1.4
a essa altura eu já estaria devaneando sobre meu sonho mais recente ou fazendo livre associação de idéias pra passar o tempo enquanto Lorre dava voltas e mais voltas ao redor do próprio umbigo sem chegar a nenhum ponto.
mas como disse antes, o olhar estranho do gorducho me afetava de modo a alterar o que seria meu comportamento normal.
sua tergiversação incessante a respeito de como a equipe que reunira era capacitada e quão extenso era seu conhecimento de minha vida pregressa me mantinham interessado, hipnotizado.
curioso pra que ele dissesse logo a que tinha vindo, verbalizei.
-Reitero que se trata de uma questão incomum. Preciso de um investigador isento para a tarefa. Flexível quanto a verdadeira natureza da realidade. Que não se assuste fácil.
sorri meu melhor sorriso, cheio de orgulho por ouvir todas aquelas características dos fodões sendo associadas a mim e de repente me dei conta.
-Talvez o sr. tenha pelo menos uma das qualidades demandadas.
"Talvez", respondi, murchando 70%. um de 3 não era tão ruim.
-Trata-se de um desaparecimento.
"Seqüestro?", tasquei imediatamente.
-Não sejamos precipitados em atribuir valores aos acontecimentos. Não houve pedido de resgate e, como já sugeri, trata-se de uma situação sui generis.
"Quem desapareceu?" queria apressá-lo. não via mais sentido em ser enrolado e me senti cheio de competência, capaz de resolver o caso dali mesmo, sem sequer sair da minha mesa.
ele me olhou novamente nos olhos com aqueles pires de íris leitosa e me senti, novamente, afundando.
-Não se trata de uma pessoa.
"O quê, então?"
-Não se trata de um objeto.
"Raios!" explodi. o que seria? um animal de estimação? uma nuvem do céu? o amor de uma mulher?
ele sorriu como se pudesse ler minha mente. sorriso sinistro. nada confortador. respirei fundo e esperei que ele, afinal, soltasse a bomba. eu não estava preparado.
-É uma cidade, sr. Profit. Uma cidade desapareceu.
