45.
e agora, josé?
o mundo não parou pelo que aconteceu comigo esses dias. lúcio não deixou de fumar seu cigarro radioativo e muito menos de achar que é saudável fumar. de vez em quando vem com uma de suas tiradas misteriosas… me disse outro dia que ajudou um par de fantasmas à procura de paz… sabe-se lá o que quis dizer com isso. parece que continua com problemas com o "reino inferior" e pede que eu fale com Izzy, interceda em seu nome e merdas do gênero. Izzy não curte essa mistura. essa coisa de "meu amigo tem problemas com seus patrões. dá pra mexer os pauzinhos e ver se ajuda?"… já me xingou algumas vezes, outras, só bateu… é emocionante. acho que gosto de apanhar. me deixa excitado. rá! deve ser o amor.
enquanto saboreio meu cachorro-quente, milimetricamente condimentado com batata palha murcha, molho frio e uma salsicha que quase me faz lembrar de onde elas realmente vêm, dou uma rápida olhada no jornal e encontro a notícia que procurava. celso fontoura, delegado de polícia aposentado, morre em acidente de automóvel. Izzy ou a cápsula? bom, de qualquer jeito, acabou.
amélia também desapareceu. segundo o chokito, está num retiro, num local que ele, providencialmente, esqueceu. acho que nunca mais vejo essa mulher. será amélia o amor platônico da minha vida? (todo mundo está condenado a ter um, se é que você não sabe). espero que não. prefiro pensar no que senti por ela como uma quantidade obscena de tesão acumulado. somente. às vezes também gosto de me enganar.
"Nós não vamos esquecer."
quando me viro, ele me encara, esboçando um sorrisinho patético, mezzo intimidador. de onde conheço esse velho?
"Eu te conheço pra você chegar fungando assim no meu pescoço, seu velho safado?"
o homem do cachorro-quente finge que não ouve e continua separando seus pães plasticifados.
"Talvez sim. Talvez não. O que importa que é eu te conheço. Sei tudo sobre você, na verdade. Por onde anda, com quem anda, enfim, essas coisas."
quer coisa pior do que ser ameaçado em plena luz do dia?
"Ah, é? Será que sabe mesmo?"
"Eu seria capaz de apostar essa relíquia que você carrega no bolso!"
caralho. não vai acabar nunca?
"Cara, você não sabe com quem está mexendo."
e ele gargalha, como se tivesse ouvido a maior piada do mundo. de certa forma, foi o que ocorreu. e agora, vendo-o mais descontraído, a memória me trouxe a informação que encomendei. sei de onde conheço a figura. era um dos que estava enrabando celso no dia que não deveria ter existido. dou uma vasculhada no terreno e presumo que os dois armários embutidos dentro daqueles ternos devem estar acompanhando o velho. saída pela esquerda ou pela direita? o velho me poupa da decisão difícil.
"Tenho que ir agora. Passar bem, detetive Lucas. Nos veremos. Em breve."
ele vai pra mesma direção de que deve ter vindo, os armários caminhando atrás dele, equidistantes, como se fossem puxados magneticamente.
quer saber?
foda-se essa velharada maluca e suas historinhas loucas! fodam-se essas coisas mágicas, irreais e surreais e sei lá mais o quê! e foda-se esse cachorro-quente do cacete!
daqui a pouco vou me encontrar com Izzy, a minha gatinha, e é isso o que importa.
