33.

November 30, 2006

enquanto caminhamos, não é difícil perceber que sou o centro das atenções. ou melhor, a oriental mignon que me acompanha. nada me lembra do fato de eu estar me sentindo bem. aliás, o fato de estar se sentindo bem só é notado de verdade se você acabou de sair de um período em que se sentia como um monte de lixo. o que não é o caso. Izzy e eu acabamos, isso sim, de batizar a seção dos clássicos da biblioteca pública. e ainda assim me sinto bem, mesmo sem uma corrida descalço e ‘as pressas ao orquidário. deve ter a ver com o prego em meu bolso. a energia deve me fazer bem. a energia da fé dos outros no artefato. Izzy, sendo do ‘outro time’ (quer seja no bom ou no mau sentido), não parece nem um pouco tocada pelo valor religioso da peça.

"Izzy, você tem algum trocado aí?"

"Vai começar a cobrar pelo serviço agora?"

"Hmmm… vou!"

"De quanto você precisa?"

"Quanto é necessário para deixar um mendigo viciado em crack feliz?"

"Pouco, acho."

"E, você tem?"

"Tenho quanto você quiser."

penso no meu laptop novo. por que não? acho que sou moral demais pra isso, eis a resposta. como a grana pro zumbi viciado em metanfetamina não vai me trazer nenhum benefício direto é mais fácil aceitá-la. ela saca um maço de notas  de  cinquenta sei lá de onde e me passa, no meio da rua, como se estivesse me entregando um bloquinho de papel ou um cigarro.  por falar nisso:

"E um cigarro, você tem aí?"

"Tá me achando com cara de quê?"

"Quebra essa, vai Izzy."

desta vez tento olhar de onde ela puxa as coisas, mas, como uma ilusionista televisiva, suas mãos foram mais rápidas que meus olhos. de repente estava lá. outro maço, agora de cigarros. achei engraçado e esbocei um sorriso enquanto rompia o plástico que separava minhas doses de nicotina e alcatrão de mim. ele/ela parece gostar.  tento não acreditar que esteja rolando um clima. tento não pensar que estou transando com uma coisa de outro mundo. tento não pensar que essa coisa, a qualquer momento - se é que já não fez isso - pode querer inverter as regras do jogo, se é que vocês me entendem.

"Izzy, diz aí, o que você sabe da Marreta?"

"Querendo dar uma de esperto para cima de mim, Lucas?"

"Não, só curiosidade mesmo."

"Tá."

e é tudo que ela diz. de verdade. não fico surpreso. talvez ela não ache adequado falar do item em questão por se tratar de uma relíquia sagrada ‘do outro lado’. talvez pra ela tudo isso não passe de algum jogo e falar comigo da marreta pode ser contra as regras do dito cujo.

puxo, devagar, um dos cilindros brancos do maço e ponho entre os lábios. penso em bogart. penso mesmo. e mudo de idéia. recolocar o cigarro no maço é difícil mas consigo. estendo-o de volta ‘a ela e pergunto:

"Tem como arrumar um quartilho de Jack Daniels?"

"Tá começando a abusar, héin, Profit!"

mesmo assim ela providencia.

bebo um gole longo, quase sem respirar, correndo o risco de engasgar e tossir mas me sinto bem quase imediatamente. o torpor aveludado do uísque.

32.

November 26, 2006

não preciso levantar os olhos para ver que é ela. ou ele. que seja.

"E aí? Acho que você está começando a se interessar por mim, afinal. Acho um saco essa coisa de amor não correspondido."

me esforço mas não consigo. tenho que olhar. dessa vez apareceu como uma asiática, creio que nem precise frisar "muito gostosa".

engulo em seco. sabe como é a sensação? horrível. é o medo que me faz pensar um trilhão de vezes antes de murmurar pra ela:

"Ah, Izzy, você… por aqui?"

"Acredite: não é coincidência."

"Imaginei."

"Então… já está pronto pro próximo round de nosso joguinho?"

"Peraí, menina. Isso aqui é um lugar público demais pra você fazer… aquilo de novo comigo."

"Olha, Profit, não te entendo! Você vive me chamando e agora vai começar com essa de ‘não me toques’?"

"Como assim, ‘te chamando’?"

"Ué, primeiro a tal história de ficar repetindo meu nome sem parar lá no mato…"

"Na casa do Celso?"

