Labirinto

December 16, 2006

38.

Filed under: K.I.S.S.

"Já entreguei."

pela sua expressão, ele não acreditou.

"Pode acreditar. Já está nas mãos da carolada."

"E como você entregou para eles? Teletransporte?"

caralho. ele me seguiu mesmo.

"Escuta, Lucas. Não é só você que tem contatos quentes por aí, entende? Tentar me enrolar, assim, é perda de tempo. Sei que a Marreta está por aqui. Me entregue que minha paciência já está acabando."

engraçada a maneira como ele pronunciou marreta. deu até pra ‘ouvir’ o m maíusculo. solene. e que história é essa de contatos quentes?

graças a minha inteligência, deixei o embrulho em cima da minha escrivaninha. celso deve estar drogado (se entrou na atmosfera nauseabunda do prédio do zumbi, se explica) ou algo do tipo, porque já olhou naquela direção um punhado de vezes e até agora não manifestou qualquer interesse no que está dentro daquele monte de tecido fedorento. me lembro de indiana jones e a última cruzada. será que ele também pensa que a marreta é igual ao martelo do thor?

pela primeira vez em muito tempo faço algo que, sei, vai chamar a atenção de celso: coço o saco. ele é do tipo que não admite atitudes que considere da classe mais desprestigiada sendo tomadas na sua frente.

seus olhos me fuzilam. sua atenção está concentrada na minha virilha e na mão que sobe e desce pela área da calça correspondente aos pêlos púbicos. ele estremece. parece um remake de outro filme do cronemberg, ’scanners’, dessa vez. o subtítulo seria ’sua mão no saco pode destruir’.

é claro que aproveito a distração pra, num passe de mágica, me aproximar da mesa, meter a mão no embrulho fedido e sentir o cabo da marreta.

então tudo se ilumina e a única descrição possível pro que acontece a seguir é uma experiência religiosa.

pode?

a clareza com que enxergo a cena se multiplica rapidamente… não confundir com claridade, faz favor. as engrenagens em meu cérebro giram em velocidade vertiginosa.

o que faço na seqüência é mais ou menos isso:

não há confronto, não há discurso, não há acerto de contas nem trilha sonora, não há gotículas de suor deslizando pela pele nem close nos rostos. há apenas o golpe.

a marreta, que antes parecia mais pesada, descreve, com a minha mão presa ao cabo, um arco quase perfeito que termina na cabeça de celso. antes fosse como nos filmes, onde não há ação e reação, onde as leis da física são ignoradas em nome da estética, onde não seria possível sentir o baque do metal milenar contra o osso esfacelado que antes abrigava o cérebro do meu oponente. onde não seria possível ouvir o ruído deste mesmo osso se esfacelando. onde não seria possível - e acho que aqui é a pior opção de todas - sentir o cheiro que os miolos de um homem espalhados pelo carpete exalam.

embora minha mente insista, meu corpo se recusa a vomitar. deixo a marreta no chão. não sei o que fazer.

sento na cadeira e penso em Izzy.

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