Labirinto

September 1, 2007

ás de espadas

Filed under: K.I.S.S.

Deque 13 estava parado como de costume nas sombras das cercanias.

O centro da cidade, apesar da campanha recente de recuperação do patrimônio representada pela reforma de alguns prédios antigos, ainda era de natureza dupla…

Entenda: no horário comercial lojas, lanchonetes e prestadores de serviços sortidos trabalhavam de modo a atrair um público de pessoas comuns.

À noite a situação mudava; os moradores do centro viviam empilhados em cortiços com condições subhumanas, convivendo com mais de uma espécie de animais perniciosos, enquanto a variedade bípede destes circulava nas ruas.

Pervertidos, psicopatas, ladrões, viciados ou cidadãos no limite.

Deque 13 preferia a cidade à noite. As possibilidades de negócios aumentavam significativamente. Suas chances de ganhar dinheiro sem violência, também.

Tudo que você precisa saber sobre o sr. 13 é: não aposte com ele.

Alguns diziam que Deque enxergava as conexões não-locais e entendia as implicações de cada nódulo de realidade.

Outros, menos científicos, preferiam a interpretação mística pro que ele fazia: em contato com forças ocultas (espíritos, divindades ou o que seja), interpretava sinais como ninguém e sempre ganhava.

Havia ainda os que preferiam a versão neurolingüística, segundo a qual Deque 13 induzia o apostador rival a fazer todos os movimentos errados, que ele interpretaria. A visão de um objeto qualquer em determinado ângulo poderia afetar o opositor de modo que ele entregasse o jogo sem perceber.

Deque, por sua vez, se autodefinia como alguém que está tentando ‘ganhar a vida’, palavras dele. Ganhar ele ganhava.

Acendendo mais um cigarro, desviou o rosto de modo a evitar que a fumaça entrasse em seus olhos. Caminhou pelas calçadas velhas e úmidas do centro.

O alvo da vez poderia ser qualquer um. Não importava.

Puxou o baralho que carregava no bolso interno do casaco e olhou pras cartas novamente. Embaralhou, misturou, tirou uma delas. Observou os símbolos em sua superfície e ponderou a respeito de como seria o cliente seguinte.

Como sempre fazia, conferiu o estilete no bolso traseiro do jeans, expeliu a fumaça aromatizada de menta e entrou no bar.

Sentou-se ao balcão, pediu uma Kaiser e, enquanto bebericava, inspecionou o ambiente à procura do próximo parceiro de jogo. Talvez fosse interessante.

Apesar de ser mestre em sua especialidade, Deque 13 sempre considerava a possibilidade de perder como real.

A carta que voltou ao baralho momentos atrás era um ás de espadas.

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