"Não foi o que eu disse? No mato!"

ela faz uma pausa.

"Depois deixa sua mente num looping perpétuo de invocação: ‘Izzy isso’, ‘Izzy aquilo’… no meu ramo, quando a gente é invocado pela pessoa certa, na hora certa, é educado responder."

e agora josé? o que eu digo pra ela? que me masturbei há poucos minutos e não tem nada pra ela (como é que os caras disseram mesmo?) ’secar’?

a impressão de que a biblioteca serviria como substituto do templo, terra santa pra proteção contra forças sobrenaturais, ‘do mal’, vai pras picas.

"Então? Continuamos de onde paramos na última vez?"

"Mas a gente acabou o que tinha começado na última vez!"

"Você se contenta com tão pouco? Eu gosto de viver a vida mais plenamente que isso. Quero sugá-la até o caroço, como diz o populacho."

que diabo é ‘populacho’? soa como uma palavra demoníaca pra mim.

"Ok. Mas vou ser totalmente sincero com você: daqui não tem muito o que sugar, não?"

"A gente dá um jeito." ela diz, baixando minha barguilha. fico estático. mato é mato, sempre tem um lugarzinho aonde ir pra atividades de natureza, arrã, natural. mas na biblioteca é um pouco demais.

"Izzy, dá um tempo! A gente tá num lugar público, pô!"

"Cadê a tua ousadia, muchacho?"

"Deixei na outra calça!"

ela olha com aqueles olhinhos amendoados sensacionais pra mim, sorri com o canto da boca e diz:

"Ninguém mais lê os clássicos." e sai me empurrando até chegarmos na seção mencionada, abandonada totalmente por qualquer ser humano. ela tira meu pau pra fora e abocanha sem pestanejar.

"Sabe que quando, hm, você falou de sugar, nhã, essa imagem me ocorreu?"

ela não diz nada (pudera!), só engole mais alguns centímetros e tem um ar de contentamento difícil de traduzir em palavras no seu rosto enigmático de oriental. penso na energia que isso vai me custar e lembro que uma visita ao orquidário deve resolver. daí relaxo.

31.

November 23, 2006

bom filho à casa torna. ou mais ou menos isso. estou na porta do templo, sem a mínima noção de onde mais poderia procurar abrigo. além da possibilidade de poder unir o útil ao agradável, que seria amélia, se é que você me entende.
 
o pacote em que o prego está faz volume e esfria a pele através do tecido do meu bolso. ainda não sei o que fazer com ele, nem se devo contar a amélia ou não. por nossas experiências anteriores, sei que ela vai acreditar em qualquer coisa que eu disser. ela vai acreditar mais do que eu mesmo, não vai duvidar nem um segundo. e, quem sabe… quem sabe nada. toco a campainha, já esperando pelo chokito, me cagando todo de encontrar Izzy por aqui (agora que sei exatamente o que ele/ela é, e tendo a sensação de que cada segundo dura uma hora). quero entrar neste lugar o mais rápido possível. não sou religioso, mas há uma quantidade mais do que suficiente de gente assim aí dentro, e, pelo que pude entender da conversa entre lúcio e o mosca, parece que isso conta, afinal de contas.

não tinha pensado nisso até agora: que diferença faz o fato de eu não me importar ou nunca ter me importado com religião. talvez amélia seja sensível o suficiente a essa minha deficiência e não tenha correspondido a meus avanços porque espera alguém com quem compartilhe a fé. ou talvez eu esteja ficando simplesmente obsecado com a idéia de ter amélia sob meu peso, arquejando e fechando os olhos enquanto goza profusamente. então lembro que ela é freira. pela primeira vez consigo pensar que o desejo que nutro por ela talvez seja inconveniente.

então, surge o chokito.

"Pois não?"

"Oi, sou o Lucas, lembra de mim?"

"Sim, me lembro."

só a cabeça atravessa a linha do portão, que ele parece usar como escudo.

"Bem, eu queria falar com Amélia. Ela está?"

"Não, irmã Amélia não está."

"Posso esperar por ela?"

"Claro! O senhor é livre para fazer o que bem quiser."

"Aí dentro, eu quis dizer."

"Creio que não será possível, desta vez."

fodeu.

"Como assim?"

