Labirinto

October 12, 2006

19.

Filed under: K.I.S.S.

estou nervoso. estou uma pilha. a impressão que tenho é que meu coração vai estourar se continuar batendo nesse ritmo. preciso de jack. mas a garrafa ficou no escritório que, dizem, é assombrado. espero que quem quer que seja o fantasma inútil que ‘vive’ lá esteja fazendo bom uso de meu uísque. eu faria. será que fica bem pedir uma dose pra celso? digo, depois de ter conhecido sua mulher biblicamente?

"De que tipo de informação estamos falando?"

lúcio não responde de imediato. deve ter aprendido o truque de bel. não sei por que esse nome fica rolando na minha cabeça como um mantra: bel, bel, bel. talvez a pressão esteja me deixando um tantinho mais estressado do que o recomendado pelo ministério da saúde. estresse afeta meu desempenho, pode ter certeza. o intelectual, é disso que estou falando. pensar fica difícil e tudo que consigo fazer é repeti-lo. grudou em minha cabeça e parece não querer sair.

"Do tipo que seu ‘clubinho’ compartilha."

"O que fazemos e o que falamos sub-rosa não deve ser divulgado. Não faria bem pra saúde da noosfera."

eles falam como se eu não estivesse aqui. percebo que chá está sozinho. percebo que vânia está sozinha. e que eu, miséria das misérias, estou sozinho. amélia deve estar rezando alguma novena ou se auto-flagelando em sua cela ou sendo atacada por alguma freira de pé grande. me aproximo de chá com o máximo de cuidado pra não despertar suspeitas em celso e pergunto:

"Tem uma latinha dessas sobrando?"

"Não me diga que você também gosta de chá!"

"A verdade é que a cor me faz lembrar do que gosto de verdade. Se não posso ter uísque real fico com o cenográfico mesmo."

ele tira outra lata de ‘iced tea’ da caixa de isopor que leva no banco do passageiro e passa pra mim.

"Saúde." diz.

"Amém." respondo.

lúcio e celso estão se afastando cada vez mais de onde estamos. parece que engrenaram direto na conversa hermética que comecei a ouvir e se entusiasmaram… esses tipos ocultistas são que nem nerds: quando se encontram ficam desfiando os conhecimentos de trívia esotérica pra ver quem sabe mais.

bel, bel, bel. de novo. repetição. ‘não sou homo’, eu disse. começo a ter dúvidas. então termino de tê-las e sigo adiante, observando uma amazona negra que se aproxima rapidamente de onde estou. ela puxa as rédeas do cavalo que resfolega e transpira devido ao exercício, desce da sela e se aproxima de mim com uma expressão gulosa no rosto. por mais estranho que pareça tem algo de familiar nela. sorri.

"Espero que você não tenha ficado chateado com o que aconteceu da última vez, Profit."

"Tenho certeza que não. Como ficar chateado com uma mulher como você?"

"Hm. Você definitivamente está mais receptivo agora. Talvez possamos conversar e até nos entender se continuar assim."

sei lá do que ela está falando. não lembro de tê-la visto antes. tenho certeza de que esse tipo de beleza exótica não escaparia pelo ralo de minha memória. decido arriscar e pergunto, mesmo sabendo que ela pode se ofender com isso.

"Olha, gracinha, tenho um problema sério pra lembrar de nomes e apesar de lembrar de você…"

"Isabel serve, Profit."

"Jesus! É bem engraçado, isso. Uns instantes atrás estava pensando… só uma curiosidade: qual é teu apelido? Não é…"

"Bel, claro. Você chamou, eu vim."

a essa altura vânia e chá também parecem distantes. como se eu tivesse me afastado deles inconscientemente. como se meu corpo decidisse por mim, agisse por mim, independente do que quer que se suceda em minha mente. o corpo fala, eu obedeço. e ele fala de assuntos proibidos pra menores enquanto estou junto de bel e de seu cavalo branco. mas era branco quando ela chegou?

"Seu cavalo…"

"Bonito, não? Eu que fiz."

"Quer dizer que você o criou?"

"Isso."

"Desde que era só um potrinho?"

"Desde que era só a idéia de um potrinho."

entendo cada vez menos, mas quem se importaria? ela tem um belo traseiro. dá vontade de ficar horas contemplando sua bundinha. é uma das minhas fixações. um dos meus fetiches. peguei isso com vânia, tão apertadinha.

então me lembro.

"Bel, posso te chamar de Izzy?"

"Easy? Talvez."

"Então, Izzy, adorei te ver e tudo mais, mas deveria participar da conversa daqueles dois."

"Lúcio e Celso?"

"Como cê sabe os nomes deles?"

"Velhos conhecidos. Encontrei o Lúcio há uns dias no FlorAmor, inclusive."

"Você também freqüenta? Não é só pra homens influentes?"

"Bom, não sou homem mas vou lá, sim."

como confundi-la com um homem? quem seria capaz. mas tergiverso.

"Preciso mesmo saber do que eles tão falando."

"Posso dar um jeito." ela diz e gesticula de um jeito engraçado. então, de repente, parece que estamos bem perto dos dois, ou que eles estão berrando de modo que se possa ouvir a quilômetros.

não sei se gosto do que ouço.

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