Labirinto

November 26, 2006

32.

Filed under: K.I.S.S.

não preciso levantar os olhos para ver que é ela. ou ele. que seja.

"E aí? Acho que você está começando a se interessar por mim, afinal. Acho um saco essa coisa de amor não correspondido."

me esforço mas não consigo. tenho que olhar. dessa vez apareceu como uma asiática, creio que nem precise frisar "muito gostosa".

engulo em seco. sabe como é a sensação? horrível. é o medo que me faz pensar um trilhão de vezes antes de murmurar pra ela:

"Ah, Izzy, você… por aqui?"

"Acredite: não é coincidência."

"Imaginei."

"Então… já está pronto pro próximo round de nosso joguinho?"

"Peraí, menina. Isso aqui é um lugar público demais pra você fazer… aquilo de novo comigo."

"Olha, Profit, não te entendo! Você vive me chamando e agora vai começar com essa de ‘não me toques’?"

"Como assim, ‘te chamando’?"

"Ué, primeiro a tal história de ficar repetindo meu nome sem parar lá no mato…"

"Na casa do Celso?"

"Não foi o que eu disse? No mato!"

ela faz uma pausa.

"Depois deixa sua mente num looping perpétuo de invocação: ‘Izzy isso’, ‘Izzy aquilo’… no meu ramo, quando a gente é invocado pela pessoa certa, na hora certa, é educado responder."

e agora josé? o que eu digo pra ela? que me masturbei há poucos minutos e não tem nada pra ela (como é que os caras disseram mesmo?) ’secar’?

a impressão de que a biblioteca serviria como substituto do templo, terra santa pra proteção contra forças sobrenaturais, ‘do mal’, vai pras picas.

"Então? Continuamos de onde paramos na última vez?"

"Mas a gente acabou o que tinha começado na última vez!"

"Você se contenta com tão pouco? Eu gosto de viver a vida mais plenamente que isso. Quero sugá-la até o caroço, como diz o populacho."

que diabo é ‘populacho’? soa como uma palavra demoníaca pra mim.

"Ok. Mas vou ser totalmente sincero com você: daqui não tem muito o que sugar, não?"

"A gente dá um jeito." ela diz, baixando minha barguilha. fico estático. mato é mato, sempre tem um lugarzinho aonde ir pra atividades de natureza, arrã, natural. mas na biblioteca é um pouco demais.

"Izzy, dá um tempo! A gente tá num lugar público, pô!"

"Cadê a tua ousadia, muchacho?"

"Deixei na outra calça!"

ela olha com aqueles olhinhos amendoados sensacionais pra mim, sorri com o canto da boca e diz:

"Ninguém mais lê os clássicos." e sai me empurrando até chegarmos na seção mencionada, abandonada totalmente por qualquer ser humano. ela tira meu pau pra fora e abocanha sem pestanejar.

"Sabe que quando, hm, você falou de sugar, nhã, essa imagem me ocorreu?"

ela não diz nada (pudera!), só engole mais alguns centímetros e tem um ar de contentamento difícil de traduzir em palavras no seu rosto enigmático de oriental. penso na energia que isso vai me custar e lembro que uma visita ao orquidário deve resolver. daí relaxo.

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