42.

December 30, 2006

"Me diga o que veio à sua cabeça primeiro… quando começou essa história toda de Marreta."

"Você diz desde que Amélia me contratou?"

"Sim. A primeira imagem aleatória que apareceu… não pensamentos lógicos, derivados da situação. A imagem que te ocorreu quando você não pensava."

"Essa é fácil."

falo pra ele do sonho com o macaco-rato de estimação de minha mãe que lembrei na hora. e do detalhe desagradável: ele cagava lagostas.

"Você entende o conceito de ’sub-rosa’, Lucas? Sabe o que significa?"

"A não ser que seja alguma coisa que fique embaixo da rosa, não, não sei, não."

"É sigilo. O que vou te contar agora deve permanecer restrito, informação que não podemos partilhar com mais ninguém, entendeu?"

"Nem com a Izzy?"

"Não precisa se preocupar com ela. Se alguém sabe mais sobre esse tipo de coisa que eu, é a Isabel."

"Pode parar… que história é essa de ‘Isabel’ agora? A primeira vez que falou dela disse que era um ‘demônio polissíndeto’ ou coisa parecida. Disse até que ela podia mudar de sexo… agora vem com essa de ‘Isabel’?"

"Pois é. Aprendi umas coisas a respeito dela, por exemplo, que originalmente era uma mulher. Talvez nem ela lembre disso. Já faz muito tempo. E é ‘polimorfo’, sua anta."

"Ah, vai se foder com sua verborragia!"

"Pois é mais ou menos disso que acho que se trata. O tal macaco do sonho… tanto pode ser Hanuman quanto o aspecto cinicéfalo de Thoth. De qualquer modo você esteve a serviço de forças ocultas desde o começo. Minha aposta é em Thoth, haja visto sua mania de narrar tudo."

"E por que isso?"

"Por causa da SUA verborragia. Thoth é o deus-escriba do panteão egípcio. Deve ter se identificado contigo."

"E por que ele cagava lagostas no sonho?"

"Provável que não fossem lagostas, mas escorpiões."

"Caralho, e não é pior?"

"Você não entende nada de simbologia, mesmo. Os escorpiões são protetores… podem ser interpretados assim por causa do mito de Diana e Orion, entende?  Orion tenta violentar Diana, a deusa lunar, e é picado por um escorpião. Como recompensa ela o transforma em constelação. Além disso podem representar, entre outras coisas, o clitóris da mulher."

"Como é que é?"

"Meu, depois pergunta pra Izzy que ela te explica, tá? De qualquer jeito alguém de outra esfera te mandou um recado através do sonho…"

"E qual seria?"

"Que você estaria seguro onde quer que se metesse."

ele faz uma pausa que deve acreditar ser dramática. funcionaria se eu já não estivesse escolado depois dos primeiros encontros com Izzy. ele traga seu cigarro milenar e defuma o ambiente com a fumaça acinzentada.

"Tá. E daí? Eu estava protegido desde o começo. Mas essa proteção não foi dada de graça. Qual o objetivo da coisa toda?"

"O mais provável? Eliminar alguma ameaça… das grandes. Meu palpite pessoal é que tem a ver com a sociedade secreta da qual Celso faz parte…"

sem querer mudo minha expressão facial. e ele muda o discurso.

"Melhor, fazia. Então já está tudo resolvido, não?"

não tenho idéia de como ele sabe… e menos ainda do que responder.

41.

December 28, 2006

reparo que uma barata se desloca com rapidez pelo chão empoeirado. talvez pra saudar o dono da casa que acabou de entrar. é uma daquelas pequenas, que chamam de francesinha.

o engraçado é que ele mantém a frieza, não demonstra nenhuma surpresa de me encontrar aboletado em seu sofá preferido. acho que, desde o início do caso, estivemos na carência de falar sinceramente sobre que diabo estava acontecendo. quer dizer, ele deveria ter me alertado pra mais coisas além dos perigos de uma noitada com izzy. afinal, lúcio é o expert… bom, você sabe, em ocultismo… rárárá. é uma das coisas que me acontecem de vez em quando: pensar no sentido do que as pessoas dizem. o fato de lúcio se autodenominar ‘expert em ocultismo’, por exemplo. pô, o que é oculto deveria permanecer assim, sem ser conhecido, certo? um ‘expert em ocultismo’ não é um contra-senso? como alguém pode ser entendido numa coisa que está às escondidas, que é desconhecida? como alguém pode ser especialista em mistérios por tanto tempo e não desvendá-los? por quê ele me deixou no escuro quando tudo que tinha a fazer era falar comigo?

