37.
alguém bate na porta. estou muito cansado para me levantar. a possibilidade de ser mais uma freira em apuros metafísicos é demais para o meu colesterol e por um instante, hesito. contudo, essa pessoa pode ser meu passaporte para o mundo das coisas normais, dos maridos traídos e das tocaias em motéis baratos. ou então, pode ser simplesmente o zelador trazendo mais uma conta atrasada.
decido abrir.
me arrependo.
do lado de fora está celso, empunhando a mesma pistola lindíssima que apontou para a cabeça de Lúcio, dias atrás, e que nem cogito estar descarregada. a pistola, a propósito, está apontada para uma região do meu corpo repleta de orgãos vitais, e acho que apenas um tiro bastaria para me mandar desta para a melhor. o que eu digo agora?
"Hã… oi, Celso. O que o traz aqui?"
"O que você acha?"
"Sinceramente? Não sei. Olha, se é sobre aquele assunto, acho que a gente já tinha se acertado…"
"Esqueça isso, Lucas. Se está falando da Vânia, você já teve o que mereceu. Estou aqui para falar de algo muito mais importante. Posso entrar?"
"Se eu disser que não você vai atirar em mim?’
"Certamente."
"Num local público?"
"Não vi ninguém desde que entrei nesse pardieiro. E eu já fui da polícia, esqueceu?"
"Então, entre, por favor."
tomo uma coronhada no lado esquerdo da testa. se fosse um filme noir legítimo, seria uma ótima oportunidade para tentar desarmar meu desafeto. mas, como estamos no mundo real, sei que as chances estão contra mim, e acho melhor engolir o impropério que já está na ponta da língua.
"Eu detesto seu sarcasmo."
"Eu percebi."
outra coronhada, desta vez na nuca. acho melhor ficar calado.
"Vamos direto ao ponto. Você tem algo que me interessa."
"O quê?"
"Não se faça de idiota! Você sabe muito bem. Vamos onde está a marreta?"
"Mas, que marreta?"
já me arrependo quando a última letra escapa por entre meus lábios. temo que o indicador dele esteja coçando o suficiente para começar a me encher de chumbo, à moda antiga, aos poucos, com muita dor antes do tiro de misericórdia, estraçalhando articulações e ossos, como faziam os esquadrões da morte dos quais ele certamente participou.
mas, para minha surpresa, ele só dá uma rápida olhada em volta e diz:
"Aquela que você pegou lá na cracolândia."
é isso. o desgraçado me seguiu! não consigo pensar no zumbi, com aquele sorriso desdentado de contentamento, me entregando. não depois que repassei o monturo de dinheiro que Izzy me deu pra ele e aquele montinho enigmaticamente telepático na cama. por outro lado, o dinheiro pode não ser confiável, já que Izzy praticamente o tirou do ar. se bem que, pelo que entendi até agora da assim chamada ‘magia’, tudo é troca, mudança… mesmo o que parece surgir do nada veio de algum lugar.
atribuo às duas coronhadas o raciocínio meio tortuoso.
não sou bom nisso. ainda assim, resolvo blefar.