"Ninguém pode entrar hoje. Não é dia de visitas."

meu coração começa a bater mais forte.

"Meu querido, eu não sou visita. Trabalho pra vocês, lembra?"

"Então, por isso mesmo, deveria acatar o meu… pedido. Nada de visitas hoje, senhor Lucas. Sinto muito."

a casa caiu.

claro, ainda há a possibilidade de me enfurnar na primeira igreja em que conseguir entrar. ou encontrar um abraham van helsing de plantão disposto a tomar conta da mina aqui. um caçador de monstros forte, um exorcista destemido… desconheço minha própria capacidade pra idealizações homoeróticas.

assim, saio andando sem me preocupar mais com o garoto ‘a portuguesa. quer dizer, ele está supurando a olhos vistos. será que a igreja não tem convênio pra mandar o chato a um dermatologista?

entro numa biblioteca. não sei porque. faz um século que li o último livro. ‘on the road’. talvez pelo aspecto de templo que o prédio ostenta, pelo sossego de seus freqüentadores e pelo silêncio generalizado. na falta de coisa melhor para fazer, decido pesquisar algo, e o assunto que me chama mais a atenção no momento é: súcubo.

30.

November 18, 2006

é como eu esperava.

nada de prego.

uma coisa ligeiramente amorfa, talvez de metal. longilínea.

"Que é isso?" lúcio entra em ação.

"É o que o homem-rã recuperou do lugar indicado."

"É metal?"

"Primitivo, mas é sim. A liga tem tanto minério diferente misturado que é praticamente impossível dizer o que predomina. Meu palpite é ferro."

"E cê acha que é o prego que fazia conjunto com a marreta?"

"Provavelmente."

"Tem como ter certeza?"

"Ahum." é o que mosca diz e fico tentando imaginar o que significa enquanto ele leva o ‘prego’ ‘a altura do rosto, posicionando-o sobre a pele infeccionada e dizendo alguma coisa numa língua que não conheço.

quando ele baixa as mãos… você poderia imaginar como é? digo, é possível testemunhar um milagre e não ficar impressionado com a inexplicabilidade do fenômeno?

o prego emite uma luz breve, dourada, que não tem nada a ver com a composição do metal. e mosca pode começar a pensar em mudar de nome, desde que mude também de óculos.

"Não é que funciona?" diz lúcio, um fio de incredulidade em sua voz. "Sabe se é permanente? Quer dizer, a mudança tem a ver com o nível de fé que o objeto sacro carrega. Quanta energia acha que tem depositada nesse caco velho?"

"Muita, pelo que se pode apurar na ‘infernet’. Entendo que a mudança é permanente."

"Cê vai até poder pegar mulher sem usar um saco de supermercado na cabeça, Mosca!"

ninguém, é claro, ri. só lúcio. pra ele milagres são corriqueiros. ele até tem o seu milagre pessoal no cigarro que se regenera sempre que apagado. penso comigo mesmo se milagres são sempre coisas positivas ou se há espaço pro outro extremo do espectro…

de repente me dou conta de que meus processos mentais adquiriram nova clareza, ou, pelo menos, um retorno ‘a antiga, quando ainda não tinha sido destruído por celso e sua mágoa sem fim.

mas o momento passa.

lúcio ergue as sobrancelhas quando apanha o prego em suas mãos, como se estivesse levando um choque leve. embrulha-o num pedaço de tecido branco, aparentemente mal-cortado de uma peça maior, e me entrega. diz:

"Guarde e não desembrulhe. Só tire do bolso quando for entregar ao verdadeiro dono. Entendeu?"

"Claro." respondo e, naquele instante, sim, parece muito claro.

o tecido é frio entre meus dedos… parece conter gelo em seu interior. seria o metal ou a energia mística?

me dou conta meio sem querer que estamos do lado de fora, no boulevard escuro outra vez, dentro do carro que repete o processo de acelerar e frear como se fosse um ritual, uma dança feita por automóveis que precisam chegar em lugares inalcançáveis de outra forma.

e pronto.

novamente presos ‘a realidade rotineira.

