Labirinto

November 9, 2006

27.

Filed under: K.I.S.S.

é claro que me escapa a necessidade da exclamação. lúcio conhece Izzy também? como poderia? mesmo que conhecesse fui eu que pedi a ela que me deixasse chamá-la desse jeito. ela disse ‘bel’, como em isabel. e, é claro, percebo mais uma coisa que tinha deixado de lado esse tempo todo. no canto esquerdo de minha mente, se insurgindo com uma lentidão de enervar, uma idéia do que está errado com Izzy, do que torna minha relação com ela estranha, cansativa e, ‘as vezes, aterrorizante.

mas antes que possa formar a idéia, antes que a voz doce de amélia se insinue em minha memória e repita que Izzy é o ‘adversário’ (de quem quer que seja), lúcio me interrompe:

"Izzy não é o outro nome de Bel, Vlad?"

"É o que ele usa quando tá montado, sim."

"A cavalo?" pergunto estupidamente.

"Não, de ‘rainha’, sua besta."

"’Rainha dragão’." sussurra vlad.

"Traduz?"

"Tua namorada nova é um demônio polimorfo do círculo mais luxuriante do inferno."

"Uma ‘drag queen’?"

"Também."

"Mas mais importante que isso, é um ‘dreno’ de energia. Um súcubo em forma feminina, um íncubo na masculina."

"Juro que nada disso faz sentido." reclamo.

"Claro que não faz. Mas, diz aí, cê foi pra cama com ela?"

"Primeiro eu fui pro mato."

"Não fala mais nada: foi quando cê sumiu da casa do Celso, né?"

"Como…?"

"É assim mesmo que ele/ela faz."

"Mas a gente não… como é que se diz, fez tudo lá, não."

"Ele/ela te pegou sozinho depois, então? Num lugar em que não pudessem ser interrompidos?"

"Foi. Só não sei como ela descobriu o hotel em que eu ia dormir."

"Simples: ela é o diabo… quer dizer, um diabo."

"Mas cê tá parecendo inteiro demais pra quem teve uma sessão com um súcubo, Lucas. O que aconteceu?"

"Sei lá. Era preu estar como?"

"Sei lá? Mais seco e encovado, com certeza."

e me senti assim, consigo lembrar. mas daí fui ao orquidário, fiz um pouco de tai chi com os pés descalços cravados na terra e tudo mudou. mas deixo passar e não comento com eles.

também deixo de falar da pista, talvez mais quente, que o zumbi de metanfetamina me passou. sabe como é, ninguém espera que eu lembre de tudo. não convém decepcionar.

"Teu homem-sapo recuperou o prego, Lúcio?"

"Tá falando do homem-rã que o Mosca ia descolar?"

"Puta confusão!" vlad diz, antes de se virar pra falar com um freguês na outra ponta do balcão.

"Isso."

"Bom, ainda não consegui retomar contato com o cara, mas isso foi bem lembrado. Vlad?"

"Fala!"

"Posso usar teu telefone?"

"Pode. Vai lá no escritório."

e lúcio sai andando e me deixa ali parado com cara de nada, sem ter o que fazer. vlad pergunta:

"Quer beber alguma coisa, Lucas?"

"Não. Vou até a pista dar uma olhada nas meninas."

"Ok. Digo pro teu ‘irmão’ quando ele voltar."

e vou.

a ‘pista’ é o santuário de todos os mal-casados, masturbadores crônicos e viciados em sexo em geral. as meninas, mediante pagamento, dançam nuas com os clientes que podem também dançar nus mas não são incentivados a isso por uma questão de decoro ou, mais simples, pela presença intimidadora dos gorilas que vlad deve pagar com pedaços de ‘clientes indesejáveis’.

uma garota de peruca rosa claro, mignon e insinuante, curva-se pra frente na outra extremidade do salão a fim de apanhar um lenço imaginário. vê-se de tudo, menos o trato gastro-intestinal da menina. é lindo e vivo e sinto que me recuperei totalmente quando a ereção faz a frente de minha calça saltar.

então lúcio reaparece e estraga tudo.

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