1.4

November 16, 2007

a essa altura eu já estaria devaneando sobre meu sonho mais recente ou fazendo livre associação de idéias pra passar o tempo enquanto Lorre dava voltas e mais voltas ao redor do próprio umbigo sem chegar a nenhum ponto.

mas como disse antes, o olhar estranho do gorducho me afetava de modo a alterar o que seria meu comportamento normal.

sua tergiversação incessante a respeito de como a equipe que reunira era capacitada e quão extenso era seu conhecimento de minha vida pregressa me mantinham interessado, hipnotizado.

curioso pra que ele dissesse logo a que tinha vindo, verbalizei.

-Reitero que se trata de uma questão incomum. Preciso de um investigador isento para a tarefa. Flexível quanto a verdadeira natureza da realidade. Que não se assuste fácil.

sorri meu melhor sorriso, cheio de orgulho por ouvir todas aquelas características dos fodões sendo associadas a mim e de repente me dei conta.

-Talvez o sr. tenha pelo menos uma das qualidades demandadas.

"Talvez", respondi, murchando 70%. um de 3 não era tão ruim.

-Trata-se de um desaparecimento.

"Seqüestro?", tasquei imediatamente.

-Não sejamos precipitados em atribuir valores aos acontecimentos. Não houve pedido de resgate e, como já sugeri, trata-se de uma situação sui generis.

"Quem desapareceu?" queria apressá-lo. não via mais sentido em ser enrolado e me senti cheio de competência, capaz de resolver o caso dali mesmo, sem sequer sair da minha mesa.

ele me olhou novamente nos olhos com aqueles pires de íris leitosa e me senti, novamente, afundando.

-Não se trata de uma pessoa.

"O quê, então?"

-Não se trata de um objeto.

"Raios!" explodi. o que seria? um animal de estimação? uma nuvem do céu? o amor de uma mulher?

ele sorriu como se pudesse ler minha mente. sorriso sinistro. nada confortador. respirei fundo e esperei que ele, afinal, soltasse a bomba. eu não estava preparado.

-É uma cidade, sr. Profit. Uma cidade desapareceu.

1.3

November 4, 2007

-Scarpetta. Diego Scarpetta. E para evitar futuros embaraços, espero que o sr. se dirija a mim usando um desses nomes, ou uma variação possível, como don Diego ou algo que o valha. Não me chame de Lorre, por favor.

"Como em Peter Lorre?" perguntei, meio assustado. Afinal, era quase certo que o indivíduo diante de mim não fosse de fato Peter Lorre, mas a pergunta, a segunda que pensei em fazer, era justamente se ele sabia o quanto parecia com o ator.

-Se não soubesse é provável que não o tivesse advertido quanto a me chamar assim, não acha?

apesar de minha escorregada entre modo silencioso de pensamento e a modalidade em voz alta, achei que fazia sentido e deixei isso claro pra ele.

o silêncio pairou, embaraçoso, entre nós por um par de minutos. deixei que pairasse mais um pouco. estava interessado em saber o quanto Lorre precisava de um detetive e por que, de todos os que estavam disponíveis na praça, escolheu justo a mim. recolhi o silêncio com o que eu esperava soasse como um indolente "Do que se trata?"

-Já disse: estou interessado em contratar seus serviços. Vim aqui com o único objetivo de decidir se o sr. é o homem certo para a empreitada que estou capitaneando. O sr. sabe, não posso contratar qualquer um. É necessário que se tenha uma mente aberta quanto a certas questões controversas.

"Como por exemplo?", cutuquei, pra ver se ele abria o jogo.

-Tenho conhecimento de que o sr. já lidou com problemas pouco usuais antes. Sei que foi responsável pela recuperação de objetos místicos para um ramo obscuro da igreja católica.

quase perguntei se ele queria ver. os pregos estavam em meu bolso, a marreta na última gaveta da escrivaninha. ao invés disso, dei mais corda com um "Sim?" que era pra soar lacônico.

-Sei que o sr. tem relacionamentos com o submundo e com figuras exóticas que podem ou não pertencer a ele. Como pode ver, minha pesquisa a seu respeito foi bastante extensiva.

e quem já não tinha se relacionado com o demônio numa base diária? e quem não tinha como melhor amigo um ocultista? eu queria provar pro gorducho que era normal, que não tinha nada errado nisso, que não era ‘pouco usual’. mas entendi aonde ele queria chegar com sua conversa mole.

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