta o consolo de que se trata de outra casa, do tempo em que ele ainda estava na ativa. agora, depois de aposentado, retirou-se da balbúrdia da cidade, optou pela vida mais natureba provavelmente convencido pelo namorado ou algo assim.

o rosto de lúcio está escondido por uma nuvem de seu cigarro radioativo quando ele leva o dedo ‘a campainha. respiro fundo, acho que dou um gritinho, não tenho certeza, e o som se propaga pela vastidão do campo… um som primordial, como o grito de uma criatura saída de um filme bobo de terror dos anos 80.

"Já vai!"

ouço a voz, feminina demais pra ser de celso, feminina demais pra ser de qualquer homem, escapando pelas frestas da porta e me arrepio. um arrepio de reconhecimento. a memória deixa, de repente, de ser um estado mental pra se tornar uma realidade.

vânia tem no rosto a mesma expressão de quando viu as fotos de seu marido tomando no rabo ao me ver. minha mente se divide entre passado e presente. a  mulher traída que se jogou em meus braços há dez anos em busca de uma vingança fútil e a mulher surpresa que mantém a porta aberta e o queixo caído ‘a minha frente.

o sexo foi longo e louco. ela parecia tentar se satisfazer ou satisfazer sua ira com cada estocada que eu dava. pedia pra fazer assim ou assado e sua imaginação não tinha limites, assim como sua libido. em determinado momento pediu, urgente, que eu a fizesse sentir o mesmo que o marido, que a possuísse por trás e urrou incongruências e maldições.

agora parece recatada demais, mais madura, senhora de si… apesar de a boca ainda pender aberta. mas ela se recupera logo.

"Lucas?"

demoro a responder porque minha mente deriva pro momento extático em que a chave soou na fechadura e fomos pegos em flagrante delito por celso. lembro do som de seus passos, lembro do som de seu punho, lembro do som do meu sangue que primeiro tamborilou em minhas têmporas e depois sujou o assoalho.

"Não vai nos apresentar, Bono?"

o cinismo de lúcio não tem limites. ele sabe, só pode saber. o sujeito é quase telepático quando quer.

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