mapa e território

September 29, 2007

percorrer o mapa e não o território tem sido a solução em dias chuvosos.

os mapas tornam-se cada vez mais elaborados, quase tão ricos em informações e registros quanto a experiência real, pessoal e intransferível.

no limite do percurso traço minhas próprias linhas… tento conter nelas, sintetizar com elas, um metamapa, o mapa pra ler o mapa… um mapa da linguagem como expressão criativa através dos tempos.

uma fagulha de inexplicável pode mudar tudo…

um mistério.

tentativa sobre tentativa de cobrir o território desconhecido levam a um aprofundamento e não a uma solução do problema.

o mistério grassa.

o mistério floresce, colore-se e predomina, mas não é resolvido. há áreas que devem permanecer desconhecidas, não mapeadas.

o recurso da linguagem não é suficiente.

o máximo que pode fazer é reduzir.

o mapa deve ter rios e planícies e acidentes geográficos e construções humanas e inumanas a fim de vencer os limites e resolver o mistério.

mapa e território equivalendo-se, confundindo-se, refletindo-se… imprecisão nos signos, distorções nos desenhos… área ainda a ser descoberta e o poeta cantando o corpo qüântico, indecifrável, diminuto, invisível.

como usar símbolos pra descrever a experiência do não visto?

falar do cheiro, da textura, do gosto, do som é suficiente? informa o bastante? orientados e viciados pelo visual, como reagimos quando essa representação nos é tirada?

farejar as migalhas de pão nos levará ao caminho perdido pelos irmãos?

descobriremos, encontraremos, recuperaremos seus passos afoitos na floresta… o que foi perdido… o que foi ocultado…

como orientar a volta, como testar o solo em busca do cheiro de comida e deparar somente com traços de enzimas digestivas…

a mensagem gravada na areia e apagada pelo vento e pelas ondas continua existindo num plano ideal, no plano em que foi pensada e visualizada, além do material, além dos próprios território e mapa.

há somente a idéia sem coisa alguma que a ancore.

acumulam-se mapas do espírito e da experiência e cabe a cada um contextualizar seus sentidos, suas direções…

num mapa do tempo, a única seta indicativa da direção que ele toma é o decaimento biológico do corpo.

talvez, se avançasse e retocedesse ao mesmo tempo…

fogo

September 24, 2007

fogo externo.

suas tripas se moviam com lassidão demonstrando apreço por chamas.

afinal, via diante de si produto de labor.

mesmo investigação detalhada não demonstraria tratar-se de  incêndio criminoso.

perspectiva peculiar que tinha jamais permitiria que aceitasse fogo como resultado de doença mental.

era belo.

labaredas crepitavam e dançavam, preenchendo sentidos.

juntava-se cheiro agradável da fumaça.

sabia que precisava sair da cena quanto antes.

sua resistência a calor e a carbono liberado pela queimada já chegava no limite.

deixou ambiente e postou-se a uma distância segura antes que  primeiras testemunhas e corpo de bombeiros aparecessem.

ondulação da pira que depósito se tornara era hipnótica.

embriagado por fogo e poder de definir seu destino sem temer quaisquer conseqüências.

decidiu comemorar novo batismo, passagem pra nova vida, indo a bar próximo e exercitando confiança recém-adquirida.

sirene de viatura aproximando-se despertou do torpor, movimentou.

cervejas depois, usando encanto de cão superior que impusera a si com fogo, levou mulher a quarto de motel e exsudou erotismo ígneo que rolava como lava em sistema circulatório.

não queria que fogo se apagasse e assim foi.

consumiu-se na labuta sexual até restar nada além de ossos carbonizados.

mulher estava em transe.

nunca tinha sido tão bem fodida.

guardaria lembrança do encontro com homem que a estragou pra todos outros.

seu sexo abrasado quis saber mais sobre parceiro casual.

ele mentiu como rei. ela deu crédito a cada palavra, inclusive que se veriam outra vez. meia-verdade.

descansou sem preocupação com dia seguinte.

sono profundo e pacífico e restaurador.

acordou 12 horas depois pensando em coisa alguma… só persona gravada em fogo na mente plástica.

