45.

January 10, 2007

e agora, josé?

o mundo não parou pelo que aconteceu comigo esses dias. lúcio não deixou de fumar seu cigarro radioativo e muito menos de achar que é saudável fumar. de vez em quando vem com uma de suas tiradas misteriosas… me disse outro dia que ajudou um par de fantasmas à procura de paz… sabe-se lá o que quis dizer com isso. parece que continua com problemas com o "reino inferior" e pede que eu fale com Izzy, interceda em seu nome e merdas do gênero. Izzy não curte essa mistura. essa coisa de "meu amigo tem problemas com seus patrões. dá pra mexer os pauzinhos e ver se ajuda?"… já me xingou algumas vezes, outras, só bateu… é emocionante. acho que gosto de apanhar. me deixa excitado. rá! deve ser o amor.

enquanto saboreio meu cachorro-quente, milimetricamente condimentado com batata palha murcha, molho frio e uma salsicha que quase me faz lembrar de onde elas realmente vêm, dou uma rápida olhada no jornal e encontro a notícia que procurava. celso fontoura, delegado de polícia aposentado, morre em acidente de automóvel. Izzy ou a cápsula? bom, de qualquer jeito, acabou.
 
amélia também desapareceu. segundo o chokito, está num retiro, num local que ele, providencialmente, esqueceu. acho que nunca mais vejo essa mulher. será amélia o amor platônico da minha vida? (todo mundo está condenado a ter um, se é que você não sabe). espero que não. prefiro pensar no que senti por ela como uma quantidade obscena de tesão acumulado. somente. às vezes também gosto de me enganar.

"Nós não vamos esquecer."

quando me viro, ele me encara, esboçando um sorrisinho patético, mezzo intimidador. de onde conheço esse velho?

"Eu te conheço pra você chegar fungando assim no meu pescoço, seu velho safado?"

o homem do cachorro-quente finge que não ouve e continua separando seus pães plasticifados.

"Talvez sim. Talvez não. O que importa que é eu te conheço. Sei tudo sobre você, na verdade. Por onde anda, com quem anda, enfim, essas coisas."

quer coisa pior do que ser ameaçado em plena luz do dia?

"Ah, é? Será que sabe mesmo?"

"Eu seria capaz de apostar essa relíquia que você carrega no bolso!"

caralho. não vai acabar nunca?

"Cara, você não sabe com quem está mexendo."

e ele gargalha, como se tivesse ouvido a maior piada do mundo. de certa forma, foi o que ocorreu. e agora, vendo-o mais descontraído, a memória me trouxe a informação que encomendei. sei de onde conheço a figura. era um dos que estava enrabando celso no dia que não deveria ter existido. dou uma vasculhada no terreno e presumo que os dois armários embutidos dentro daqueles ternos devem estar acompanhando o velho. saída pela esquerda ou pela direita? o velho me poupa da decisão difícil.

"Tenho que ir agora. Passar bem, detetive Lucas. Nos veremos. Em breve."

ele vai pra mesma direção de que deve ter vindo, os armários caminhando atrás dele, equidistantes, como se fossem puxados magneticamente.

quer saber?

foda-se essa velharada maluca e suas historinhas loucas! fodam-se essas coisas mágicas, irreais e surreais e sei lá mais o quê! e foda-se esse cachorro-quente do cacete!

daqui a pouco vou me encontrar com Izzy, a minha gatinha, e é isso o que importa.

44.

January 6, 2007

saí da casa de lúcio com meia pulga atrás da orelha.

questões ainda sem resposta.

no escritório, Izzy me espera… pernas cruzadas bem no alto e um sorriso que começo a reconhecer sem maior esforço. acho que esse é o truque pra captar a verdadeira essência dela. prestar atenção aos detalhes. o todo deve emergir com o tempo.

faço mais ou menos as mesmas perguntas que a lúcio e, depois de receber mais ou menos as mesmas respostas, surge coisa nova.

"Você é o Atu 0. O Aleph. O louco. O coringa do baralho convencional. Quando o jogo está pra ser perdido e o coringa surge, a sorte muda. É o que você é, ou foi, nesse caso. Uma escolha arbitrária de divindades que perderam o contato com Malkuth há tempos."

ela diz tudo isso com a inflexão de quem pergunta ‘açúcar ou adoçante?’. sabia que com izzy tudo poderia ser mais complicado que com lúcio, mas tenha santa paciência! eles não cansam desses nomes ocultos complicados, porra! eu, por outro lado…

"Tudo emana de você. Toda a realidade, como a vivencíamos agora, deriva de sua existência."

"Meio como ‘o homem é a medida de todas as coisas’, não?"

"Não muito, mas acho que você começa a entender."

e que raio isso quer dizer?

"Dá pra ser mais clara?"

"Tudo bem. Se existimos como existimos agora é devido à sua interferência no plano da Cápsula. Você sabe, literalmente. Meus patrões estavam interessados na mudança que a vinda do monstro pentadimensional podia trazer. Eles queriam agitar um pouco as coisas pra concorrência."

estou por um fio… minha sanidade está por um fio. se me mantenho aqui conversando com uma guria que é um demônio é por pura falta de opções. tá, e porque ela é uma gracinha e eu meio que tô apaixonado por ela.

