1.2
comecei falando de Mira porque queria um bom começo, mas o caso não começou com ela. adoro repetições, você não?
de qualquer modo a conheci depois que meu empregador apareceu pruma entrevista daquelas. você sabe. mais coisas a respeito de que ainda não me sinto confortável pra falar, até porque ainda não entendi direito.
mas que seja.
entrei no escritório pouco depois de passar por Rita, a recepcionista que contratei graças à ajuda de Izzy com as finanças. explico: ela ajudou a organizar o escritório pouco depois de ele deixar de ser possuído, mas essa é outra história.
perguntei a Rita se alguém tinha ligado e ela negou sem dizer nenhuma palavra. diferente dos filmes de Bogart, Rita não era nenhum mulherão digno de nota, pelo menos não ainda, mas era simpática, prestativa e passava metade do tempo que eu remunerava entre salas de bate-papo, orkut e msn. a outra metade passava ouvindo seu mp3 e balançando a cabeça de lá pra cá ou de cima pra baixo, dependendo do ritmo a que escutava.
havia algo nela que denunciava a mulher que viria a ser quando atingisse a idade adulta, tirasse o piercing lingual e fosse a um fonoaudiólogo corrigir o que ela mesma estragou. por enquanto, na carteira de trabalho, ela estava registrada como estagiária e parecia contente de ter um dinheirinho pra roupas e a eventual balada no fim de semana.
é claro que tendo tudo isso em mente fica fácil entender porque ela só balançou a cabeça negativamente quando perguntei se alguém tinha ligado. apesar de suspeitar que ela estivesse gingando no ritmo do que quer que tocasse no seu mp3, deixei de fazer a pergunta certa e foi assim que quase ganhei meu primeiro ataque cardíaco.
entrei na sala com a cabeça em outro lugar, alheio às dimensões e disposição dos móveis, sentei na minha cadeira do papai, abri meu ibook. ia começar a teclar quando ouvi o ruído rascante da garganta de Lorre pigarreando. olhei em seus olhos de Jean-Paul Sartre e perguntei quem diabos ele era.
-Não, nenhum diabo. Só alguém interessado em contratar seus serviços. - disse, e me senti afundando na cadeira a ponto de ter que me endireitar.
o sujeito tinha um olhar capaz de fazer minha concentração ir pras picas, mas só descobri o quanto ele afetava meu lobo frontal tempos depois.
é claro que perguntei seu nome, mas já estava pensando na pergunta a seguir quando ele respondeu com uma tranqüilidade inquietante.