"Preciso voltar ao FlorAmor, Bono. Acho que você vai ficar seguro pelo menos nas próximas duas horas. Evite Izzy o máximo que puder. Pelo que sabemos, ela trabalha pro Inimigo com i maiúsculo. Não dá pra adivinhar o que mais uma sessão com ela vai te fazer. Vá a um lugar em que seja fácil manter-se discreto. Te procuro assim que resolver um negócio com o Vlad."

só concordo com a cabeça.

por mais estranho que pareça, consigo pensar em um lugar aonde ir.

29.

November 15, 2006

então, você provavelmente já assistiu ‘a mosca’. jeff goldblum e coisa e tal. sabe aquela fase em que o sujeito parece estar sofrendo de uma caso sério de acne? não, pior do que o sempre presente garoto-com-cara-de-pizza. alguns pontos do rosto do mosca parecem prestes a se desprender do osso. pense o oposto de agradável e eleve a potência ‘n’. está esquentando.

"Mosca, esse aqui é o Lucas. Lucas, isso aqui é o Mosca."

imagino que essa seja a idéia de lúcio de diversão. tirar sarro pra disfarçar o espanto e a repulsa. por reflexo quase estendo a mão e termino agradecido ‘a figura lamentável e de modos antissociais por simplesmente encolher os ombros e se esconder por trás de seus óculos grandes, grossos e ensebados.

"Hém. Prazer." ele diz, afinal.

"O prazer é meu."

"Quanta formalidade, senhores. Mas vamos aos negócios. Mosca, salvou o prego?"

"Pois é. Está aqui em algum lugar."

por mais que isso devesse me deixar motivado, não deixa. o galpão (não parecia tão grande assim quando entramos) onde mosca vive está entulhado de todo tipo de objeto. a predominância de papel é gritante. há estantes em todos os cantos. a ’sala de estar’ (entenda que se trata do lugar onde mosca está nos recebendo) tem sofás e poltronas. embaixo de toneladas de papéis.

"Sentem aí que eu vou procurar o negócio."

piada. tem que ser uma piada.

"Sentar onde, maluco?"

"Ahém… é só tirar tudo e colocar no chão."

que chão?

"Mas depois coloquem tudo de volta que senão me perco na leitura… tá tudo em ordem e vou lendo conforme dá."

forço a vista tentando entender o que está escrito na folha de cima da pilha que movo. sem sucesso. língua desconhecida. os caracteres lembram um pouco aqueles peixes de águas profundas. se é que são caracteres.

mosca some por uma porta lateral e ouvimos o barulho de móveis sendo mudados de lugar. depois, de desabamento. a seguir, um ou outro grito sufocado. pequenas patas batendo no chão enquanto fogem do contato com seres humanos (?). parece um estouro de manada em escala gulliveriana.

"Ele consegue se achar com toda essa tralha por aí?" não consigo evitar de perguntar.

"Mesmo que demore mais meia hora."

"Já passou tudo isso?"

"O tempo, meu caro Bono, é mais relativo aqui do que ‘lá fora’."

o que quer que isso signifique.

shawn (ou chá - será que isso importa?), que tinha ficado só na porta até agora, entra com um ar espavorido.

"Lúcio?"

"Quié?"

"Tem uma coisa lá fora… parece que tá multando a gente."

"Tudo bem, não esquenta. Deve ser um ‘guardião de limiar’ desocupado brincando de guarda de trânsito."

"Como é que eu vou pagar a multa depois, cara?"

"Sangue de gato, velho. O bom e confiável sangue de gato. Não se preocupa não que tenho uma ou duas ampolas na geladeira lá de casa."

meu deus. eu tô ouvindo mesmo tudo isso? há quanto tempo estou alucinando? é tudo derivado do esgotamento pós-coito que tive?

finalmente, dos recessos mais tenebrosos do galpão, mosca volta com algo nas mãos trêmulas.

28.

November 11, 2006

a idéia, pelo que entendo, é me deixar injuriado. e posso afirmar com certeza que ele consegue. além de me tirar da ‘pista’ e me privar do vislumbre de paraíso que são as partes pudendas da garota de peruca rosa claro, lúcio ainda me vem com essa:

"O primeiro lugar em que te procurei depois do sumiço da chácara de Celso foi num certo convento. E adivinha só quem eu conheci lá?"

claro. me irrita saber que ele se intrometeu a ponto de ir atrás de amélia, mas me irrita mais ainda o que ele diz a seguir:

"Ela é bem jeitosa, mesmo. Pruma freira, quer dizer."

tento mudar de assunto:

"Falou com teu camarada do prego?"

