31.
bom filho à casa torna. ou mais ou menos isso. estou na porta do templo, sem a mínima noção de onde mais poderia procurar abrigo. além da possibilidade de poder unir o útil ao agradável, que seria amélia, se é que você me entende.
o pacote em que o prego está faz volume e esfria a pele através do tecido do meu bolso. ainda não sei o que fazer com ele, nem se devo contar a amélia ou não. por nossas experiências anteriores, sei que ela vai acreditar em qualquer coisa que eu disser. ela vai acreditar mais do que eu mesmo, não vai duvidar nem um segundo. e, quem sabe… quem sabe nada. toco a campainha, já esperando pelo chokito, me cagando todo de encontrar Izzy por aqui (agora que sei exatamente o que ele/ela é, e tendo a sensação de que cada segundo dura uma hora). quero entrar neste lugar o mais rápido possível. não sou religioso, mas há uma quantidade mais do que suficiente de gente assim aí dentro, e, pelo que pude entender da conversa entre lúcio e o mosca, parece que isso conta, afinal de contas.
não tinha pensado nisso até agora: que diferença faz o fato de eu não me importar ou nunca ter me importado com religião. talvez amélia seja sensível o suficiente a essa minha deficiência e não tenha correspondido a meus avanços porque espera alguém com quem compartilhe a fé. ou talvez eu esteja ficando simplesmente obsecado com a idéia de ter amélia sob meu peso, arquejando e fechando os olhos enquanto goza profusamente. então lembro que ela é freira. pela primeira vez consigo pensar que o desejo que nutro por ela talvez seja inconveniente.
então, surge o chokito.
"Pois não?"
"Oi, sou o Lucas, lembra de mim?"
"Sim, me lembro."
só a cabeça atravessa a linha do portão, que ele parece usar como escudo.
"Bem, eu queria falar com Amélia. Ela está?"
"Não, irmã Amélia não está."
"Posso esperar por ela?"
"Claro! O senhor é livre para fazer o que bem quiser."
"Aí dentro, eu quis dizer."
"Creio que não será possível, desta vez."
fodeu.
"Como assim?"
"Ninguém pode entrar hoje. Não é dia de visitas."
meu coração começa a bater mais forte.
"Meu querido, eu não sou visita. Trabalho pra vocês, lembra?"
"Então, por isso mesmo, deveria acatar o meu… pedido. Nada de visitas hoje, senhor Lucas. Sinto muito."
a casa caiu.
claro, ainda há a possibilidade de me enfurnar na primeira igreja em que conseguir entrar. ou encontrar um abraham van helsing de plantão disposto a tomar conta da mina aqui. um caçador de monstros forte, um exorcista destemido… desconheço minha própria capacidade pra idealizações homoeróticas.
assim, saio andando sem me preocupar mais com o garoto ‘a portuguesa. quer dizer, ele está supurando a olhos vistos. será que a igreja não tem convênio pra mandar o chato a um dermatologista?
entro numa biblioteca. não sei porque. faz um século que li o último livro. ‘on the road’. talvez pelo aspecto de templo que o prédio ostenta, pelo sossego de seus freqüentadores e pelo silêncio generalizado. na falta de coisa melhor para fazer, decido pesquisar algo, e o assunto que me chama mais a atenção no momento é: súcubo.