"Você sabe que acabou de falar tudo isso em voz alta, não Bono? Continua com aquela mania esquisita de fazer a narrativa em off de seus casos, é?"

"Bom… é sim. Me ajuda a colocar tudo em perspectiva. E se você estava prestando tanta atenção, faça o favor de responder a última pergunta."

"É… complicado…"

"Que bom. Achei que você não fosse sentir um pingo de remorso por ter me deixado entrar em todas essas roubadas e ia desatar a falar, como se nada tivesse acontecido."

"Bom, a questão não é remorso, acho. Quero dizer, não é só remorso."

"É o quê, então?"

"É algo grande demais para caber nessa sua cabeça de bagre cheia de whisky, meu caro. É algo que talvez seja melhor que você continue sem saber. É algo que pode te deixar meio ruim das idéias, sabe? Que vai fazer mal pra sua cabeça."

"Mas não fez pra sua, certo?"

"É diferente, Bono."

"Ao que me consta, quem está namorando com um demônio aqui sou eu. E até que é bem gostoso, entendeu?"

"Você por acaso sabe em que fossas infernais essa ‘pessoa’ com quem anda deitando esteve? Não é saudável, Bono… nem um pouco."

"E continua enrolando, sem dizer nada."

"Tinha esperança de que você esquecesse isso e seguisse com sua vida. Mas tudo bem. Vou te dar o que quer."

mas antes de começar ele estende a mão num gesto estudado até o bolso da camisa e pesca de lá sua cigarreira. me contou uma vez que era como sua cerimônia do chá pessoal, que cada movimento feito visava aumentar seu grau de concentração. pelo tempo que leva até colocar o cigarro na boca sei que o que vem a seguir é chumbo grosso. ele faz um pequeno malabarismo com o isqueiro antes de acender. o fedor empesteia o ambiente.

e ele conta… mas não tenho certeza se é o quero ouvir.

40.

December 23, 2006

não me esforço para esconder a decepção que sinto com a indiferença de amélia. suas pupilas castanhíssimas me examinam por alguns segundos e é como se ela lesse minha mente.

"Desculpe, Lucas, mas não posso aceitar."

"Hã?"

"Não posso aceitar a Marreta nestas condições."

"Como assim, Amélia? Você não me contratou para encontrá-la?"

"Contratei. Mas esperava tê-la de volta como ela saiu daqui."

"E não tá?"

"Não."

será que ela lê mentes mesmo? depois da minha experiência com a namorada da criatura da lagoa de metanfetamina, considero isso muito provável.

"Por quê?"

"Essa mancha de sangue enorme não estava aqui antes. Alguém conspurcou a relíquia. Não foi você Lucas, foi?"

como acho a probabilidade do demônio que se sujeitou a limpar a sujeira que fiz em meu escritório ter esquecido essa mancha em particular ser praticamente inexistente, só me resta acreditar que Izzy fez isso de propósito. vaca!

"Hmmm… acho que eu posso explicar…"

mas ela não quer ouvir. sequer presta atenção em minha tentativa mal articulada de dizer que estive numa lanchonete de fast-food e derramei katchup na ferramenta sem querer.

saio de lá mais ou menos como cheguei. a esperança que restava de deitar com amélia anulada, a outra, de receber o restante do dinheiro e tentar comprar o tão almejado laptop, esquecida.

decido fazer uma última coisa antes de considerar o caso encerrado de vez.

**************************************

ele não sabe que eu sei. talvez, esse tempo todo, essa tenha sido a única vantagem que tive em relação a ele. eu o investiguei. faz tempo, mas lembro do suficiente pra chegar a sua casa e me instalar confortavelmente num sofá puído que já tomou a forma de seu corpo, inclusive nos braços.

quando nos conhecemos, senti que éramos almas gêmeas, mas sem a conotação frutífera possível de tempos modernos. ainda assim era neurótico o suficiente pra querer saber com quem andava. apesar das conexões estranhas com um número assustador de tipos esquisitos e fornecedores de artigos não muito convencionais, vi que tinha ficha limpa e se não fosse pelo que mencionei, poderia ser um cidadão modelo.

