Labirinto

December 3, 2006

34.

Filed under: K.I.S.S.

daí penso: izzy parece não se importar com o fato de eu estar me sentindo bem. e percebo que ‘pensei’ depois de muito tempo sem fazê-lo. tipo de coisa que não parece coerente de se dizer. ’se ela fosse do mal’, digo pra mim mesmo, ‘não estaria interessada em me ver gasto?’ e percebo, mais uma vez, que ela não parece se importar, o que me faz pensar que, de fato, gosta de mim, apesar de minhas pisadas na bola, de eu não ser exatamente o mais competente dos investigadores e de não fumar como bogart. e, pela primeira vez, percebo que tenho carinho por ela. e prefiro pensar nela só como ‘ela’, mesmo, apesar do que os outros dizem.

"Izzy…"

"Que cê quer agora, Profit?"

"Gosto de você, garota."

"Eu sei."

então, como se não tivesse estado lá todo o tempo, ela deixa um vazio súbito e o ar que a cercava trata de preenchê-lo. ainda tenho uma ou duas coisas a fazer antes de dar o caso da marreta por encerrado mas acho que estou com tudo bem encaminhado. melhor do que estava com a ‘ajuda’ de Lúcio, pelo menos. tudo ao seu redor parece adquirir um ar de complexidade desnecessário. um truque dentro de uma farsa no interior de um segredo. ou algo assim. prefiro a simplicidade, a banalidade das coisas. é pra onde meu instinto me guia.

percorro o caminho até a zona no centro a pé, sem pressa, como se fosse meu destino desde o princípio. minha mente está desanuviada e em foco. na certa a presença do prego em meu bolso tem alguma influência nisso. ou o fato de ter feito sexo recentemente. ou o gole prolongado de jack.

respiro fundo.

não hesito.

bato na porta do meio em que um dos habitantes da crackolândia local disse que encontraria meu zumbi. ouço o som de alguém que se arrasta muito devagar lá dentro. depois, uma mão pegajosa que se estende… é possível ouvir um som pegajoso? acho que sim porque é o que ouço e minha audição é danada de boa. a maçaneta gira. a porta range. tudo parece tirado de um filme de terror barato. mas esperar o quê? estou lidando com o autêntico zumbi da metanfetamina.

ele surge em todo seu glorioso horror. o horror real, que te mantém acordado ‘a noite checando os dentes pra ter certeza de que ainda estão lá, de que não foram levados por uma fada dos dentes macabra.

o sorriso banguela, as crostas de saliva seca nos cantos da boca… sim, é horrível, ele parece ter me reconhecido.

"Quanto?" pergunto sem deixá-lo respirar (apesar de minha incerteza quanto ‘a sua necessidade de fazê-lo).

"Du quié que chê tá falando?"

é ele mesmo. a dicção impecável.

"Da marreta."

"Ai, é o schenhor, schenhor Póft?! Dishculpa! Não tinha rechonheschido."

imagino como seria difícil escrever do jeito que ele fala. mas não muito que prezo minha sanidade.

"Eu dische que ela ishtava comigo?"

"Não. Disse que tinha informação sobre ela."

"Bom. E o schenhor tem dinheiro? Poscho dixer daqui! Schinto o scheiro!"

"Vamos com isso que preciso me livrar desse serviço o mais depressa possível."

"Scherto. Scheus problemaish acabaram."

me pergunto o que isso significa. ele gesticula pra que eu entre.

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