22.
repasso o que acabei de dizer a amélia pra meu próprio conhecimento, pra testar as sinapses velhas de guerra e ter certeza de que ainda funcionam a contento. tenho cada vez menos certeza de ter certezas. qual o formato de minha mente agora?
estava em meu escritório, fodido, até que entrou pela porta amélia, uma das mulheres mais gostosas que eu já vi na vida (a outra também entra nesta retrospectiva), querendo me contratar. numa seqüência de fatos que foi rápida demais para meu gosto, descobri que ela queria que eu encontrasse uma suposta relíquia mística com mais de dois mil anos de idade, que ela era freira e que, segundo seus padrões, não haveria a mínima possibilidade de nós nos conhecermos biblicamente. resolvi procurar ajuda especializada e acabei reencontrando meu amigo lúcio, dono de um cigarro que se recompõe sempre que apagado e que entende muito mais desses assuntos do que eu. lúcio, não o cigarro. fomos a um bar de outro conhecido, fiquei bêbado, segundo depoimentos arrumei briga (e apanhei) descobri que meu escritório é assombrado (ou possuído, dependendo de com quem falei), descobri também que uma das pistas mais prováveis é um desafeto das antigas, o homem que acabou com minha carreira (e quase levou minha vida junto). sem opções melhores, fomos atrás dele, celso, e pra minha surpresa acabei descobrindo que ele também está envolvido com essa coisa de ocultismo da qual lúcio tanto gosta. aliás, os dois ficaram à vontade demais um com o outro, pro meu gosto. não, não é ciúme. nesse interím, conheci Izzy, a outra concorrente a posto de mais gostosa que já vi na vida. Sem esperar, acabamos nos envolvendo mais… profundamente, só pra eu aparecer, sem saber como, na sede da ordem de amélia, enfiando o pau no jardim da igreja. já ouviu falar no cio da terra? agora inverta. para escapar dessa, decidi contar tudo, omitindo pequenos detalhes aqui e acolá, e ela, que ouviu meu relato com sisudez estóica, reconheceu sinais que eu não havia percebido, e me contou que Izzy, a mulher que comi no quintal de celso, é o diabo. ele mesmo (e me arrepia todo a possibilidade de que, durante nosso intercurso, com todo esse lance de manipulação da mente, eu tenha ficado do lado errado da equação, se é que vocês me entendem. farei um auto-exame de corpo de delito assim que possível).
isso pra não falar dos sonhos com macacos que cagam lagostas.
"No que você me meteu, Amélia?"
"Também não sei. Não esperava que as coisas fossem tomar essas proporções."
"Que proporções, Amélia?"
"Seu amigo. A Cápsula. O Adversário…"
"Adversário?"
"A Coisa que te violentou."
sob essa perspectiva, as coisas não melhoram nem um pouco.
"E agora?"
"Não sei. Preciso pensar. E fazer algumas preces. Agora, gostaria que você me desse licença. Necessito comunicar isso a meus Superiores."
"Hein???!!! Eu tô… tô… passando por tudo isso e você me pede pra dar licença? Não posso voltar pro meu escritório, não sei o que aconteceu com Lúcio ou Celso. Que eu faço agora?"
"Você sabe rezar?"