enquanto ele não dá as caras, faço um balanço rápido dos acontecimentos recentes e me dou conta de que tirei a vida de outra pessoa. não importa de verdade que celso fosse um lixo e talvez estivesse conspirando pro fim do mundo como nós o conhecemos. só consigo pensar no osso estalando sob o peso da marreta, a massa encefálica se derramando no chão do escritório como a gema de um ovo… cinzenta e pegajosa. e o que será de vânia? e todas as outras possibilidades que deixaram de existir no momento em que ele fechou os olhos pela última vez.

daí lembro o que estava na balança.

minha vida.

decidi que gosto demais de viver pra entregar o único bem precioso que tenho pro primeiro assassino que se apresente. não é querer tapar o sol com a peneira pensar assim. vendo dessa perspectiva, só posso pensar que fiz o melhor, que qualquer outra atitude teria resultados negativos.

a relíquia maculada pode não ter mais valor pra ordem. talvez valha alguma coisa pra outras pessoas. colecionadores de antigüidades, por exemplo. o cravo, por outro lado, meio que esqueci de mencionar pra amélia. talvez por ter fresco na memória o efeito que sexo com izzy tem quando o objeto está perto de minha pele.

então ele chega e interrompe minha divagação:

"Bono?"

39.

December 20, 2006

e ela aparece. magneticamente bela, mas completamente indefinível.

entra na minha sala, olha para o corpo de celso estendido no chão, e se agacha ao lado dele, acariciando as redondezas da cratera que abri em seu crânio.

"Ah, Celso. Pobre Celso. Parece que não foi desta vez, não é mesmo?"

"Peraí, Izzy, cê conhece esse cara?"

"Claro que conheço."

"Como?"

"Além de ter visto ele (e te contei isso) um sem-número de vezes no FlorAmor, como você acha que ele soube que você estava com a Marreta?"

"Você me traiu, sua filha-da-puta? É isso? Você me entregou? Mas… eu pensei que a gente… tava numa boa."

"E estamos, ué!"

ela se levanta e vem na minha direção.

"Ah, é? Putz, nem quero saber como vai ser quando a gente brigar."

"Acho melhor não querer mesmo."

"…"

"Olha, Lucas, as coisas não são tão simples como parecem. Mas agora vão ficar, certo?"

"Não."

"Imaginei. Digamos que eu também trabalhe para alguém que está interessado nessa coisa aí."

ela aponta para a marreta que ainda está no chão.

"Já entendi tudo."

"Não entendeu não, seu bobinho."

nem preciso dizer que, não fosse o cadáver com o crânio esfacelado que continuava sangrando em meu carpete, eu já estaria tendo uma ereção com o biquinho que ela faz ao dizer bobinho.

"O que é um peido para quem já está cagado, não é?"

saiu, de repente. deve ser algum resquício da técnica que desenvolvi às pressas para confrontar celso.

"Você acha que eu te prejudiquei? Bom, talvez. Mas eu vejo a coisa por um outro ângulo."

"Que seria?"

"Você já parou para pensar que, se eu quisesse te matar, teria feito isso eu mesma?"

"Na verdade, não."

"Pois é. Não fiz. Porque gosto de você. De verdade. Mas, como tinha dito antes, também tenho que prestar contas. Se interviesse a seu favor, as coisas poderiam não ficar muito boas para o meu lado, entende?"

"Mas… se ele tivesse me matado, porra?"

"Ossos do ofício. Meu negócio com ele era bem anterior a você. E eu sabia que você tinha uma chance."

"Como assim ‘anterior’."

"Guarde seus ciúmes para você, Profit. Você não comeu a mulher dele?"

"E o que tem uma coisa a ver com a outra."

"Olho por olho, dente por dente."

"Pô, Izzy, não acredito que você teve coragem de…"

"Meu caro, eu tenho coragem de fazer coisas que você nem imagina. Mas pode ficar tranqüilo. Ele não beijou minha bunda, se é o que você quer saber."

"Pô, Izzy, isso é hora para fazer brincadeira?"

"Para mim, é. Eu sou um demônio, esqueceu?"

"Esqueci e preferia que tivesse continuado assim. Tá, mas então agora você vai levar essa desgraça dessa marreta embora, é isso?"

"Não, não é isso. Você ganhou o direito de portar a ferramenta numa luta justa. Existem regras e nós temos que cumpri-las."

"Hein?"

"Somos perversos, mas somos justos."

"Ah, tá. Então, tá."

acho que estou em estado de choque.

