35.
a marreta não estava com ele, mas estava nas redondezas. mais cedo do que pensei, desisto de tentar conectar os dados para traçar a trajetória do ‘objeto’ até aqui. como uma relíquia sagrada que é alvo do desejo de sei lá quantas ordens, entidades, pessoas e detetives vem parar aqui, nesse buraco?
subimos e descemos escadas (o edifício não tem eletricidade) e já perdi todas as referências espaciais que vinha tentando armazenar. estamos diante do apartamento, ele me olhando, como se quisesse minha aprovação para bater naquela porta que parece prestes a cair. é nessas horas que sinto que preciso de uma trilha sonora.
"Vai."
ele disse isso?
eu disse?
a atmosfera do lugar parece saturada com algo mais pesado que o ar. um turbilhão dessa poeira que deve ser, sendo quem meu cicerone é, tão tóxica quanto uma boa carreira de coca, me invade as narinas e dispensa uma nova perspectiva ‘a situação insólita.
"Você me mandou entrar?"
"Tá aberta."
a primeira fala que soa relativamente clara da criatura da lagoa de metanfetamina. também, não tem nenhum som sibilante. acho que é aí que ele se complica.
empurro a porta e vejo, pra minha surpresa, que não estamos sozinhos.
uma coisa esquelética e repulsiva se encontra amontoada na cama, em simbiose com lençóis que não são lavados há muuuito tempo. ela tosse. e fala. não entendo o que diz, mas sei que diz alguma coisa. meu guia responde:
"É ele que tem a grana."
…..
"Me dá maish um tempo que vou bushcar, amor."
credo.
o zumbi desaparece em algum recôndito do recinto. fico meio sem saber o que dizer frente à caveira. ela chia. parece que está rindo para mim. entabulo conversa?
"Pode ser." ela diz, sem mover os lábios. está na minha cabeça, mas não como um piolho, como um som que reverbera lento, deslizante e quase causa curto-circuito em minhas sinapses.
é um pouco parecido com sexo ’sem proteção’ (espiritual) com Izzy. transcende a matéria. já não deveria me surpreender com isso, mas começo a suar frio.
só que não tenho a menor vontade de chegar perto da cama.
"Eu entendo."
puta merda! não posso mais nem fazer minha narrativa em off sossegado?
"Eu ouço, eu respondo."
e por que desse jeito?
"Minhas cordas vocais não funcionam mais."
muito espantado que alguma coisa ainda funcione.
"Quer me ofender, é?"
cadê o zumbi que não volta?
"Não chama ele assim, tá. É meu querido."
tá, mas cadê ele?
"Bem aqui."
e ele está embaixo da cama, só suas pernas secas dentro do jeans folgado ainda aparecendo. me pergunto o que ele faz ali.
"Está pegando o que você veio buscar."
ah, tá.
"É verdade que cê anda de intimidade com um súcubo?"
não é da tua conta. pelo que me disseram, parece que você também andou, não?
ela chia, mais aguda desta vez.
"Mas o que é um súcubo?"
pensei que o pessoal ‘alternativo’ soubesse tudo dessas paradas ocultistas.
"Quem aqui é alternativo?"
bom, vai me dizer que teu estilo de vida condiz com o ’status quo’?
tenho a impressão de que se fizer ela chiar mais uma vez, mato a coitadinha.
"Talvez mate mesmo."
saco. o zumbi sai debaixo da cama, com uma coisa enrolada num trapo velho e malcheiroso, condizendo totalmente com o restante do ambiente.
"Olha ela aqui." , ele diz.
achei que fosse mais pesada. e mais bonita. não me parece muito uma relíquia sagrada. na verdade, imaginei mais algo como o martelo do Thor. Ou coisa do tipo.
"Não precisa duvidar. Se quiser confirmar, pode levar e nos trazer o dinheiro depois. Eu confio em você.", dessa vez, é o montinho na cama quem fala.
isso deve ser algum truque de psicologia infantil. imediatamente passo o valor combinado para as mãos do zumbi.
é como se mais um capítulo na minha vida se encerrasse agora.
