Labirinto

January 5, 2008

2.3

Filed under: K.I.S.S.

talvez você já tenha experimentado a sensação de que seus órgãos internos querem subir, num tumulto, até sua boca e derramarem-se no chão, um jorro de líquidos e sólidos indescritível. quando pensei que ia sofrer um colapso total e me estatelar no calçadão da praia, Mira diminuiu o ritmo até que eu a alcançasse e disse a única coisa que poderia servir de estímulo pra mim àquela altura do campeonato:

-Desse jeito você nunca vai dar conta de mim na cama, Profit.

apesar de cogitar a possibilidade de que toda aquela irrigação sanguínea em conjunto com a hiperventilação e a produção de uma cascata de endorfinas estivessem me causando alucinações auditivas, tentei acelerar o passo.

a hipótese de ir pra cama com Mira me deixava mais excitado que minha fantasia sexual astronômica de foder um buraco negro e gozar a Via Láctea. de repente correr começou a parecer muito mais animador e minha respiração, submetida a um esforço hercúleo, começou a parecer quase normal.

não durou muito.

a escuridão da noitinha caía.

um pequeno tumulto a 200 metros chamou a atenção de Mira, que acelerou, me deixando pra trás sem esforço. me empenhei em alcançá-la.

três pivetes arrastavam uma idosa pela calçada que se recusava ou não conseguia largar a bolsa.

em gibis de super-heróis o lugar-comum é o cara parar perto da marginália, dizer uma frase de efeito, ser subestimado e dar um cacete nos caras. Mira deu um foda-se à burocracia do procedimento e já chegou distribuindo safanões. mão aberta pra não machucar demais. na bunda, que é macia e onde se bate em criança.

os moleques se apavoraram com a ‘tia lôca’ e saíram correndo mais rápido do que eu jamais conseguiria. claro que não a conheciam. não liam jornais, não viam tevê ou acessavam a internet. uma coisa é certa: Mira tinha jeitos diferentes de estimular as pessoas a se exercitarem.

ajudou a idosa a levantar-se ainda se movendo, fazendo pique-no-lugar, mantendo o corpo aquecido. perguntou se ela estava bem, devolveu-lhe a bolsa, me esperou chegar perto e recomeçou a correr. tudo isso sem parecer fazer mais esforço do que o que fizera correndo comigo até ali.

-Falta um quilômetro.- ela me disse sorrindo e eu, muito estranho, sorri de volta. ainda não sei como consegui.

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