Labirinto

October 26, 2006

23.

Filed under: K.I.S.S.

tudo por causa da bendita marreta. que nem sei pra que serve.

se fosse o moleque com cara de pizza a entrar em minha sala e vir com toda essa conversa, será que eu teria entrado nessa? teria acreditado em pelo menos uma fração da história que ele me contaria, como ocorreu com amélia?

deixa pra lá.

a questão agora é que estou, além de mal pago, fodido. preciso achar um meio de sair dessa. e encontrar uma maneira de levar amélia para cama, last but not least.

pelo menos me esqueci dos macacos. até agora, digo.

e tem o problema de saber onde estou que começa a me perturbar. onde estou? claro, se continuar desse jeito e nesse ritmo, a seguir estarei perguntando ‘quem sou eu?’ e coisas afins.

me concentro. tá, é uma piada particular. fica entre nós. por incrível que pareça, ainda estou no jardim da igreja. lembro da sugestão, da única, que amélia deu pra apaziguar minhas preocupações. rezar. mas será que consigo? religião nunca foi importante pra mim. o único deus em que consigo pensar é o hércules, mas ele tem a cara do kevin sorbo na minha imaginação. o que não é muito animador.

lembro da ‘oração do faminto’ que um engraçadinho me ensinou quando ainda era adolescente: "faça mal ou faça bem, amém." tento elaborar em cima e desisto alguns segundos depois. claro, nada mudou. ainda estou no mesmo lugar de quando comecei a pensar. amélia ainda está enfurnada dentro do templo fazendo sabe-se lá o quê. tenho que me virar sozinho. preciso retomar o fio da meada de onde o abandonei e tentar tirar algum sentido dessa coisa toda.

tomo um táxi? foda-se o táxi. vou a pé. tento lembrar o caminho até o escritório. claro que o lugar está assombrado. decido que já tive ’sobrenatural’ o bastante por um dia.

vou pro hotel.

quem sabe dou sorte e encontro um conhecido no caminho.

não, não encontro. pago por uma noite (nem se eu quisesse poderia ficar mais tempo neste pulgueiro) e subo as escadas, com receio de ter alguma experiência metafísica dentro do elevador. embora o que aconteceu comigo tenha ocorrido num espaço aberto, percebo que comecei a desenvolver uma claustrofobia rasteira, e só então me dou conta, em frente à porta do quarto, de que talvez não seja uma idéia tão boa assim me meter lá dentro.

e estou certo, como tem que ser.

ela fala de seu jeito peculiar, com uma pontada de ironia, um riso agudo oculto ou coisa que o valha:

"Pronto pra continuar de onde paramos, Profit?"

usa um vestido vermelho tóxico, sua pele rebrilha sob os 60 watts da lâmpada e sinto minha garganta se fechar enquanto, involuntariamente, sigo minhas pernas pra dentro do quarto. em menos tempo do que parece possível (uma piscadela) estou sob ela, dominado, submisso e outros sinônimos degradantes do tipo.

tento, mais uma vez, elaborar em cima da oração do faminto mas esqueço até do básico. a essa altura, tudo que posso concluir é que bem não fará.

"Assim…" ela sussurra.

a energia começa a se esvair rapidamente de mim. só consigo murmurar.

"Izzy, não, por favor."

e apago.

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