2.1

December 28, 2007

Mira Bandeira não foi uma aquisição aleatória de Lorre. é evidente que ele a pesquisou tão extensivamente quanto a mim e, provável, com mais facilidade, já que volta e meia os feitos da guria eram narrados nos jornais, na tevê, portais de internet e outros meios de comunicação que talvez eu desconheça.

depois de nos conhecermos por mais tempo ela me disse que bater nos bandidos era sua terapia nº1 e que era uma compensação pela frustração de vê-los, na maior parte das vezes, voltando às ruas sem mais que um tapinha na mão por parte das ditas autoridades.

as prisões feitas por vigilantes fora-da-lei eram desconsideradas pelo sistema judiciário por serem, bom, ilegais. Mira pensou alto:

-Talvez eu devesse começar a causar danos permanentes na anatomia dos marginais.

eu disse que parecia uma boa idéia: eles poderiam se aposentar por invalidez e não precisariam mais praticar nenhum crime. ela respondeu me socando no olho.

nossa relação era mais difícil ainda no começo. Mira cismou que, se a gente ia trabalhar junto, eu tinha que parar de beber e começar a me exercitar. levei muita pancada e quase reclamei com Lorre, mas o receio de que ele desfizesse minha parceria com ela e a substituísse por alguém como o Garça Negra me fez desistir. carinha sinistro.

já disse como ela é atlética, não?

apesar da pancadaria, não cessei totalmente meu consumo de álcool. aproveitava todos os (poucos) momentos em que ela se ausentava pra mamar meu uísquinho querido. o curioso é que o programa de exercícios em que ela me meteu funcionava. apesar de não saber direito se as dores que eu sentia eram das pancadas ou de músculos há muito adormecidos sendo chamados de volta à vida, comecei a perceber que meu tônus melhorava, que conseguia erguer coisas mais pesadas que um copo e que as dores nas costas (pelo menos essas) não me incomodavam mais.

disse pra Mira que talvez fosse legal ela escrever um daqueles livros com dicas de exercícios, dieta e tudo mais. ela resmungou:

-Está tudo no livro em que estou trabalhando agora.

autobiografia, auto-ajuda e livro de dieta? quem lêsse o produto final ficaria meio perdido. usando a sabedoria de Salomão, guardei esse comentário pra mim mesmo.

1.5

Lorre sabia como chamar atenção. "Uma cidade desaparecida?", perguntei, pensando logo no pior. "Seria Atlântida?"

-Nada tão glamouroso, sr. Profit. Apesar disso a possibilidade dessa cidade em particular também ter sido tragada pelas ondas não é tão remota quanto eu e meus associados gostaríamos. Trata-se de uma cidade que costumava estar no litoral sudeste de seu país.

"Mas uma cidade? Isso não apareceria nos jornais?" eu mesmo já começava a pensar nas chances daquela história em particular ser verdadeira, mas mantive a boca fechada. o sujeito ainda era um cliente em potencial.

-Nesse caso específico, não. Como já insinuei, é uma situação muito peculiar.

"Há quanto tempo?", consegui forçar-me a perguntar.

-Perdão?… Ah, sim, entendi. A cidade está desaparecida desde 1938.

"E só agora sentiram falta?" era absurdo demais. nem a polícia local pedia que se esperasse 70 anos pra prestar queixa de um desaparecimento. ainda mais de um desaparecimento em massa, como parecia ser o caso. perguntei por perguntar, já que sabia a resposta.

-É um caso especial e algumas informações só poderão ser divulgadas se aceitar a função de encontrá-la.

"Vai demandar muito trabalho de pernas…" falei baixinho, já visualizando o que viria a seguir.

-O sr. será pago, sr. Profit. Regiamente pago. Consideramos seus honorários e estamos preparados pra torná-lo rico em caráter permanente se nos ajudar.

"E quem mais está envolvido nisso? Quem é esse ‘nós’ a que você passou a se referir de repente?"

-Tudo a seu tempo, meu caro. Considere-nos como parte interessada. Será o suficiente.

mais voltas, mais enrolação. tudo o que Lorre me fizera saber era que eu estava prestes a aceitar mais um trabalho estranho.

"Você vai pagar em dinheiro, certo? Não quero ser milionário e receber minha fortuna em vale-alimentação." murmurei. mas ele já tinha me fisgado e sabia disso.

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