Labirinto

September 14, 2007

efervescência

Filed under: O Centro

olhava pra ela ou além dela através de um rasgo no espaço-tempo que permitia vê-la em todas as fases, de zigoto a comida de vermes, todas imbuídas de poesia, de vida e morte.

concentrar-se pra ver além das marcas da idade, além da postura pensada, além da pele - órgão fascinante - era tão difícil quanto manter-se são na efervescência de vida e conflitos e reconciliações que era respirar e ficar à tona e ficar à toa.

a borda dos olhos pregueada pela incidência, pela insistência da luz que dilatava pupilas, escurecia o humor vítreo.

braço direito tatuado em rosa pela pressão, pelo peso da alça da bolsa.

jeans justos.

camiseta florida em tons de amarelo e marrom, cores recorrentes desde o último sábado e o vestido e a blusinha e os quadris em movimento vertiginoso, outra mulher, outra verdade atemporal.

mantendo-se ereta graças a qual liturgia, a qual magia secreta?, sendo carregada e carregando ao mesmo tempo.

o soalho sob seus pés, barroco e metálico, a nervura de sustentação, o enraizamento em pleno ar.

poesia slow motion.

cabelos presos judiciosamente, células mortas, já mortas, antecipadamente mortas, fios escapando do nó perpetrado por suas mãos.

adornos dourados nos dedos brancos, brancura subindo pelos braços sacudidos pela vibração familiar do motor, consistência testada e aprovada pela força centrífuga das voltas.

querer roçar a pele dela imaculada, inatingível e correr o risco de receber o rótulo.

encaixar, receber o corpo dela no dele.

socialmente inaceitável, sexualmente aprazível.

estímulos visuais trabalhando em conjunto com o movimento involuntário, com a inércia, despertando-o pro que está além do parecer.

olhando na sua direção, esperando que seus olhares se cruzassem, treinando formar com os lábios as palavras certas, na hora e ritmo certos, pra que ela lêsse sua boca como signo, pra que ela "leia minha mente" - as palavras - e caia no vermelho sangüíneo, vital, na ebulição que transcende o aceitável e chama pro coito, como cachorros no cio, guiados pelo cheiro, feromônios, sentidos e instintos.

ele fechou os olhos e ela retribuiu seu olhar, todos os tempos agora, e foi ele quem leu a mente dela e tudo ficou bem afinal.

corpos ansiosos por reafirmarem suas vidas seguiram o único caminho possível.

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