18.
“Vânia. Vânia Fontoura.”
as palavras soam estranhas depois que estão no ar. no ar. noir. lúcio, o safado, já se adianta e dá um beijo estalado na bochecha de vânia, que realmente não entende o que está acontecendo na porta de sua casa. acredito que o cigarro de lúcio tem algo a ver com isso. em sua cabeça de esposa de delegado, os termos “ex-amante espancado pelo marido”, “(supostas) drogas” e “três homens mau-encarados na porta de casa” estavam sendo compilados de maneira que supus bastante desagradável. ela não percebe que estou me cagando de medo. ela não percebe que lúcio não tira a)os olhos do seu generoso decote; b)nem aquele sorrisinho maquiavélico da cara. ela não percebe, sequer, que chá só bebe chá.
“Oi, Vânia. Há quanto tempo…”
“É, quanto tempo, né?”
e emenda.
“E… o que te traz aqui, depois desse tempo todo?”
(você não veio acertar as contas com o celso, não, veio?) é a pergunta que sua expressão me telegrafa.
“Bom, eu… queria falar com seu marido…”
“Olha, Lucas, se é sobre o que aconteceu antes, a gente já superou tudo e não sei se sua presença aqui vai ser boa pra todo mundo, entende?”
“Amélia, eu…”
“Do que você me chamou?”
mesmo com a cabeça ocupada com a possibilidade (não tão hipotética assim à medida que as memórias escapam cada vez mais rápido) do marido tomar um balaço na cara, ela não deixa de demonstrar uma pontada de ciúmes por ter sido confundida com outra.
“Desculpa Vânia, tô com a cabeça nas nuvens. Mas, voltando ao assunto, posso falar com o seu marido?”
evito enunciar o nome dele, que a mim, soa cada vez mais como uma blasfêmia. referências se cruzam e acabo resgatando alguns momentos da minha infância, quando as crianças inventavam que uma palavra, invariavelmente significando algo ruim, se repetida um número de vezes que sempre variava entre os ímpares antes de dez, faria com que o demônio (capeta, para nós) surgisse em nossos quartos durante a noite e puxasse nossos pés. ninguém sabia exatamente o que implicava ter o pé puxado pelo capeta, mas não me lembro de nenhuma criança empolgada com a possibilidade de descobrir. mas lembro das inúmeras vezes em que fiquei praticamente mudo durante dias inteiros, com medo de exceder minha cota de palavrões e, em conseqüência, ser visitado pelo diabo depois que minha mãe fechasse a porta. é uma sensação parecida que me invade quando vejo o cano de uma pistola compacta e de design elegantíssimo a poucos centímetros da têmpora esquerda de lúcio.
“O que você quer aqui, seu filho-da-puta?”
frio como um sorvete. não consigo tirar os olhos da arma, uma dessas maravilhas tecnológicas feitas no leste europeu , com nome impronunciável e capaz de enganar detectores de metal fajutos, sobre a qual li alguma coisa em uma revista (ou teria sido num site?) dia desses. queria ter uma dessas. lúcio está um pouco tenso, mas não parece que seu coração está quicando dentro da sua boca, tentando encontrar uma saída entre os dentes, como o meu. vânia fica paralizada.
“Fala logo ou já sabe o que vai acontecer com seu amiguinho aqui, né?”
“Ele não tem nada a ver com isso…”
tento soar o mais frio que posso. mas, por enquanto, só suo frio.
“Tem sim, já que está aqui com você. A arma está na cabeça dele porque você eu já conheço, e sei que não passa de um borra-botas!”
“Putz, doutor, borra-botas? Quantos anos você tem?”
“Cala a boca, desgraçado!”
“Lúcio, cala a boca.”
chá aparece como um fantasma em minha visão periférica e não tenho coragem de virar o rosto nem um grau que seja mas, pelo que percebo, ele não chegou a se mover.
“Agora é sério, doutor. Se não tirar esse ferro da minha cabeça, você vai ter sérios problemas com Astaroth. Eu garanto.”
como uma naja hipnotizada, celso vai, aos poucos afastando a arma da cabeça de lúcio, que aproveita o momento para dar mais uma olhada no decote de vânia. celso, sem olhar para mim, pergunta:
“Você seria capaz, mesmo, não? Dá pra sentir o ranço de Gehennah emanando de seu corpo."
"Isso? É só meu cigarro."
entredentes, celso pergunta:
"O que vocês querem?"
lúcio se adianta.
“Só uma informação.”
