Labirinto

December 23, 2006

40.

Filed under: K.I.S.S.

não me esforço para esconder a decepção que sinto com a indiferença de amélia. suas pupilas castanhíssimas me examinam por alguns segundos e é como se ela lesse minha mente.

"Desculpe, Lucas, mas não posso aceitar."

"Hã?"

"Não posso aceitar a Marreta nestas condições."

"Como assim, Amélia? Você não me contratou para encontrá-la?"

"Contratei. Mas esperava tê-la de volta como ela saiu daqui."

"E não tá?"

"Não."

será que ela lê mentes mesmo? depois da minha experiência com a namorada da criatura da lagoa de metanfetamina, considero isso muito provável.

"Por quê?"

"Essa mancha de sangue enorme não estava aqui antes. Alguém conspurcou a relíquia. Não foi você Lucas, foi?"

como acho a probabilidade do demônio que se sujeitou a limpar a sujeira que fiz em meu escritório ter esquecido essa mancha em particular ser praticamente inexistente, só me resta acreditar que Izzy fez isso de propósito. vaca!

"Hmmm… acho que eu posso explicar…"

mas ela não quer ouvir. sequer presta atenção em minha tentativa mal articulada de dizer que estive numa lanchonete de fast-food e derramei katchup na ferramenta sem querer.

saio de lá mais ou menos como cheguei. a esperança que restava de deitar com amélia anulada, a outra, de receber o restante do dinheiro e tentar comprar o tão almejado laptop, esquecida.

decido fazer uma última coisa antes de considerar o caso encerrado de vez.

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ele não sabe que eu sei. talvez, esse tempo todo, essa tenha sido a única vantagem que tive em relação a ele. eu o investiguei. faz tempo, mas lembro do suficiente pra chegar a sua casa e me instalar confortavelmente num sofá puído que já tomou a forma de seu corpo, inclusive nos braços.

quando nos conhecemos, senti que éramos almas gêmeas, mas sem a conotação frutífera possível de tempos modernos. ainda assim era neurótico o suficiente pra querer saber com quem andava. apesar das conexões estranhas com um número assustador de tipos esquisitos e fornecedores de artigos não muito convencionais, vi que tinha ficha limpa e se não fosse pelo que mencionei, poderia ser um cidadão modelo.

enquanto ele não dá as caras, faço um balanço rápido dos acontecimentos recentes e me dou conta de que tirei a vida de outra pessoa. não importa de verdade que celso fosse um lixo e talvez estivesse conspirando pro fim do mundo como nós o conhecemos. só consigo pensar no osso estalando sob o peso da marreta, a massa encefálica se derramando no chão do escritório como a gema de um ovo… cinzenta e pegajosa. e o que será de vânia? e todas as outras possibilidades que deixaram de existir no momento em que ele fechou os olhos pela última vez.

daí lembro o que estava na balança.

minha vida.

decidi que gosto demais de viver pra entregar o único bem precioso que tenho pro primeiro assassino que se apresente. não é querer tapar o sol com a peneira pensar assim. vendo dessa perspectiva, só posso pensar que fiz o melhor, que qualquer outra atitude teria resultados negativos.

a relíquia maculada pode não ter mais valor pra ordem. talvez valha alguma coisa pra outras pessoas. colecionadores de antigüidades, por exemplo. o cravo, por outro lado, meio que esqueci de mencionar pra amélia. talvez por ter fresco na memória o efeito que sexo com izzy tem quando o objeto está perto de minha pele.

então ele chega e interrompe minha divagação:

"Bono?"

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