1.2

October 24, 2007

comecei falando de Mira porque queria um bom começo, mas o caso não começou com ela. adoro repetições, você não?

de qualquer modo a conheci depois que meu empregador apareceu pruma entrevista daquelas. você sabe. mais coisas a respeito de que ainda não me sinto confortável pra falar, até porque ainda não entendi direito.

mas que seja.

entrei no escritório pouco depois de passar por Rita, a recepcionista que contratei graças à ajuda de Izzy com as finanças. explico: ela ajudou a organizar o escritório pouco depois de ele deixar de ser possuído, mas essa é outra história.

perguntei a Rita se alguém tinha ligado e ela negou sem dizer nenhuma palavra. diferente dos filmes de Bogart, Rita não era nenhum mulherão digno de nota, pelo menos não ainda, mas era simpática, prestativa e passava metade do tempo que eu remunerava entre salas de bate-papo, orkut e msn. a outra metade passava ouvindo seu mp3 e balançando a cabeça de lá pra cá ou de cima pra baixo, dependendo do ritmo a que escutava.

havia algo nela que denunciava a mulher que viria a ser quando atingisse a idade adulta, tirasse o piercing lingual e fosse a um fonoaudiólogo corrigir o que ela mesma estragou. por enquanto, na carteira de trabalho, ela estava registrada como estagiária e parecia contente de ter um dinheirinho pra roupas e a eventual balada no fim de semana.

é claro que tendo tudo isso em mente fica fácil entender porque ela só balançou a cabeça negativamente quando perguntei se alguém tinha ligado. apesar de suspeitar que ela estivesse gingando no ritmo do que quer que tocasse no seu mp3, deixei de fazer a pergunta certa e foi assim que quase ganhei meu primeiro ataque cardíaco.

entrei na sala com a cabeça em outro lugar, alheio às dimensões e disposição dos móveis, sentei na minha cadeira do papai, abri meu ibook. ia começar a teclar quando ouvi o ruído rascante da garganta de Lorre pigarreando. olhei em seus olhos de Jean-Paul Sartre e perguntei quem diabos ele era.

-Não, nenhum diabo. Só alguém interessado em contratar seus serviços. - disse, e me senti afundando na cadeira a ponto de ter que me endireitar.

o sujeito tinha um olhar capaz de fazer minha concentração ir pras picas, mas só descobri o quanto ele afetava meu lobo frontal tempos depois.

é claro que perguntei seu nome, mas já estava pensando na pergunta a seguir quando ele respondeu com uma tranqüilidade inquietante.

CIDADE

October 13, 2007

A.Moraes

1.1

ela olhou pra mim como quem observa um inseto raro. um misto de curiosidade e repulsa.

seu corpo bem delineado, flexível, músculos no ponto exato entre a energia explosiva e a sensualidade da carne, me fez desejar ser um vilão de histórias em quadrinhos só pra receber seu toque mesmo que fosse um soco.

Izzy tinha feito um bom trabalho me iniciando nos prazeres do masoquismo. eu queria ser estrangulado pelas coxas de Mira Bandeira, a primeira heroína com quem trabalhei.

tudo culpa de Lorre. sim, aquele, não o do cinema. cismou que pra minha investigação dar certo eu precisaria de alguém capaz fisicamente me auxiliando.

quando ele disse isso entendi como os portadores de necessidades especiais devem se sentir. pelo menos acho que entendi.

até a hora de ser apresentado a Mira, odiei Lorre com todas as minhas forças… as que sobraram depois de erguer e baixar repetidas vezes meu quartilho de Jack e derramar seu conteúdo dourado em minha obscuridade privativa… depois o reverenciei.

ela era exatamente o tipo de inspiração que me faria pegar no tranco se precisasse.

corpo enlouquecedor. perfil nacional. também, com esse nome… ou seria codinome? perguntei.

-Não interessa.- ela respondeu. -Cara, o que importa mesmo é saber se cê vai ser capaz de trabalhar com tanto uísque no rabo.

jeitosa, bem meu tipo. Lorre fez as apresentações formais, mas, claro, foi formal demais. falei pra ela como meus amigos me chamavam e, já que íamos ser parceiros…

-Bono? É irmão do Bozo?

coisas que eu ainda não sabia sobre Mira e que podiam mudar nossa relação: ela não era tão casca-grossa quanto queria parecer. tinha um livro de poesia publicado e trabalhava num outro texto que tinha dificuldade de categorizar. poderia ser um misto de autobiografia e auto-ajuda, pelo que entendi.

Mira tinha esse distúrbio de personalidade (que eu achava tão cativante quanto suas coxas bem torneadas) que a levava a fazer associação de palavras e trocadilhos compulsivamente. talvez fosse só um reflexo de sua alma de poeta. talvez fosse pura sacanagem.

claro que como isso aqui não passa de uma retrospectiva rápida, não vou revelar tudo de uma vez. no começo senti saudade do caso anterior, muito mais simples.

e começa…

…hoje à noite (ou de madrugada) devo postar a primeira parte do primeiro capítulo de CIDADE, a nova novela de Lucas Profit, ou Bono pros íntimos.

isso porque cheguei num ponto da história em que tudo deve se encaminhar pruma resolução de algum tipo.

fazer a primeira história foi interessante e também um aprendizado. acho que dessa vez consegui evitar pelo menos alguns erros que cometi quando me aproximava do final.

além disso tem o lance de não ter tido pressa de terminar, o que é importante, até porque não terminei, de fato.

mimesis

October 6, 2007

a maioria das pessoas não aceita que sua ficção seja desprovida de causa.

olha só: se toda ficção é, até determinado ponto, mimesis, deveria ser comum que pelo menos parte dela fosse mais casual, sem foco ou propósito específicos.

se o leitor conseguisse absorver mais sinais do que aqueles permitidos pelo seu imprint, sua programação pra viver no construto social (como eu mesmo vivo), talvez tivesse a percepção certa pra absorver material polifônico, produzido por um fluxo de onisciência…

mas deliro.

já há aqueles que correm atrás da fantasia, do terror como entretenimento.

mesmo assim, só querem o terror explicável.

filmes japoneses desse gênero são interessantes por causa disso.

o terror pode ser mais derivado de uma diferença cultural, da estranheza de um outro construto social, do que do medo primordial em si.

informações às quais não estamos acostumados, que não pertencem ao contexto em que vivemos fluem e incomodam.

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