Labirinto

December 28, 2006

41.

Filed under: K.I.S.S.

reparo que uma barata se desloca com rapidez pelo chão empoeirado. talvez pra saudar o dono da casa que acabou de entrar. é uma daquelas pequenas, que chamam de francesinha.

o engraçado é que ele mantém a frieza, não demonstra nenhuma surpresa de me encontrar aboletado em seu sofá preferido. acho que, desde o início do caso, estivemos na carência de falar sinceramente sobre que diabo estava acontecendo. quer dizer, ele deveria ter me alertado pra mais coisas além dos perigos de uma noitada com izzy. afinal, lúcio é o expert… bom, você sabe, em ocultismo… rárárá. é uma das coisas que me acontecem de vez em quando: pensar no sentido do que as pessoas dizem. o fato de lúcio se autodenominar ‘expert em ocultismo’, por exemplo. pô, o que é oculto deveria permanecer assim, sem ser conhecido, certo? um ‘expert em ocultismo’ não é um contra-senso? como alguém pode ser entendido numa coisa que está às escondidas, que é desconhecida? como alguém pode ser especialista em mistérios por tanto tempo e não desvendá-los? por quê ele me deixou no escuro quando tudo que tinha a fazer era falar comigo?

"Você sabe que acabou de falar tudo isso em voz alta, não Bono? Continua com aquela mania esquisita de fazer a narrativa em off de seus casos, é?"

"Bom… é sim. Me ajuda a colocar tudo em perspectiva. E se você estava prestando tanta atenção, faça o favor de responder a última pergunta."

"É… complicado…"

"Que bom. Achei que você não fosse sentir um pingo de remorso por ter me deixado entrar em todas essas roubadas e ia desatar a falar, como se nada tivesse acontecido."

"Bom, a questão não é remorso, acho. Quero dizer, não é só remorso."

"É o quê, então?"

"É algo grande demais para caber nessa sua cabeça de bagre cheia de whisky, meu caro. É algo que talvez seja melhor que você continue sem saber. É algo que pode te deixar meio ruim das idéias, sabe? Que vai fazer mal pra sua cabeça."

"Mas não fez pra sua, certo?"

"É diferente, Bono."

"Ao que me consta, quem está namorando com um demônio aqui sou eu. E até que é bem gostoso, entendeu?"

"Você por acaso sabe em que fossas infernais essa ‘pessoa’ com quem anda deitando esteve? Não é saudável, Bono… nem um pouco."

"E continua enrolando, sem dizer nada."

"Tinha esperança de que você esquecesse isso e seguisse com sua vida. Mas tudo bem. Vou te dar o que quer."

mas antes de começar ele estende a mão num gesto estudado até o bolso da camisa e pesca de lá sua cigarreira. me contou uma vez que era como sua cerimônia do chá pessoal, que cada movimento feito visava aumentar seu grau de concentração. pelo tempo que leva até colocar o cigarro na boca sei que o que vem a seguir é chumbo grosso. ele faz um pequeno malabarismo com o isqueiro antes de acender. o fedor empesteia o ambiente.

e ele conta… mas não tenho certeza se é o quero ouvir.

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