Labirinto

November 4, 2006

26.

Filed under: K.I.S.S.

ele não leva um susto, como seria de se esperar. ao contrário: abre um puta sorriso maligno (acho que a falta de dentes contribui pra acentuar o nível de ‘malignidade’), os olhos mortiços não indicam porra nenhuma mas me põem nervoso o bastante pra apertar o gatilho no caso de ele resolver chegar perto demais, rápido demais.

sorrio de volta. não é difícil.

"Por que cê tá me seguindo, escroto?"

ele continua ali parado, com a boca escancarada como se esperasse minha aprovação. digo:

"Tá, tu é feio pra caralho! É só isso?"

"Póft? Cheu nomi é Póft?"

"E que língua é essa?"

"Portugueish, ué."

"Tá, sou eu."

"Tem uma coisha que talveish chê deveche xaber."

"Vai me dizer que é da marreta que cê tá falando, imitação de assombração…"

"É icho meishmo. A marreta. Eu shei quem tá com ela."

"E quem é?"

"Quanto que eu ganho com isho? Quer disher, não vou te pachar informachão de graxa, né?"

"Olha, não tenho um puto comigo agora, mas…"

"Maish nada. Sem dinheiro, sem informachão."

"E onde te procuro quando tiver grana?"

"Deicha que eu te ascho."

ele meio que se prepara pra bater em retirada. muda de idéia. talvez tenha alguma coisa a ver com o fato de eu ainda estar apontando o cano em sua direção. diz:

"Como pareche que chê tá shendo shinchero vou te dar uma canxa: o teu amigo tá lá na boca do teu outro amigo."

ouço um barulho nas latas de lixo atrás de mim e viro pra checar. um gato.

quando volto a olhar na direção do banguela… é isso aí. tá ficando comum demais pra me achustar, digo, assustar. quando a exceção vira regra, já viu.

o cara obviamente veio da ‘zona’, do centro velho da cidade onde todas as assombrações sociais vivem. depois tenho que checar, ver se encontro o sujeito em caso de necessidade.

agora, esse gato filho-da-puta tem mesmo que ficar roçando assim na minha perna? será que ainda tô com o cheiro de Izzy?

tento imaginar quem é meu ‘amigo na boca do outro amigo’. apesar de a imagem não ser bonita concluo logo do que se trata e trato de andar na direção que imagino ser a correta.

a hostess na porta indica o caminho a seguir sem muita convicção de que tenho o necessário pra pagar a consumação mínima.

vejo os caras em seus lugares de sempre, espelhando-se em lados diferentes do balcão. sei lá o que vladimir vai fazer comigo depois da última mancada. lúcio é outra incógnita, apesar de ter sido eu a desaparecer sem dar satisfação. mas também, como poderia? foi um desaparecimento forçado pra dizer o mínimo.

de longe ainda, vejo que o tempo pode fechar ou não. vladimir faz cara de quem não tá gostando de me ver. olha pra lúcio que sussurra alguma coisa e diz:

"Vai vomitar onde hoje, seu escroto de merda?"

e abre um sorriso matreiro. agora sei que estava brincando. ou quero achar que sei. lúcio:

"Puta que o pariu, Bono! Onde cê se enfiou, porra?"

"Era um lugar quente e escuro."

"E o nome dela?"

"Izzy."

"Caralho!"

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