"Não se preocupe. Dou um jeito nessa bagunça. Mas vou pedir, encarecidamente, que você suma com essa coisa daqui."

nem pestanejo.

é óbvio que ela não fala de frater hieronymus nem da coisa que seria invocada pra nossa dimensão usando a marreta como âncora. isso descubro depois. mas como posso estar falando de um negócio que não aconteceu ainda? essas tais relíquias parecem afetar minha percepção de tempo e espaço mais do que o quartilho de jack que carrego em meu bolso e que, curiosamente, ainda não acabou. parece ter sempre um golinho a mais pra ser tomado. às vezes mais, às vezes menos.

38.

December 16, 2006

"Já entreguei."

pela sua expressão, ele não acreditou.

"Pode acreditar. Já está nas mãos da carolada."

"E como você entregou para eles? Teletransporte?"

caralho. ele me seguiu mesmo.

"Escuta, Lucas. Não é só você que tem contatos quentes por aí, entende? Tentar me enrolar, assim, é perda de tempo. Sei que a Marreta está por aqui. Me entregue que minha paciência já está acabando."

engraçada a maneira como ele pronunciou marreta. deu até pra ‘ouvir’ o m maíusculo. solene. e que história é essa de contatos quentes?

graças a minha inteligência, deixei o embrulho em cima da minha escrivaninha. celso deve estar drogado (se entrou na atmosfera nauseabunda do prédio do zumbi, se explica) ou algo do tipo, porque já olhou naquela direção um punhado de vezes e até agora não manifestou qualquer interesse no que está dentro daquele monte de tecido fedorento. me lembro de indiana jones e a última cruzada. será que ele também pensa que a marreta é igual ao martelo do thor?

pela primeira vez em muito tempo faço algo que, sei, vai chamar a atenção de celso: coço o saco. ele é do tipo que não admite atitudes que considere da classe mais desprestigiada sendo tomadas na sua frente.

seus olhos me fuzilam. sua atenção está concentrada na minha virilha e na mão que sobe e desce pela área da calça correspondente aos pêlos púbicos. ele estremece. parece um remake de outro filme do cronemberg, ’scanners’, dessa vez. o subtítulo seria ’sua mão no saco pode destruir’.

é claro que aproveito a distração pra, num passe de mágica, me aproximar da mesa, meter a mão no embrulho fedido e sentir o cabo da marreta.

então tudo se ilumina e a única descrição possível pro que acontece a seguir é uma experiência religiosa.

pode?

a clareza com que enxergo a cena se multiplica rapidamente… não confundir com claridade, faz favor. as engrenagens em meu cérebro giram em velocidade vertiginosa.

o que faço na seqüência é mais ou menos isso:

não há confronto, não há discurso, não há acerto de contas nem trilha sonora, não há gotículas de suor deslizando pela pele nem close nos rostos. há apenas o golpe.

a marreta, que antes parecia mais pesada, descreve, com a minha mão presa ao cabo, um arco quase perfeito que termina na cabeça de celso. antes fosse como nos filmes, onde não há ação e reação, onde as leis da física são ignoradas em nome da estética, onde não seria possível sentir o baque do metal milenar contra o osso esfacelado que antes abrigava o cérebro do meu oponente. onde não seria possível ouvir o ruído deste mesmo osso se esfacelando. onde não seria possível - e acho que aqui é a pior opção de todas - sentir o cheiro que os miolos de um homem espalhados pelo carpete exalam.

embora minha mente insista, meu corpo se recusa a vomitar. deixo a marreta no chão. não sei o que fazer.

sento na cadeira e penso em Izzy.

37.

December 13, 2006

alguém bate na porta. estou muito cansado para me levantar. a possibilidade de ser mais uma freira em apuros metafísicos é demais para o meu colesterol e por um instante, hesito. contudo, essa pessoa pode ser meu passaporte para o mundo das coisas normais, dos maridos traídos e das tocaias em motéis baratos. ou então, pode ser simplesmente o zelador trazendo mais uma conta atrasada.

decido abrir.

me arrependo.

do lado de fora está celso, empunhando a mesma pistola lindíssima que apontou para a cabeça de Lúcio, dias atrás, e que nem cogito estar descarregada. a pistola, a propósito, está apontada para uma região do meu corpo repleta de orgãos vitais, e acho que apenas um tiro bastaria para me mandar desta para a melhor. o que eu digo agora?