abismo

September 20, 2007

pra ele o tempo não faz sentido. observe: é uma estátua e não sabe como agradecer ao seu criador tê-lo feito assim, imutável, desprovido da fluidez de movimentos.

está absorvido na contemplação do abismo e vice-versa.

o abismo, por sua vez, o olha com curiosidade pois nunca esteve diante de algo que não se apavorasse ao ser contemplado de volta.

para o abismo ele, desprovido de alma, superou o herói e venceu as barreiras do inconcebível, tornando-se super.

a estátua é o super-herói do abismo que a admira em sua imutabilidade.

nada e ninguém quer o que tem ou o que pode ter.

outra vez

September 18, 2007

o tempo urge. a necessidade de produzir me guia, melhor, guia a ele, e a corrida contra os minutos que se esgotam começa.

uma fresta na janela permite que o ar fresco da noite renove o ambiente.

as pálpebras pesam e atrapalham um pouco sua (minha?) concentração. mas nada que um pouco de persistência não vença. ainda assim, a página em branco é desafio.

sente-se tentado a escrever uma tirada filosófica qualquer e percebe que o que pretendeu fazer, mais ou menos nesta altura do ano anterior, já tinha sido escrito melhor por R.A.W.

refunga como um cavalo.

tenta pensar em outra coisa, talvez recorrer ao clichê do café e dos cigarros, mas já tem outro cara fazendo a mesma coisa melhor em seu próprio blog.

não consegue pretender ser capaz de fazer uma radiografia da alma feminina como leu em algum lugar.

pensar em alma o deixa com sérias dúvidas. talvez sequer tenha uma dele mesmo, por isso prefere o termo psique, mais aberto à interpretação. considera-se portador de uma dessas.

acha que psique pode ser mente.

pensa em mente, pensa e mente.

mentir?

não.

pensar em mente é como um truque de ilusionismo, um espelho que reflete outro ad nauseam.

mente, segundo seus parâmetros mais recentes, pode ser o software que permeia toda a humanidade e, claro, pode ser um campo, uma experiência (uma alucinação?) coletiva.

desistir é mais fácil.

simples assim.

só pare.

não pára.

tem que cumprir a quota diária. pelo menos 500 palavras que, é o que imagina, cabem numa página de caderno universitário quando usa letra de forma pra escrever.

tenta lembrar de algo digno de ser mencionado e que tenha ocorrido dentro das horas despertas desde o início do dia, o fim da madrugada.

várias mulheres desfilam pelo olho de sua imaginação numa seqüência desordenada, sem maiores atrativos que a estética corporal.

mulheres nos meios de transporte, mulheres nas ruas, em ambientes fechados, abertos, que mereceram toda a atenção que foi capaz de reunir nos breves momentos em que se cruzaram.

toma um gole d’água.

checa as guimbas no cinzeiro.

nada de cigarros por causa do outro cara.

nada de alma.

só carne e ossos e pele e cabelos…

sangue em movimento tanto em seu corpo como no delas.

irrigação, lubrificação…

retorno ao animal observador.

efervescência

September 14, 2007

olhava pra ela ou além dela através de um rasgo no espaço-tempo que permitia vê-la em todas as fases, de zigoto a comida de vermes, todas imbuídas de poesia, de vida e morte.

concentrar-se pra ver além das marcas da idade, além da postura pensada, além da pele - órgão fascinante - era tão difícil quanto manter-se são na efervescência de vida e conflitos e reconciliações que era respirar e ficar à tona e ficar à toa.

a borda dos olhos pregueada pela incidência, pela insistência da luz que dilatava pupilas, escurecia o humor vítreo.

braço direito tatuado em rosa pela pressão, pelo peso da alça da bolsa.

jeans justos.

camiseta florida em tons de amarelo e marrom, cores recorrentes desde o último sábado e o vestido e a blusinha e os quadris em movimento vertiginoso, outra mulher, outra verdade atemporal.

mantendo-se ereta graças a qual liturgia, a qual magia secreta?, sendo carregada e carregando ao mesmo tempo.

o soalho sob seus pés, barroco e metálico, a nervura de sustentação, o enraizamento em pleno ar.

poesia slow motion.

cabelos presos judiciosamente, células mortas, já mortas, antecipadamente mortas, fios escapando do nó perpetrado por suas mãos.

