Labirinto

January 2, 2007

43.

Filed under: K.I.S.S.

"É tudo muito mais simples do que parece. Tenho quase certeza de que cê tá pensando em ‘como ele sabe?’ ou algo do tipo."

pois é. mais uma porra de telepata. o detalhe é que todas as vezes que a gente se encontrou, trocou idéias e tudo mais, ele nunca deu a entender que sabia o que se passava na minha cabeça.

"Não tenho idéia do que se passa na sua cabeça, Bono, mas sei ler auras. Foi um dos motivos que me levaram a romper meu qlipoth."

"Dá pra falar em língua de gente? Por favor? Primeiro ‘cinicéfalo’, agora, ‘qlipoth’… que merda é essa afinal?"

"Letra a) babuíno, b) couraça neuromuscular… você sabe: tudo que trava o bom homem cristão, ocidental, branco e cheio de complexos. Tenho mente aberta. Vejo fantasmas, leio auras… o trivial simples, pra ser redundante."

"Até hoje pensava que a única habilidade especial que cê tinha era conseguir fumar esse troço aí sem morrer à cada tragada."

"Bono, na minha área de atuação fumar é das coisas mais saudáveis que se pode fazer."

e agora fumar é saudável. o que vem depois disso?

"Tudo bem. Você matou Celso. Se não tivesse feito isso é provável que as divindades solares usassem outro instrumento. Ao mesmo tempo, descartou o artefato que permitiria a invocação de Yog-Sothoth, Cthulhu ou um outro desses caras que dormem em R´lyeh."

"Quanta consoante! E isso é nome de hotel?"

"É sério, Bono."

"E tem alguém aqui dizendo que não é? Só me dá um minuto, tudo bem?"

deus ex-machina. uma expressão exótica que toma contornos muito mais sinistros quando penso em tudo que veio acontecendo comigo nos últimos dias. qual será a cor da minha aura agora?

"Tudo bem… e como eu ‘descartei’ o tal artefato?"

"Você dessacralizou a marreta, não? Usou ela pra cometer assassinato quando o que a fazia ser especial era justamente não estar manchada com o sangue do salvador."

"Essa parte pra mim nunca fez sentido, de qualquer jeito."

"Aí é que tá, Bono. Não tem que fazer sentido. É um mistério. O osso e a carne da magia."

"Hmmm… sei."

"Não é você que vive se gabando a toda hora que tá comendo um demônio? Isso faria sentido dias atrás?"

"Não, mas a situação é diferente…"

"Será que você poderia me explicar como?"

"…"

"Foi o que eu pensei."

fico quieto. tento me concentrar, apreender o significado do que lúcio diz, sem conseguir. ou ele está maluco ou sou eu que finalmente tô submergindo a todas as merdas recentes. tenho desculpa. matei um cara. isso mexe com a cabeça das pessoas. daí solto sem entender direito de onde vem:

"E o quê tudo isso tem a ver com o tal frater Hyeronimus?"

"Pois é. O plano da turminha de que Celso fazia parte era trazer uma dessas entidades pro nosso mundo e encarná-la num médium, que é justamente esse outro idiota que você citou."

"E ia funcionar?"

"O mais provável? Não. O corpo do cara provavelmente explodiria durante a possessão. A não ser que os bonitos que bolaram a merda toda tivessem preparado encantos de contenção decentes."

"E se funcionasse?"

"A descrição mais fácil de fazer é dizer que seria algo como a Segunda Guerra elevada à enésima potência. Você sabe… Hitler era um ‘deles’."

me calo outra vez. de repente começo a me sentir bem por ter acabado com a vida de celso.

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