"Hã… oi, Celso. O que o traz aqui?"

"O que você acha?"

"Sinceramente? Não sei. Olha, se é sobre aquele assunto, acho que a gente já tinha se acertado…"

"Esqueça isso, Lucas. Se está falando da Vânia, você já teve o que mereceu. Estou aqui para falar de algo muito mais importante. Posso entrar?"

"Se eu disser que não você vai atirar em mim?’

"Certamente."

"Num local público?"

"Não vi ninguém desde que entrei nesse pardieiro. E eu já fui da polícia, esqueceu?"

"Então, entre, por favor."

tomo uma coronhada no lado esquerdo da testa. se fosse um filme noir legítimo, seria uma ótima oportunidade para tentar desarmar meu desafeto. mas, como estamos no mundo real, sei que as chances estão contra mim, e acho melhor engolir o impropério que já está na ponta da língua.

"Eu detesto seu sarcasmo."

"Eu percebi."

outra coronhada, desta vez na nuca. acho melhor ficar calado.

"Vamos direto ao ponto. Você tem algo que me interessa."

"O quê?"

"Não se faça de idiota! Você sabe muito bem. Vamos onde está a marreta?"

"Mas, que marreta?"

já me arrependo quando a última letra escapa por entre meus lábios. temo que o indicador dele esteja coçando o suficiente para começar a me encher de chumbo, à moda antiga, aos poucos, com muita dor antes do tiro de misericórdia, estraçalhando articulações e ossos, como faziam os esquadrões da morte dos quais ele certamente participou.

mas, para minha surpresa, ele só dá uma rápida olhada em volta e diz:

"Aquela que você pegou lá na cracolândia."

é isso. o desgraçado me seguiu! não consigo pensar no zumbi, com aquele sorriso desdentado de contentamento, me entregando. não depois que repassei o monturo de dinheiro que Izzy me deu pra ele e aquele montinho enigmaticamente telepático na cama. por outro lado, o dinheiro pode não ser confiável, já que Izzy praticamente o tirou do ar. se bem que, pelo que entendi até agora da assim chamada ‘magia’, tudo é troca, mudança… mesmo o que parece surgir do nada veio de algum lugar.

atribuo às duas coronhadas o raciocínio meio tortuoso.

não sou bom nisso. ainda assim, resolvo blefar.

36.

December 9, 2006

tempos atrás estava tomando botinadas na cara por cobiçar a mulher do próximo ou fazer um pouco mais que isso. agora estou prestes a sair de uma situação em que não sei como me meti e que, bem provável, nunca vou entender. chamar Izzy não seria boa idéia, acho… por causa dos itens do ‘bem’ em meu poder. meu primeiro instinto é ligar para o templo e dar a notícia a amélia. ah… amélia! que boas lembranças esse nome provoca… mas meio que deixei-a de lado depois do rolo com Izzy. sinto culpa. bem pouca, na verdade. mas se entendi direito, Izzy deve andar por aí fazendo com outros o que faz comigo. claro que nosso caso é diferente. tem algo mais. acho. então estamos quites… ou não. porque de repente bateu um ciuminho básico.

decido esperar mais um pouco. vou dar a notícia amanhã. hoje tiro o resto do dia pra descansar. sem desaparecer de lugares estranhos. sem aparecer em lugares estranhos. sem conversar com pessoas estranhas. sem me envolver com coisas estranhas. só uma boa tarde de sono. e, quem sabe, uma noite também.

ela me disse que o lugar está assombrado ou possuído ou coisa que o valha, mas mesmo assim meu destino é certo. um dos bens mais valiosos que possuo está lá: minha cadeira do papai reclinável e cheia de opcionais que eu mesmo instalei.

como de costume, o lugar está um caos só. decido, pra variar um pouco, deixar a desordem imperar e me concentrar no descanso tão merecido, aprazível e outros dois ou três adjetivos em que não consigo pensar agora. tomo um gole generoso de jack. respiro fundo. fecho os olhos. dá certo.