adornos dourados nos dedos brancos, brancura subindo pelos braços sacudidos pela vibração familiar do motor, consistência testada e aprovada pela força centrífuga das voltas.

querer roçar a pele dela imaculada, inatingível e correr o risco de receber o rótulo.

encaixar, receber o corpo dela no dele.

socialmente inaceitável, sexualmente aprazível.

estímulos visuais trabalhando em conjunto com o movimento involuntário, com a inércia, despertando-o pro que está além do parecer.

olhando na sua direção, esperando que seus olhares se cruzassem, treinando formar com os lábios as palavras certas, na hora e ritmo certos, pra que ela lêsse sua boca como signo, pra que ela "leia minha mente" - as palavras - e caia no vermelho sangüíneo, vital, na ebulição que transcende o aceitável e chama pro coito, como cachorros no cio, guiados pelo cheiro, feromônios, sentidos e instintos.

ele fechou os olhos e ela retribuiu seu olhar, todos os tempos agora, e foi ele quem leu a mente dela e tudo ficou bem afinal.

corpos ansiosos por reafirmarem suas vidas seguiram o único caminho possível.

cinzas

September 13, 2007

ele só pegou o cinzeiro com cinzas e guimbas ainda dentro e, depois de juntar tudo, amassar até que só restasse pó, livrou-se dos filtros, despejou o resultado na mão em cunha e voltou correndo ao salão de beleza onde trabalhava. seus dedos brancos e longos trabalhando as cinzas ficaram gravados na memória. talvez algum acidente com tintura.

recobrei os sentidos depois de uma breve experiência extra-corpórea e estava novamente na livraria folheando um dicionário de física. tenho lido bastante sobre esse assunto, embora não seja minha área de especialidade.

a mulher, mignon, me observava do outro lado da mesa. me esforcei pra recuperar seu nome de minha memória bagunçada.

‘oi’, ela disse.

como se eu tivesse aparecido ali naquele minuto.

respondi equilibrando a situação.

‘quando você chegou?’, ela de novo.

eu tinha a impressão de ter estado ali boa parte da tarde, mas pra quê começar uma discussão sem sentido? certo que seria só mais uma numa cadeia que se alongava já há tempos, disse a ela que tinha acabado de entrar.

ela perguntou ‘cadê meu beijo?’.

fui até o outro lado da mesa e a beijei. ainda não lembrava seu nome mesmo depois de tê-la beijado. o beijo não foi daqueles cheios de luxúria, mas ainda assim senti uma manifestação leve de testosterona em meu organismo.

‘você tá bem?’ ela perguntou.

parecia genuinamente preocupada. respondi com a mesma vaguidão específica característica do outro sexo. seu cabelo bicolor e os olhos grandes e expressivos mexiam com minha memória. seu corpo econômico, com minha libido.

voltei a examinar o dicionário.

o verbete ‘heisenberg’ chamou minha atenção.

as palavras ‘princípio da incerteza’ me fizeram sentir a urgência de ter a boca preenchida por fumaça outra vez. era um vício, afinal, não charme.

a nicotina se ligava aos meus neurônios e me dava uma tranqüilidade artificial e necessária.

imagens de elétrons se comportando como ondas e partículas, como fumaça, segundo uma visão artística qualquer, ocuparam meus pensamentos por instantes preciosos.

elétrons girando sobre seus próprios eixos e transmitindo a informação de seus movimentos a elétrons tão distantes quanto outra estrela, quanto gliese, à velocidade maior que a da luz… instantaneamente. sincronizados.

olhei na direção da mulher e ela não estava lá. nem a livraria. nem o dicionário.

o cigarro queimava lento entre meus dedos.

write now!

September 9, 2007

escrever os bastidores de uma história enquanto vou processando cenas de outra é enriquecedor porque dá a idéia de um movimento contínuo de criação.

tudo se encadeia e uma dá feedback à outra. produtivo.

ainda tentando encontrar o balanço certo pra história do *****. o tom certo. a saída, mais provável, é equilibrar vários gêneros, deixar espaço pra humor, ação, intriga, drama… criar relacionamentos pro personagem deve ficar mais fácil a partir do momento em que eu tiver mais dados a seu respeito, como nome, profissão, idade e outras informações pertinentes. material que talvez não vaze nas tramas mas que deve servir pra me orientar.

o esforço consciente de produzir histórias é melhor que a inatividade.

e é assim que as coisas funcionam no mundo real, certo? ninguém espera pela inspiração. muito mais simples, cria e continua criando até ter material bom o bastante pra consolidar o próprio nome como escritor.