"Ah, sim."

"E ele encontrou?"

"Deixa isso pra quando a gente encontrar o cara pessoalmente."

ele quer mesmo me encher.

"Amélia tem um jeito especial de falar com a gente, né, Bono?"

que é que isso quer dizer?

"Como?"

pra mim ela pareceu bem fria e objetiva, na verdade.

"Ela meio que fala com as mãos, sabe?"

"Explica!"

"Tipo, ela tem necessidade de tocar o interlocutor enquanto fala."

meu deus!

"Ela te tocou? Onde?"

"Ah, não é nada disso. Só no braço, no ombro. Coisa normal, nada demais."

pra você! em mim ela não pôs um dedo.

"É, é verdade. Ela é assim o tempo todo."

por que eu daria esse prazer pro canalha? quer dizer, porque diria que ela nem chegou perto de mim? que me rejeitou todas as vezes que sugeri que a gente devia se conhecer mais ‘de perto’ (entenda-se: biblicamente)?

mas não falo, é claro.

andamos durante alguns minutos até um táxi que parece bastante familiar. chá tem uma latinha aberta no painel e acalenta idéias que desconheço, formando pequenas estruturas com os dedos diante dos olhos. algum tipo de mania nova, acho.

"Chá?"

reajo diferente dessa vez. não agradeço. não digo que prefiro café ou o bom e velho jack. fico quieto.

ele repete:

"Chá?"

resisto.

chá está falando comigo. por segundos (perdi a conta de quantos) pensei que era lúcio que falava com chá. ele tem uma lata fechada entre os dedos outrora ocupados com estruturas desconhecidas.

agradeço e pego.

"Chá…" dessa vez é lúcio quem fala.

"Vamos até o muquifo do Mosca, meu velho."

"Já te falei que é Shawn, Lúcio!"

"Dá na mesma. A pronúncia é quase idêntica, porra!"

o carro dispara rua abaixo e diminui a marcha depois de alguns minutos. chá dirige com cuidado. parece procurar pontos de referência a partir dos quais possa se guiar no labirinto que é o centro velho da cidade. esquerda-direita etc. entramos num boulevard escuro que parece não levar a lugar algum. então, da escuridão vem uma luz insuportável que nos envolve, desfaz e transporta. abro os olhos chocado. estamos no mesmo lugar. estamos em um lugar totalmente diferente daquele em que estávamos antes.

"Que porra!"

"Depois da primeira vez você se acostuma, Bono."

"Onde é que a gente tá?"

"No mesmo lugar que antes. A vibração é que é diferente."

não entendo. ou entendo cada vez menos.

"Vamos lá. Vamos ver o Mosca."

27.

November 9, 2006

é claro que me escapa a necessidade da exclamação. lúcio conhece Izzy também? como poderia? mesmo que conhecesse fui eu que pedi a ela que me deixasse chamá-la desse jeito. ela disse ‘bel’, como em isabel. e, é claro, percebo mais uma coisa que tinha deixado de lado esse tempo todo. no canto esquerdo de minha mente, se insurgindo com uma lentidão de enervar, uma idéia do que está errado com Izzy, do que torna minha relação com ela estranha, cansativa e, ‘as vezes, aterrorizante.

mas antes que possa formar a idéia, antes que a voz doce de amélia se insinue em minha memória e repita que Izzy é o ‘adversário’ (de quem quer que seja), lúcio me interrompe:

"Izzy não é o outro nome de Bel, Vlad?"

"É o que ele usa quando tá montado, sim."

"A cavalo?" pergunto estupidamente.

"Não, de ‘rainha’, sua besta."

"’Rainha dragão’." sussurra vlad.

"Traduz?"

"Tua namorada nova é um demônio polimorfo do círculo mais luxuriante do inferno."

"Uma ‘drag queen’?"

"Também."

"Mas mais importante que isso, é um ‘dreno’ de energia. Um súcubo em forma feminina, um íncubo na masculina."

"Juro que nada disso faz sentido." reclamo.

"Claro que não faz. Mas, diz aí, cê foi pra cama com ela?"

"Primeiro eu fui pro mato."

"Não fala mais nada: foi quando cê sumiu da casa do Celso, né?"

"Como…?"

"É assim mesmo que ele/ela faz."