no sonho há um velho cuja pele tem aparência de pergaminho. ele se apóia em um cajado. na ponta do cajado há um lampião pendurado que ilumina tudo, exceto seus olhos. é tudo muito antigo, mesmo. velho, mas dizer isso seria uma repetição desnecessária. só que é. conforme me aproximo, tenho a sensação de que ele se afasta… o que é estranho é que não faz nenhum movimento nesse sentido, só parece mais distante à medida que chego mais perto. ergue uma das mãos e, por sei lá que motivo, imagino que vou ver um gancho ali, mas é só uma mão mesmo. ele aponta na direção de uma rua escura e se move sem se mover por toda a extensão dela… o lampião ilumina um círculo que o acompanha conforme se desloca. eu o sigo. não tenho idéia de qual é minha intenção ao fazê-lo mas faço mesmo assim. reparo que à medida que o ancião avança, luzes elétricas acendem nos postes que eu nem sabia estarem ali. há uma trilha luminescente também no chão. ele finalmente pára. e vejo a coisa que ele quer me mostrar. apesar das mudanças sucessivas a que sua carne elástica, protoplásmica, se submete, há elementos que se repetem, como os lábios azulados, as órbitas vazias e um pênis grande demais pra ser realista. ele parece não ter ossos. nota minha presença farejando o ar… meu medo o atrai. ele urra e salta em minha direção. o ancião ergue o cajado e o golpeia, mas não vejo o golpe e quando abro os olhos novamente…

estou na minha cadeira do papai.

esfrego a vista pra ter certeza de que estou enxergando o que estou enxergando.

tomo mais de jack.

o escritório deve ter se arrumado sozinho.

ou algo assim.

depois vou contar esse sonho a Izzy ou Lúcio e tentar entender se uma coisa está relacionada à outra.

35.

December 6, 2006

a marreta não estava com ele, mas estava nas redondezas. mais cedo do que pensei, desisto de tentar conectar os dados para traçar a trajetória do ‘objeto’ até aqui. como uma relíquia sagrada que é alvo do desejo de sei lá quantas ordens, entidades, pessoas e detetives vem parar aqui, nesse buraco?

subimos e descemos escadas (o edifício não tem eletricidade) e já perdi todas as referências espaciais que vinha tentando armazenar. estamos diante do apartamento, ele me olhando, como se quisesse minha aprovação para bater naquela porta que parece prestes a cair. é nessas horas que sinto que preciso de uma trilha sonora.

"Vai."

ele disse isso?

eu disse?

a atmosfera do lugar parece saturada com algo mais pesado que o ar. um turbilhão dessa poeira que deve ser, sendo quem meu cicerone é, tão tóxica quanto uma boa carreira de coca, me invade as narinas e dispensa uma nova perspectiva ‘a situação insólita.

"Você me mandou entrar?"

"Tá aberta."

a primeira fala que soa relativamente clara da criatura da lagoa de metanfetamina. também, não tem nenhum som sibilante. acho que é aí que ele se complica.

empurro a porta e vejo, pra minha surpresa, que não estamos sozinhos.

uma coisa esquelética e repulsiva se encontra amontoada na cama, em simbiose com lençóis que não são lavados há muuuito tempo. ela tosse. e fala. não entendo o que diz, mas sei que diz alguma coisa. meu guia responde:

"É ele que tem a grana."

…..

"Me dá maish um tempo que vou bushcar, amor."

credo.

o zumbi desaparece em algum recôndito do recinto. fico meio sem saber o que dizer frente à caveira. ela chia. parece que está rindo para mim. entabulo conversa?

"Pode ser." ela diz, sem mover os lábios. está na minha cabeça, mas não como um piolho, como um som que reverbera lento, deslizante e quase causa curto-circuito em minhas sinapses.

é um pouco parecido com sexo ’sem proteção’ (espiritual) com Izzy. transcende a matéria. já não deveria me surpreender com isso, mas começo a suar frio.

só que não tenho a menor vontade de chegar perto da cama.

"Eu entendo."

puta merda! não posso mais nem fazer minha narrativa em off sossegado?

"Eu ouço, eu respondo."

e por que desse jeito?

"Minhas cordas vocais não funcionam mais."

muito espantado que alguma coisa ainda funcione.

"Quer me ofender, é?"

cadê o zumbi que não volta?

"Não chama ele assim, tá. É meu querido."

tá, mas cadê ele?

"Bem aqui."

e ele está embaixo da cama, só suas pernas secas dentro do jeans folgado ainda aparecendo. me pergunto o que ele faz ali.

"Está pegando o que você veio buscar."

ah, tá.

"É verdade que cê anda de intimidade com um súcubo?"

não é da tua conta. pelo que me disseram, parece que você também andou, não?

ela chia, mais aguda desta vez.