Joana

September 5, 2007

…mantinha as pernas no alto, a saia do conjunto bege levantada até os quadris.

O homem era pesado demais pra ela e transpirava uma substância fétida durante o coito.

De forma inusitada, ele, tão conhecido por sua perspicácia e frieza, não percebeu o peso extra e o volume excessivo na bolsa dela.

Joana só aguardava o momento certo pra eliminar o que causava sua ojeriza.

Detetives.

Sempre desprezíveis.

Agindo como se soubessem tudo sobre todos e fossem capazes do mesmo tanto.

Seu marido os contratava às pencas pra segui-la, fotografá-la, descobrir seus segredos e revelá-los a ele.

Ela achava que Lobo fazia isso pra compensar sua impotência.

O importante era estar sempre dois passos adiante dos idiotas.

Num país terceiro mundista era ridículo pensar em detetives particulares competentes. Era até contraditório. Investigadores profissionais da polícia… patético.

Sempre percebia quem eram apesar dos esforços deles pra se manterem incógnitos. Uma coçadinha aqui, um pescoço esticado em demasia acolá. Inépcia abundante.

Então se aproximava e jogava todo o charme malévolo de que dispunha sobre os imbecis.

Eles não resistiam e Joana se alimentava, satisfazia seus apetites com eles.

Algumas vezes imaginava fantásticas teias de conspiração pra ser livre novamente, mas sempre esbarrava em algum problema. O que mais lhe fazia falta era alguém que fosse desprovido de moral e agisse profissionalmente.

Um esgar se desenhou no rosto do homem. Uma gota grossa do suór dele manchou sua saia, escurecendo o tecido. Sacando e engatilhando rapidamente a arma niquelada, roçou-a em seu clitóris e nas coxas.

O homem fechou os olhos, ela o empurrou alguns centímetros pra trás sentindo ainda a glande dentro de si e atirou na base do pênis, castrando-o e estilhaçando sua bacia.

O silenciador retardou a velocidade do projétil, mas daquela distância o tiro à queima-roupa foi suficiente.

Davi Dias gemeu em falsete alguns segundos antes de desmaiar. A perda massiva de sangue foi a causa mortis.

Enquanto acendia um cigarro, Joana pensou em como o detetive fora eficiente em sua última missão.

Teve um orgasmo múltiplo enquanto cinco centímetros de carne ainda pulsante escapavam de sua vagina.

As pernas ensangüentadas, coxas volumosas, proibidas, mortais… lamentou ter destruído cabeça, mãos e pés do homem com tiros. Desperdício de munição com as balas tão caras…

Foi ao banheiro, despiu-se e tomou um longo banho. A água revoluteando massageava músculos tensos e fazia-a relaxar.

Trocou de roupas mas permaneceu sem calcinhas.

Era um bom motel.

Ninguém perturbava.

As paredes, espessas o bastante pra que ninguém ouvisse os baques surdos do cão da arma.

Já o cheiro de cordite e pólvora ficariam no ar, assim como o sangue, espalhado no chão.

Apanhou a arma, a bolsa, e saiu, avisando na portaria que o sr. Davi Dias pagaria a conta depois que acordasse.

Foi-se intacta.

vida louca

September 2, 2007

viver no mundo e tentar encontrar a causa de todo e qualquer fenômeno pode te enlouquecer. é engraçado quando se pensa ser capaz de traçar conexões, estabelecer ligações e determinar o motivo por trás daquilo que se presencia.

as pessoas se tornam paranóicas com o que não são capazes de controlar. o, veja só como é parecida com aquela outra palavra, casual (caos, acaso) sempre é considerado com reservas.

ninguém diz só ‘que coincidência!’ e se dá por satisfeito com isso. não mais. as pessoas acham que há um motivo. que tudo acontece por um motivo. elas entram em delírio e começam a entrecruzar ações, atitudes, fatos, pensamentos disparatados numa rede de segurança que só explique, por que, por que, por que!