"Mas a gente não… como é que se diz, fez tudo lá, não."

"Ele/ela te pegou sozinho depois, então? Num lugar em que não pudessem ser interrompidos?"

"Foi. Só não sei como ela descobriu o hotel em que eu ia dormir."

"Simples: ela é o diabo… quer dizer, um diabo."

"Mas cê tá parecendo inteiro demais pra quem teve uma sessão com um súcubo, Lucas. O que aconteceu?"

"Sei lá. Era preu estar como?"

"Sei lá? Mais seco e encovado, com certeza."

e me senti assim, consigo lembrar. mas daí fui ao orquidário, fiz um pouco de tai chi com os pés descalços cravados na terra e tudo mudou. mas deixo passar e não comento com eles.

também deixo de falar da pista, talvez mais quente, que o zumbi de metanfetamina me passou. sabe como é, ninguém espera que eu lembre de tudo. não convém decepcionar.

"Teu homem-sapo recuperou o prego, Lúcio?"

"Tá falando do homem-rã que o Mosca ia descolar?"

"Puta confusão!" vlad diz, antes de se virar pra falar com um freguês na outra ponta do balcão.

"Isso."

"Bom, ainda não consegui retomar contato com o cara, mas isso foi bem lembrado. Vlad?"

"Fala!"

"Posso usar teu telefone?"

"Pode. Vai lá no escritório."

e lúcio sai andando e me deixa ali parado com cara de nada, sem ter o que fazer. vlad pergunta:

"Quer beber alguma coisa, Lucas?"

"Não. Vou até a pista dar uma olhada nas meninas."

"Ok. Digo pro teu ‘irmão’ quando ele voltar."

e vou.

a ‘pista’ é o santuário de todos os mal-casados, masturbadores crônicos e viciados em sexo em geral. as meninas, mediante pagamento, dançam nuas com os clientes que podem também dançar nus mas não são incentivados a isso por uma questão de decoro ou, mais simples, pela presença intimidadora dos gorilas que vlad deve pagar com pedaços de ‘clientes indesejáveis’.

uma garota de peruca rosa claro, mignon e insinuante, curva-se pra frente na outra extremidade do salão a fim de apanhar um lenço imaginário. vê-se de tudo, menos o trato gastro-intestinal da menina. é lindo e vivo e sinto que me recuperei totalmente quando a ereção faz a frente de minha calça saltar.

então lúcio reaparece e estraga tudo.

26.

November 4, 2006

ele não leva um susto, como seria de se esperar. ao contrário: abre um puta sorriso maligno (acho que a falta de dentes contribui pra acentuar o nível de ‘malignidade’), os olhos mortiços não indicam porra nenhuma mas me põem nervoso o bastante pra apertar o gatilho no caso de ele resolver chegar perto demais, rápido demais.

sorrio de volta. não é difícil.

"Por que cê tá me seguindo, escroto?"

ele continua ali parado, com a boca escancarada como se esperasse minha aprovação. digo:

"Tá, tu é feio pra caralho! É só isso?"

"Póft? Cheu nomi é Póft?"

"E que língua é essa?"

"Portugueish, ué."

"Tá, sou eu."

"Tem uma coisha que talveish chê deveche xaber."

"Vai me dizer que é da marreta que cê tá falando, imitação de assombração…"

"É icho meishmo. A marreta. Eu shei quem tá com ela."

"E quem é?"

"Quanto que eu ganho com isho? Quer disher, não vou te pachar informachão de graxa, né?"

"Olha, não tenho um puto comigo agora, mas…"

"Maish nada. Sem dinheiro, sem informachão."

"E onde te procuro quando tiver grana?"

"Deicha que eu te ascho."

ele meio que se prepara pra bater em retirada. muda de idéia. talvez tenha alguma coisa a ver com o fato de eu ainda estar apontando o cano em sua direção. diz:

"Como pareche que chê tá shendo shinchero vou te dar uma canxa: o teu amigo tá lá na boca do teu outro amigo."

ouço um barulho nas latas de lixo atrás de mim e viro pra checar. um gato.

quando volto a olhar na direção do banguela… é isso aí. tá ficando comum demais pra me achustar, digo, assustar. quando a exceção vira regra, já viu.

o cara obviamente veio da ‘zona’, do centro velho da cidade onde todas as assombrações sociais vivem. depois tenho que checar, ver se encontro o sujeito em caso de necessidade.