"Mas o que é um súcubo?"

pensei que o pessoal ‘alternativo’ soubesse tudo dessas paradas ocultistas.

"Quem aqui é alternativo?"

bom, vai me dizer que teu estilo de vida condiz com o ’status quo’?

tenho a impressão de que se fizer ela chiar mais uma vez, mato a coitadinha.

"Talvez mate mesmo."

saco. o zumbi sai debaixo da cama, com uma coisa enrolada num trapo velho e malcheiroso, condizendo totalmente com o restante do ambiente.

"Olha ela aqui." , ele diz.

achei que fosse mais pesada. e mais bonita. não me parece muito uma relíquia sagrada. na verdade, imaginei mais algo como o martelo do Thor. Ou coisa do tipo.

"Não precisa duvidar. Se quiser confirmar, pode levar e nos trazer o dinheiro depois. Eu confio em você.", dessa vez, é o montinho na cama quem fala.

isso deve ser algum truque de psicologia infantil. imediatamente passo o valor combinado para as mãos do zumbi.

é como se mais um capítulo na minha vida se encerrasse agora.

34.

December 3, 2006

daí penso: izzy parece não se importar com o fato de eu estar me sentindo bem. e percebo que ‘pensei’ depois de muito tempo sem fazê-lo. tipo de coisa que não parece coerente de se dizer. ’se ela fosse do mal’, digo pra mim mesmo, ‘não estaria interessada em me ver gasto?’ e percebo, mais uma vez, que ela não parece se importar, o que me faz pensar que, de fato, gosta de mim, apesar de minhas pisadas na bola, de eu não ser exatamente o mais competente dos investigadores e de não fumar como bogart. e, pela primeira vez, percebo que tenho carinho por ela. e prefiro pensar nela só como ‘ela’, mesmo, apesar do que os outros dizem.

"Izzy…"

"Que cê quer agora, Profit?"

"Gosto de você, garota."

"Eu sei."

então, como se não tivesse estado lá todo o tempo, ela deixa um vazio súbito e o ar que a cercava trata de preenchê-lo. ainda tenho uma ou duas coisas a fazer antes de dar o caso da marreta por encerrado mas acho que estou com tudo bem encaminhado. melhor do que estava com a ‘ajuda’ de Lúcio, pelo menos. tudo ao seu redor parece adquirir um ar de complexidade desnecessário. um truque dentro de uma farsa no interior de um segredo. ou algo assim. prefiro a simplicidade, a banalidade das coisas. é pra onde meu instinto me guia.

percorro o caminho até a zona no centro a pé, sem pressa, como se fosse meu destino desde o princípio. minha mente está desanuviada e em foco. na certa a presença do prego em meu bolso tem alguma influência nisso. ou o fato de ter feito sexo recentemente. ou o gole prolongado de jack.

respiro fundo.

não hesito.

bato na porta do meio em que um dos habitantes da crackolândia local disse que encontraria meu zumbi. ouço o som de alguém que se arrasta muito devagar lá dentro. depois, uma mão pegajosa que se estende… é possível ouvir um som pegajoso? acho que sim porque é o que ouço e minha audição é danada de boa. a maçaneta gira. a porta range. tudo parece tirado de um filme de terror barato. mas esperar o quê? estou lidando com o autêntico zumbi da metanfetamina.

ele surge em todo seu glorioso horror. o horror real, que te mantém acordado ‘a noite checando os dentes pra ter certeza de que ainda estão lá, de que não foram levados por uma fada dos dentes macabra.

o sorriso banguela, as crostas de saliva seca nos cantos da boca… sim, é horrível, ele parece ter me reconhecido.

"Quanto?" pergunto sem deixá-lo respirar (apesar de minha incerteza quanto ‘a sua necessidade de fazê-lo).

"Du quié que chê tá falando?"

é ele mesmo. a dicção impecável.

"Da marreta."

"Ai, é o schenhor, schenhor Póft?! Dishculpa! Não tinha rechonheschido."

imagino como seria difícil escrever do jeito que ele fala. mas não muito que prezo minha sanidade.

"Eu dische que ela ishtava comigo?"

"Não. Disse que tinha informação sobre ela."

"Bom. E o schenhor tem dinheiro? Poscho dixer daqui! Schinto o scheiro!"

"Vamos com isso que preciso me livrar desse serviço o mais depressa possível."

"Scherto. Scheus problemaish acabaram."

me pergunto o que isso significa. ele gesticula pra que eu entre.

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