Labirinto

December 9, 2006

36.

Filed under: K.I.S.S.

tempos atrás estava tomando botinadas na cara por cobiçar a mulher do próximo ou fazer um pouco mais que isso. agora estou prestes a sair de uma situação em que não sei como me meti e que, bem provável, nunca vou entender. chamar Izzy não seria boa idéia, acho… por causa dos itens do ‘bem’ em meu poder. meu primeiro instinto é ligar para o templo e dar a notícia a amélia. ah… amélia! que boas lembranças esse nome provoca… mas meio que deixei-a de lado depois do rolo com Izzy. sinto culpa. bem pouca, na verdade. mas se entendi direito, Izzy deve andar por aí fazendo com outros o que faz comigo. claro que nosso caso é diferente. tem algo mais. acho. então estamos quites… ou não. porque de repente bateu um ciuminho básico.

decido esperar mais um pouco. vou dar a notícia amanhã. hoje tiro o resto do dia pra descansar. sem desaparecer de lugares estranhos. sem aparecer em lugares estranhos. sem conversar com pessoas estranhas. sem me envolver com coisas estranhas. só uma boa tarde de sono. e, quem sabe, uma noite também.

ela me disse que o lugar está assombrado ou possuído ou coisa que o valha, mas mesmo assim meu destino é certo. um dos bens mais valiosos que possuo está lá: minha cadeira do papai reclinável e cheia de opcionais que eu mesmo instalei.

como de costume, o lugar está um caos só. decido, pra variar um pouco, deixar a desordem imperar e me concentrar no descanso tão merecido, aprazível e outros dois ou três adjetivos em que não consigo pensar agora. tomo um gole generoso de jack. respiro fundo. fecho os olhos. dá certo.

no sonho há um velho cuja pele tem aparência de pergaminho. ele se apóia em um cajado. na ponta do cajado há um lampião pendurado que ilumina tudo, exceto seus olhos. é tudo muito antigo, mesmo. velho, mas dizer isso seria uma repetição desnecessária. só que é. conforme me aproximo, tenho a sensação de que ele se afasta… o que é estranho é que não faz nenhum movimento nesse sentido, só parece mais distante à medida que chego mais perto. ergue uma das mãos e, por sei lá que motivo, imagino que vou ver um gancho ali, mas é só uma mão mesmo. ele aponta na direção de uma rua escura e se move sem se mover por toda a extensão dela… o lampião ilumina um círculo que o acompanha conforme se desloca. eu o sigo. não tenho idéia de qual é minha intenção ao fazê-lo mas faço mesmo assim. reparo que à medida que o ancião avança, luzes elétricas acendem nos postes que eu nem sabia estarem ali. há uma trilha luminescente também no chão. ele finalmente pára. e vejo a coisa que ele quer me mostrar. apesar das mudanças sucessivas a que sua carne elástica, protoplásmica, se submete, há elementos que se repetem, como os lábios azulados, as órbitas vazias e um pênis grande demais pra ser realista. ele parece não ter ossos. nota minha presença farejando o ar… meu medo o atrai. ele urra e salta em minha direção. o ancião ergue o cajado e o golpeia, mas não vejo o golpe e quando abro os olhos novamente…

estou na minha cadeira do papai.

esfrego a vista pra ter certeza de que estou enxergando o que estou enxergando.

tomo mais de jack.

o escritório deve ter se arrumado sozinho.

ou algo assim.

depois vou contar esse sonho a Izzy ou Lúcio e tentar entender se uma coisa está relacionada à outra.

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