todo mundo quer entender como as coisas acontecem e quando acontecem e porque, principalmente se for algo ruim, porque, ou uma variação popular egoísta, ‘por que comigo?’

pois é.

a boa notícia é que às vezes somos capazes de investigar o acaso aparente e descobrir o que o causou, se bem que geralmente a descoberta vai demonstrar que todo fosfato gasto na formulação da teoria da conspiração da vez foi desperdiçado…

a causalidade imaginada pode ter ou não a ver com aquela vez em que você foi grosso, invocou o nome de deus em vão, traiu sua mulher, esbofeteou seu filho etc.

tudo está conectado quando se pensa em termos de mecânica qüântica. o comportamento de uma partícula mínima afeta o comportamento de outra tão distante quanto o universo é infinito (ou não).

funciona no microcosmo.

claro que pode funcionar no macro também quando se pensa, por exemplo, em ecossistemas, extinção das espécies, impacto ambiental… tudo tem causa e efeito nesse plano.

o que realmente escapa do controle é o comportamento das pessoas. dentro da cabeça de cada um há um modelo do universo em que até o dono da cabeça está representado.

dentro desse modelo, que é o filtro pelo qual julgamos conhecer o mundo, há uma série de comportamentos, atitudes, o que seja, que esperamos…

como numa rotina, espera-se que tal pessoa tenha tal comportamento… temos pressa em catalogar e etiquetar, em definir as pessoas pra podermos lidar com elas com mais facilidade.

bom, aí é que está: as pessoas mudam.

da noite pro dia.

não são previsíveis nem nada parecido.

só são.

ás de espadas

September 1, 2007

Deque 13 estava parado como de costume nas sombras das cercanias.

O centro da cidade, apesar da campanha recente de recuperação do patrimônio representada pela reforma de alguns prédios antigos, ainda era de natureza dupla…

Entenda: no horário comercial lojas, lanchonetes e prestadores de serviços sortidos trabalhavam de modo a atrair um público de pessoas comuns.

À noite a situação mudava; os moradores do centro viviam empilhados em cortiços com condições subhumanas, convivendo com mais de uma espécie de animais perniciosos, enquanto a variedade bípede destes circulava nas ruas.

Pervertidos, psicopatas, ladrões, viciados ou cidadãos no limite.

Deque 13 preferia a cidade à noite. As possibilidades de negócios aumentavam significativamente. Suas chances de ganhar dinheiro sem violência, também.

Tudo que você precisa saber sobre o sr. 13 é: não aposte com ele.

Alguns diziam que Deque enxergava as conexões não-locais e entendia as implicações de cada nódulo de realidade.

Outros, menos científicos, preferiam a interpretação mística pro que ele fazia: em contato com forças ocultas (espíritos, divindades ou o que seja), interpretava sinais como ninguém e sempre ganhava.

Havia ainda os que preferiam a versão neurolingüística, segundo a qual Deque 13 induzia o apostador rival a fazer todos os movimentos errados, que ele interpretaria. A visão de um objeto qualquer em determinado ângulo poderia afetar o opositor de modo que ele entregasse o jogo sem perceber.

Deque, por sua vez, se autodefinia como alguém que está tentando ‘ganhar a vida’, palavras dele. Ganhar ele ganhava.

Acendendo mais um cigarro, desviou o rosto de modo a evitar que a fumaça entrasse em seus olhos. Caminhou pelas calçadas velhas e úmidas do centro.

O alvo da vez poderia ser qualquer um. Não importava.

Puxou o baralho que carregava no bolso interno do casaco e olhou pras cartas novamente. Embaralhou, misturou, tirou uma delas. Observou os símbolos em sua superfície e ponderou a respeito de como seria o cliente seguinte.

Como sempre fazia, conferiu o estilete no bolso traseiro do jeans, expeliu a fumaça aromatizada de menta e entrou no bar.

Sentou-se ao balcão, pediu uma Kaiser e, enquanto bebericava, inspecionou o ambiente à procura do próximo parceiro de jogo. Talvez fosse interessante.

Apesar de ser mestre em sua especialidade, Deque 13 sempre considerava a possibilidade de perder como real.

A carta que voltou ao baralho momentos atrás era um ás de espadas.

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