Labirinto

December 20, 2006

39.

Filed under: K.I.S.S.

e ela aparece. magneticamente bela, mas completamente indefinível.

entra na minha sala, olha para o corpo de celso estendido no chão, e se agacha ao lado dele, acariciando as redondezas da cratera que abri em seu crânio.

"Ah, Celso. Pobre Celso. Parece que não foi desta vez, não é mesmo?"

"Peraí, Izzy, cê conhece esse cara?"

"Claro que conheço."

"Como?"

"Além de ter visto ele (e te contei isso) um sem-número de vezes no FlorAmor, como você acha que ele soube que você estava com a Marreta?"

"Você me traiu, sua filha-da-puta? É isso? Você me entregou? Mas… eu pensei que a gente… tava numa boa."

"E estamos, ué!"

ela se levanta e vem na minha direção.

"Ah, é? Putz, nem quero saber como vai ser quando a gente brigar."

"Acho melhor não querer mesmo."

"…"

"Olha, Lucas, as coisas não são tão simples como parecem. Mas agora vão ficar, certo?"

"Não."

"Imaginei. Digamos que eu também trabalhe para alguém que está interessado nessa coisa aí."

ela aponta para a marreta que ainda está no chão.

"Já entendi tudo."

"Não entendeu não, seu bobinho."

nem preciso dizer que, não fosse o cadáver com o crânio esfacelado que continuava sangrando em meu carpete, eu já estaria tendo uma ereção com o biquinho que ela faz ao dizer bobinho.

"O que é um peido para quem já está cagado, não é?"

saiu, de repente. deve ser algum resquício da técnica que desenvolvi às pressas para confrontar celso.

"Você acha que eu te prejudiquei? Bom, talvez. Mas eu vejo a coisa por um outro ângulo."

"Que seria?"

"Você já parou para pensar que, se eu quisesse te matar, teria feito isso eu mesma?"

"Na verdade, não."

"Pois é. Não fiz. Porque gosto de você. De verdade. Mas, como tinha dito antes, também tenho que prestar contas. Se interviesse a seu favor, as coisas poderiam não ficar muito boas para o meu lado, entende?"

"Mas… se ele tivesse me matado, porra?"

"Ossos do ofício. Meu negócio com ele era bem anterior a você. E eu sabia que você tinha uma chance."

"Como assim ‘anterior’."

"Guarde seus ciúmes para você, Profit. Você não comeu a mulher dele?"

"E o que tem uma coisa a ver com a outra."

"Olho por olho, dente por dente."

"Pô, Izzy, não acredito que você teve coragem de…"

"Meu caro, eu tenho coragem de fazer coisas que você nem imagina. Mas pode ficar tranqüilo. Ele não beijou minha bunda, se é o que você quer saber."

"Pô, Izzy, isso é hora para fazer brincadeira?"

"Para mim, é. Eu sou um demônio, esqueceu?"

"Esqueci e preferia que tivesse continuado assim. Tá, mas então agora você vai levar essa desgraça dessa marreta embora, é isso?"

"Não, não é isso. Você ganhou o direito de portar a ferramenta numa luta justa. Existem regras e nós temos que cumpri-las."

"Hein?"

"Somos perversos, mas somos justos."

"Ah, tá. Então, tá."

acho que estou em estado de choque.

"Não se preocupe. Dou um jeito nessa bagunça. Mas vou pedir, encarecidamente, que você suma com essa coisa daqui."

nem pestanejo.

é óbvio que ela não fala de frater hieronymus nem da coisa que seria invocada pra nossa dimensão usando a marreta como âncora. isso descubro depois. mas como posso estar falando de um negócio que não aconteceu ainda? essas tais relíquias parecem afetar minha percepção de tempo e espaço mais do que o quartilho de jack que carrego em meu bolso e que, curiosamente, ainda não acabou. parece ter sempre um golinho a mais pra ser tomado. às vezes mais, às vezes menos.

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