agora, esse gato filho-da-puta tem mesmo que ficar roçando assim na minha perna? será que ainda tô com o cheiro de Izzy?

tento imaginar quem é meu ‘amigo na boca do outro amigo’. apesar de a imagem não ser bonita concluo logo do que se trata e trato de andar na direção que imagino ser a correta.

a hostess na porta indica o caminho a seguir sem muita convicção de que tenho o necessário pra pagar a consumação mínima.

vejo os caras em seus lugares de sempre, espelhando-se em lados diferentes do balcão. sei lá o que vladimir vai fazer comigo depois da última mancada. lúcio é outra incógnita, apesar de ter sido eu a desaparecer sem dar satisfação. mas também, como poderia? foi um desaparecimento forçado pra dizer o mínimo.

de longe ainda, vejo que o tempo pode fechar ou não. vladimir faz cara de quem não tá gostando de me ver. olha pra lúcio que sussurra alguma coisa e diz:

"Vai vomitar onde hoje, seu escroto de merda?"

e abre um sorriso matreiro. agora sei que estava brincando. ou quero achar que sei. lúcio:

"Puta que o pariu, Bono! Onde cê se enfiou, porra?"

"Era um lugar quente e escuro."

"E o nome dela?"

"Izzy."

"Caralho!"

25.

November 2, 2006

resolvo procurar lúcio. embora ele não tenha o hábito de partilhá-las, acho que vai ter algumas das respostas que procuro. agora a questão é pessoal (já que o dinheiro acabou).

passo no chico e peço um com tudo em cima.

apesar da intenção, não sei se vou encontrar lúcio no lugar de sempre.

tenho um palpite de que vou encontrá-lo mesmo que não o procure.

penso pensamentos bem mais objetivos do que estou acostumado. se soubesse que meter o pé na terra tinha esse efeito terapêutico antes só andava descalço.

preciso sair dessa armadilha em que estou. a impressão de que a qualquer momento Izzy pode aparecer de novo e me secar é meio aterrorizante. se fosse com amélia isso não aconteceria. ela só muda de roupa, não de cor de cabelo (e de pele, se não me engano) a cada encontro.

segurança.

acho que preciso de segurança pra me relacionar com as mulheres.

não, esqueça o plural.

melhor me relacionar só com uma mulher de cada vez.

pelo menos não estou mais com sono.

ninguém recomenda que se coma cachorro quente no café da manhã por algum motivo.

começo a sentir do que se trata logo depois de engolir o último pedaço, aquele em que há mais salsicha do que pão. percebo que ela está mais escura que o normal, mas como dizem por aí, ‘o que não te mata te torna mais forte’. ou ‘o que não mata engorda’. parecido mas não igual, já que engordar, além de estar fora de moda, pode ser tão prejudicial ‘a saúde quanto comer algo que pode te matar. você morre do mesmo jeito não importa a decisão que tome.

mas tergiverso.

claro que não noto o sujeito que se esforça tanto em me seguir.

é o que quero que ele pense, óbvio.

a aparência não é das melhores.

magro demais (eu sei, é uma antítese, não é esse o nome?), com toda pinta que um viciado em metanfetamina ostenta orgulhosamente, inclusive as falhas na dentição. ou ausência dela.

fico curioso pra ver quão perto ele vai chegar antes de anunciar o assalto.

mais curioso ainda pra saber o que o faz pensar que tenho algo que mereça ser roubado.

como qualquer leitor de livro de espionagem vagabundo sabe, procuro atrair o sujeito prum local em que possa confrontá-lo sem a intervenção de nenhum transeunte. as pessoas podem confundir as coisas. as coisas podem confundir as pessoas. e eu continuo me sentindo claro o suficiente pra fazer a abordagem.

não demora.

o beco é escuro o bastante pra que eu possa me esconder e tem luz suficiente pra tirar a arma do coldre, destravar e deixar pronta pro que der e vier.

ele se aproxima tentando não fazer barulho e obtendo mais ou menos o mesmo sucesso de me seguir sem ser notado.

quando está já três metros adentro do beco, aponto pra ele a outra extremidade do cano e digo na melhor imitação de ‘dirty harry’ que consigo:

"Vamos lá, me dê um motivo…"

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