Labirinto

November 18, 2006

30.

Filed under: K.I.S.S.

é como eu esperava.

nada de prego.

uma coisa ligeiramente amorfa, talvez de metal. longilínea.

"Que é isso?" lúcio entra em ação.

"É o que o homem-rã recuperou do lugar indicado."

"É metal?"

"Primitivo, mas é sim. A liga tem tanto minério diferente misturado que é praticamente impossível dizer o que predomina. Meu palpite é ferro."

"E cê acha que é o prego que fazia conjunto com a marreta?"

"Provavelmente."

"Tem como ter certeza?"

"Ahum." é o que mosca diz e fico tentando imaginar o que significa enquanto ele leva o ‘prego’ ‘a altura do rosto, posicionando-o sobre a pele infeccionada e dizendo alguma coisa numa língua que não conheço.

quando ele baixa as mãos… você poderia imaginar como é? digo, é possível testemunhar um milagre e não ficar impressionado com a inexplicabilidade do fenômeno?

o prego emite uma luz breve, dourada, que não tem nada a ver com a composição do metal. e mosca pode começar a pensar em mudar de nome, desde que mude também de óculos.

"Não é que funciona?" diz lúcio, um fio de incredulidade em sua voz. "Sabe se é permanente? Quer dizer, a mudança tem a ver com o nível de fé que o objeto sacro carrega. Quanta energia acha que tem depositada nesse caco velho?"

"Muita, pelo que se pode apurar na ‘infernet’. Entendo que a mudança é permanente."

"Cê vai até poder pegar mulher sem usar um saco de supermercado na cabeça, Mosca!"

ninguém, é claro, ri. só lúcio. pra ele milagres são corriqueiros. ele até tem o seu milagre pessoal no cigarro que se regenera sempre que apagado. penso comigo mesmo se milagres são sempre coisas positivas ou se há espaço pro outro extremo do espectro…

de repente me dou conta de que meus processos mentais adquiriram nova clareza, ou, pelo menos, um retorno ‘a antiga, quando ainda não tinha sido destruído por celso e sua mágoa sem fim.

mas o momento passa.

lúcio ergue as sobrancelhas quando apanha o prego em suas mãos, como se estivesse levando um choque leve. embrulha-o num pedaço de tecido branco, aparentemente mal-cortado de uma peça maior, e me entrega. diz:

"Guarde e não desembrulhe. Só tire do bolso quando for entregar ao verdadeiro dono. Entendeu?"

"Claro." respondo e, naquele instante, sim, parece muito claro.

o tecido é frio entre meus dedos… parece conter gelo em seu interior. seria o metal ou a energia mística?

me dou conta meio sem querer que estamos do lado de fora, no boulevard escuro outra vez, dentro do carro que repete o processo de acelerar e frear como se fosse um ritual, uma dança feita por automóveis que precisam chegar em lugares inalcançáveis de outra forma.

e pronto.

novamente presos ‘a realidade rotineira.

"Preciso voltar ao FlorAmor, Bono. Acho que você vai ficar seguro pelo menos nas próximas duas horas. Evite Izzy o máximo que puder. Pelo que sabemos, ela trabalha pro Inimigo com i maiúsculo. Não dá pra adivinhar o que mais uma sessão com ela vai te fazer. Vá a um lugar em que seja fácil manter-se discreto. Te procuro assim que resolver um negócio com o Vlad."

só concordo com a cabeça.

por mais estranho que pareça, consigo pensar em um lugar aonde ir.

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