"E…"

"Não pergunte se não quiser saber de verdade."

"Feito. Mas quero saber."

"Tudo bem."

"Como isso afeta a gente."

"A gente?"

"É. Eu e você. Nós dois."

"Ter um ‘nós dois’ só depende de você aceitar quem eu sou. O que sou."

"E os teus ‘patrões’, como você mesma chama?"

"Desde que você não seja parte do serviço, eles não tendem a interferir. Pelo menos não diretamente. E se interferirem vai ser só por diversão."

"Mas a diversão dos chifrudos pode sair cara pra mim, não?"

"Acho que não. Você está garantido desde que mantenha as relíquias por perto. Não sei se você notou, mas seu escritório  não está mais possuído."

"É… é verdade. Mas sabe, eu tive um sonho em que um velho dava uma cajadada numa coisa que parecia um tronco com uma boca como cabeça e três pernas, se é que você entende."

"Ah, nada com que se preocupar. Foi só sua mente organizando a informação do que aconteceu de verdade de um jeito que você pudesse entender sem ter um colapso nervoso. O velho é provavelmente um arquétipo do inconsciente coletivo que foi canalizado pelas relíquias pra te ajudar a resolver o problema de uso capião que você teria se o demônio continuasse a morar aqui."

nossa. acho que vai ser um daqueles relacionamentos complicados. só espero mesmo que ela não ronque como a minha primeira mulher.

43.

January 2, 2007

"É tudo muito mais simples do que parece. Tenho quase certeza de que cê tá pensando em ‘como ele sabe?’ ou algo do tipo."

pois é. mais uma porra de telepata. o detalhe é que todas as vezes que a gente se encontrou, trocou idéias e tudo mais, ele nunca deu a entender que sabia o que se passava na minha cabeça.

"Não tenho idéia do que se passa na sua cabeça, Bono, mas sei ler auras. Foi um dos motivos que me levaram a romper meu qlipoth."

"Dá pra falar em língua de gente? Por favor? Primeiro ‘cinicéfalo’, agora, ‘qlipoth’… que merda é essa afinal?"

"Letra a) babuíno, b) couraça neuromuscular… você sabe: tudo que trava o bom homem cristão, ocidental, branco e cheio de complexos. Tenho mente aberta. Vejo fantasmas, leio auras… o trivial simples, pra ser redundante."

"Até hoje pensava que a única habilidade especial que cê tinha era conseguir fumar esse troço aí sem morrer à cada tragada."

"Bono, na minha área de atuação fumar é das coisas mais saudáveis que se pode fazer."

e agora fumar é saudável. o que vem depois disso?

"Tudo bem. Você matou Celso. Se não tivesse feito isso é provável que as divindades solares usassem outro instrumento. Ao mesmo tempo, descartou o artefato que permitiria a invocação de Yog-Sothoth, Cthulhu ou um outro desses caras que dormem em R´lyeh."

"Quanta consoante! E isso é nome de hotel?"

"É sério, Bono."

"E tem alguém aqui dizendo que não é? Só me dá um minuto, tudo bem?"

deus ex-machina. uma expressão exótica que toma contornos muito mais sinistros quando penso em tudo que veio acontecendo comigo nos últimos dias. qual será a cor da minha aura agora?

"Tudo bem… e como eu ‘descartei’ o tal artefato?"

"Você dessacralizou a marreta, não? Usou ela pra cometer assassinato quando o que a fazia ser especial era justamente não estar manchada com o sangue do salvador."

"Essa parte pra mim nunca fez sentido, de qualquer jeito."

"Aí é que tá, Bono. Não tem que fazer sentido. É um mistério. O osso e a carne da magia."

"Hmmm… sei."

"Não é você que vive se gabando a toda hora que tá comendo um demônio? Isso faria sentido dias atrás?"

"Não, mas a situação é diferente…"

"Será que você poderia me explicar como?"

"…"

"Foi o que eu pensei."

fico quieto. tento me concentrar, apreender o significado do que lúcio diz, sem conseguir. ou ele está maluco ou sou eu que finalmente tô submergindo a todas as merdas recentes. tenho desculpa. matei um cara. isso mexe com a cabeça das pessoas. daí solto sem entender direito de onde vem:

"E o quê tudo isso tem a ver com o tal frater Hyeronimus?"

"Pois é. O plano da turminha de que Celso fazia parte era trazer uma dessas entidades pro nosso mundo e encarná-la num médium, que é justamente esse outro idiota que você citou."

"E ia funcionar?"

"O mais provável? Não. O corpo do cara provavelmente explodiria durante a possessão. A não ser que os bonitos que bolaram a merda toda tivessem preparado encantos de contenção decentes."

"E se funcionasse?"

"A descrição mais fácil de fazer é dizer que seria algo como a Segunda Guerra elevada à enésima potência. Você sabe… Hitler era um ‘deles’."

me calo outra vez. de repente começo a me sentir bem por ter acabado com a vida de celso.

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